Capítulos
Eclesiástico
Autoria e Data de Composição
O autor se identifica explicitamente no próprio livro: Jesus ben Eleazar ben Sira, um escriba e mestre de sabedoria de Jerusalém. Esse grau de identificação autoral é raro nos livros bíblicos, tornando a atribuição do texto mais segura do que na maioria das obras do período.
A composição original em hebraico é datada com relativo consenso em torno de 180 a.C., no início do período selêucida, provavelmente entre 196 e 175 a.C. O texto reflete um Jerusalém ainda sem a crise dos Macabeus, o que ajuda a delimitar a data.
O neto de Ben Sira emigrou para o Egito e traduziu a obra para o grego em 132 a.C., durante o reinado de Ptolomeu VIII Evérgetes II (38.º ano do reinado, conforme o próprio prólogo). Ele escreveu um prólogo explicando os motivos da tradução e admitindo as dificuldades de transpor o hebraico para o grego. Esse prólogo é considerado o testemunho mais antigo de um cânon tripartite das Escrituras judaicas (Lei, Profetas e os demais escritos).
Status Deuterocanônico
O Eclesiástico não está no cânon hebraico (Tanakh) nem no cânon protestante. A tradição rabínica excluiu o livro das Escrituras sagradas, embora o texto seja citado ocasionalmente no Talmude. Martinho Lutero o classificou como apócrifo.
O livro integra a Septuaginta (LXX) e foi amplamente utilizado pelas primeiras comunidades cristãs. O Concílio de Trento (1546) o declarou canônico para a Igreja Católica. Igrejas Ortodoxas também o reconhecem. O livro possui dois nomes de abreviatura em uso: si (forma abreviada de Sirácida) e sir (de Sirach).
Manuscritos
A história textual do Eclesiástico é complexa e fascinante. O texto original em hebraico foi considerado perdido por séculos, e o livro era conhecido apenas em grego. Dois conjuntos de descobertas mudaram esse quadro:
- Cairo Geniza (a partir de 1896): Fragmentos de seis manuscritos hebraicos medievais foram identificados, copiados nos séculos XI e XII. Ao todo, cerca de 60% do texto sobrevive em hebraico entre Massada e a Geniza.
- Masada (escavações de 1963–1965): Um fragmento hebraico datado de antes de 73 d.C. foi descoberto, correspondendo a Si 39:27–44:17. Ele confirma a autenticidade dos manuscritos da Geniza: ambos diferem em detalhes mínimos, apesar de separados por cerca de mil anos.
- Manuscritos gregos: Codex Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus (sécs. IV–V d.C.) transmitem a versão grega do neto, que em alguns trechos expande o original.
- Qumran: Dois fragmentos hebraicos foram encontrados nas cavernas 2 e 11, embora menos extensos do que os de Masada e Cairo.
Conteúdo Principal
- Toda sabedoria vem do Senhor; o temor de Deus é princípio e plenitude da sabedoria — (Si 1:1)
- Exortação à paciência na provação; confiar em Deus nas adversidades — (Si 2:1)
- Deveres para com o pai e a mãe; honrar os pais traz bênção — (Si 3:1)
- Obrigações para com os pobres; a Sabedoria recompensa quem a busca — (Si 4:1)
- Não confie em riquezas nem adie a conversão; controle a língua — (Si 5:1)
- Sobre a amizade verdadeira e falsa; como discernir amigos sinceros — (Si 6:5)
- Diversas obrigações: para com Deus, os sacerdotes, os pobres e a família — (Si 7:1)
- A arrogância do governante e a vaidade do orgulho humano — (Si 10:1)
- Aparências enganam; não julgue precipitadamente; confie apenas em Deus — (Si 11:1)
- Bem-aventurado quem medita na Sabedoria e a busca como um caçador — (Si 14:20)
- Deus criou o ser humano da terra e lhe deu conhecimento e lei — (Si 17:1)
- Oração para guardar a boca; pecado da língua e reparação — (Si 22:27)
- Elogio da Sabedoria por ela mesma: criada antes do mundo e identificada com a Torah — (Si 24:1)
- Coisas belas e coisas detestáveis; sobre maridos e esposas — (Si 25:1)
- Perigos do comércio; segredo e lealdade nas amizades — (Si 27:1)
- Sonhos e adivinhações são ilusões; a experiência do viajante educa — (Si 34:1)
- Honre o médico; o luto pelos mortos; o trabalho do artesão — (Si 38:1)
- O escriba sábio: medita na lei, viaja, serve aos grandes e ora a Deus — (Si 39:1)
- Hino de louvor ao Criador pelas maravilhas da natureza — (Si 42:15)
- "Louvemos agora os homens ilustres": Enoc, Noé, Abraão, Isaque, Jacó — (Si 44:1)
- Moisés, Aarão e Finéias: a aliança sacerdotal — (Si 45:1)
- Josué, Calebe, Samuel e os Juízes — (Si 46:1)
- Davi, Salomão e seus sucessores — (Si 47:1)
- Elias, Eliseu, Ezequias e Isaías — (Si 48:1)
- Simão, sumo sacerdote; louvor litúrgico e bênção final — (Si 50:1)
- Ação de graças de Ben Sira por sua libertação; convite a buscar a Sabedoria — (Si 51:1)
Prólogo e Elogio da Sabedoria (caps. 1–4)
Instruções Práticas para a Vida (caps. 5–23)
Temas de Conduta Social (caps. 24–43)
Elogio dos Antepassados (caps. 44–50)
Epílogo e Oração do Autor (cap. 51)
Paralelos e Recepção
O livro é a maior coleção sapiencial do Segundo Templo. O capítulo 24, onde a Sabedoria fala em primeira pessoa e se identifica com a Torah em Sião, influenciou o prólogo do Evangelho de João (Jo 1:1–14) e a cristologia sapiencial de Paulo (1 Co 1:24). O "Elogio dos Antepassados" (caps. 44–50) é um dos primeiros exemplos de retrospectiva histórica comemorativa na literatura judaica.
Si 38:1–15 contém uma das poucas passagens bíblicas que valoriza positivamente a medicina e os médicos, o que gerou debate sobre a relação entre fé e cuidado médico na tradição judaica e cristã.