Capítulos
2 Macabeus
Autoria e Data de Composição
2 Macabeus apresenta-se explicitamente como um epítome (resumo) de uma obra em cinco volumes escrita por Jasão de Cirene (2 Mc 2:23). Jasão é desconhecido fora deste livro e sua obra original não sobreviveu. O epitomista, também anônimo, condensou os cinco volumes em um único livro, acrescentando um prólogo e epílogo próprios (2 Mc 2:19-32 e 15:37-39).
A datação envolve duas camadas. A obra de Jasão de Cirene teria sido composta logo após 160 a.C. (a narrativa termina com a morte de Nicanor, pouco antes da morte de Judas). O epitomista, por sua vez, teria trabalhado provavelmente após 104 a.C., segundo alguns estudiosos, embora outros proponham uma data anterior, entre 124 e 63 a.C. Não há consenso preciso. As duas cartas introdutórias (caps. 1-2) são tratadas por alguns pesquisadores como acréscimo independente, possivelmente datado de 124 a.C. com base em referência interna (2 Mc 1:10).
O livro foi composto diretamente em grego, ao contrário de 1 Macabeus (originalmente em hebraico). O estilo grego é elaborado, com discursos dramáticos, ênfase emocional e aparições sobrenaturais, características do gênero historiográfico grego denominado história patética (que busca mover os afetos do leitor).
Status Deuterocanônico
2 Macabeus integra o cânon católico e de várias igrejas ortodoxas, mas está fora do cânon hebraico (Tanakh) e do cânon protestante. Como foi composto diretamente em grego, chegou ao Ocidente cristão pela Septuaginta (LXX), a coleção de Escrituras judaicas em grego adotada pelas comunidades cristãs desde o início.
O Concílio de Trento (4 de abril de 1546, decreto De Canonicis Scripturis) confirmou 2 Macabeus como escritura canônica católica. O livro tem relevância teológica específica para a Igreja Católica: a passagem de 2 Mc 12:38-46 (oração e sacrifício pelos soldados mortos) é o principal texto bíblico citado em favor da doutrina do Purgatório e da oração pelos falecidos, e 2 Mc 7 é um dos textos veterotestamentários mais explícitos sobre ressurreição corporal dos mortos.
Diferenças em relação a 1 Macabeus
2 Macabeus não é continuação de 1 Macabeus: os dois livros são independentes e em parte cobrem os mesmos eventos (175-160 a.C.) de perspectivas distintas. 1 Macabeus é mais sóbrio, cronológico e abrange um período maior (175-134 a.C.). 2 Macabeus é mais curto cronologicamente (175-160 a.C.), enfatiza milagres e intervenções celestes, o martírio como testemunho de fé, e temas teológicos como ressurreição e intercessão. Onde os dois relatos diferem em detalhes, não é possível resolver a discrepância com certeza por meios históricos, pois Jasão de Cirene é desconhecido fora do livro e suas fontes são inacessíveis.
Conteúdo do Livro
- Primeira carta: judeus de Jerusalém convocam a diáspora do Egito a celebrar a Festa da Dedicação (Hanucá) — (2Mc 1:1)
- Segunda carta: relato da morte miraculosa de Antíoco IV e restauração do fogo sagrado do altar — (2Mc 1:10)
- Prólogo do epitomista: declara que o livro é resumo de cinco volumes de Jasão de Cirene, pedindo indulgência por eventuais falhas — (2Mc 2:19)
- Heliodoro, enviado pelo rei Seleuco IV, tenta saquear o tesouro do Templo e é abatido por cavaleiros celestes — (2Mc 3:1)
- Jasão compra o sumo sacerdócio de Antíoco IV e introduz práticas helenísticas em Jerusalém — (2Mc 4:7)
- Antíoco IV saqueia o Templo e massacra habitantes de Jerusalém; instalação de uma guarnição na Cidadela — (2Mc 5:11)
- Proibição das práticas judaicas; o Templo é consagrado a Zeus Olímpico; profanação com sacrifícios proibidos — (2Mc 6:1)
- Martírio de Eleazar: o ancião recusa comer carne de porco e morre com dignidade, dando exemplo às gerações futuras — (2Mc 6:18)
- Martírio dos sete irmãos e da mãe: cada irmão morre professando a fé na ressurreição dos mortos; a mãe encoraja todos e morre por último — (2Mc 7:1)
- Judas Macabeu organiza a resistência; derrota Nicanor e Górgias; distribui os despojos entre os pobres e os sobreviventes — (2Mc 8:1)
- Morte de Antíoco IV: o rei é acometido de doença horrível enquanto tentava saquear um templo persa; morre em sofrimento — (2Mc 9:1)
- Purificação e rededição do Templo; instituição da festa por oito dias (Hanucá) — (2Mc 10:1)
- Lisias ataca a Judeia; aparição de cavaleiros celestes; Lisias é derrotado e assina um acordo de tolerância — (2Mc 11:1)
- Após uma batalha, Judas manda oferecer sacrifício expiatório em Jerusalém pelos soldados caídos que portavam amuletos idólatras; fundamento bíblico para a oração pelos mortos — (2Mc 12:38)
- Antíoco V e Lisias invadem a Judeia; cerco ao Templo; negociação de paz — (2Mc 13:1)
- Demétrio I envia Nicanor para eliminar Judas; o Sumo Sacerdote Alcimo o apoia — (2Mc 14:1)
- Judas tem uma visão do sumo sacerdote Onias e do profeta Jeremias intercedendo por Israel — (2Mc 15:1)
- Batalha final: Judas derrota e mata Nicanor; a cabeça e o braço direito de Nicanor são expostos em Jerusalém (Dia de Nicanor) — (2Mc 15:25)
Cartas introdutórias e prólogo do epitomista (caps. 1-2)
Crise e profanação do Templo (caps. 3-7)
A resistência de Judas Macabeu (caps. 8-10)
Batalhas e intervenção celeste (caps. 11-13)
Ameaça de Nicanor e vitória final (caps. 14-15)
Temas Teológicos Centrais
2 Macabeus apresenta desenvolvimentos teológicos significativos para o judaísmo do Segundo Templo e para o Novo Testamento:
- Ressurreição corporal dos mortos (2 Mc 7:9.14.23; 14:46): os mártires morrem confiando que Deus os ressuscitará. É um dos textos mais antigos e explícitos sobre essa crença no conjunto das Escrituras judaicas.
- Criação ex nihilo(2 Mc 7:28): a mãe instrui o filho a crer que Deus fez o universo "do nada", uma das primeiras afirmações desta formulação teológica na literatura judaica.
- Intercessão dos santos e oração pelos mortos (2 Mc 12:43-46; 15:12-16): Judas manda rezar pelos soldados caídos; Jeremias e Onias aparecem em visão intercedendo por Israel.
- Martírio como testemunho: o livro desenvolve uma teologia do martírio que influenciou o judaísmo rabínico e o cristianismo primitivo.