Capítulos

A Sabedoria personificada, coroada de luz

Sabedoria

Autoria e Data de Composição

O livro fala na primeira pessoa de um rei que pediu sabedoria a Deus (caps. 7 a 9), evocando Salomão sem nunca o nomear. O nome nele atribuído é convenção pseudepigráfica, e nenhum especialista o sustenta como autoria histórica. Salomão reinou no século X a.C. e teria falado hebraico; este texto foi composto cerca de mil anos depois, diretamente em grego. A pseudonímia salomônica era um recurso reconhecido da literatura sapiencial judaica, paralelo à voz do "filho de Davi" em Eclesiastes, e emprestava a autoridade do sábio por excelência a um argumento contemporâneo.

O consenso acadêmico situa a composição no século I a.C., em Alexandria, no Egito, com alguns estudiosos ampliando a janela até o início do século I d.C. O autor foi um judeu da diáspora egípcia, conhecedor tanto da tradição bíblica hebraica quanto da filosofia grega.

Vários indícios internos confirmam a composição grega e excluem um original semítico anterior. O vocabulário filosófico técnico (a quádrupla das virtudes cardeais estoicas em Sb 8:7, termos como providência), os compostos tipicamente alexandrinos e os jogos de palavras que só funcionam em grego não são decalque de um texto hebraico. Além disso, o autor cita as Escrituras pela Septuaginta e conhece o Sirácida em grego, o que sugere que ele provavelmente não dominava o hebraico. O gênero também é helenístico: o protréptico (exortação à filosofia) e o encômio à Sabedoria personificada, com a retórica epidíctica das escolas gregas.

(Sabedoria 8:7)

Status Deuterocanônico

O livro não faz parte do cânon hebraico nem do cânon protestante. Está ausente da Bíblia Hebraica (Tanakh) e foi excluído da lista de livros aceitos na tradição rabínica. Martinho Lutero o classificou como apócrifo e o removeu do Antigo Testamento protestante.

Por outro lado, a Sabedoria de Salomão faz parte da Septuaginta (LXX), a tradução grega das Escrituras judaicas usada pelas primeiras comunidades cristãs. O Concílio de Trento (1546) confirmou oficialmente seu status canônico para a Igreja Católica Romana. Igrejas Ortodoxas também o incluem em seu cânon.

Manuscritos

Não foram encontrados fragmentos hebraicos do livro nos Manuscritos do Mar Morto nem em qualquer outra coleção, o que é consistente com sua composição original em grego. Os manuscritos mais antigos preservados são unciais gregos:

ManuscritoDescrição
Codex Vaticanus (séc. IV d.C.)Considerado a testemunha mais fiel do texto.
Codex Sinaiticus (séc. IV d.C.)Contém o livro na íntegra.
Codex Alexandrinus (séc. V d.C.)Outra cópia completa importante.
Codex Ephraemi Rescriptus e Codex VenetusTambém transmitem o texto.

Conteúdo Principal

Exortação à Justiça e à Imortalidade (caps. 1 a 6)

  • Convite aos governantes da terra a amar a justiça e a Deus(Sabedoria 1:1)
  • Raciocínio dos ímpios contra a imortalidade; perseguição ao justo(Sabedoria 2:1)
  • As almas dos justos estão nas mãos de Deus; imortalidade como recompensa(Sabedoria 3:1)
  • O justo que morre cedo não é abandonado; o idoso ímpio não tem honra(Sabedoria 4:7)
  • Juízo final: os ímpios reconhecem seu erro; o justo permanece para sempre(Sabedoria 5:1)
  • Exortação aos reis a buscar a Sabedoria; ela se deixa encontrar(Sabedoria 6:1)

Elogio da Sabedoria (caps. 7 a 9)

  • O autor (como Salomão) descreve sua busca pela Sabedoria desde criança(Sabedoria 7:1)
  • Natureza e atributos da Sabedoria: espírito inteligente, único, multiforme(Sabedoria 7:22)
  • A Sabedoria governa tudo com força e docilidade; o autor a deseja como esposa(Sabedoria 8:1)
  • Oração de Salomão pedindo a Sabedoria; sem ela nenhum plano humano tem êxito(Sabedoria 9:1)

História Providencial de Israel (caps. 10 a 19)

  • A Sabedoria guiou Adão, Noé, Abraão, Jacó, José e Moisés(Sabedoria 10:1)
  • As pragas do Egito versus a proteção de Israel: providência divina(Sabedoria 11:1)
  • Crítica à idolatria: adoração da natureza e de ídolos de madeira(Sabedoria 13:1)
  • Origem dos ídolos: vaidade humana e luto por mortos(Sabedoria 14:1)
  • Contraste entre os castigos dos egípcios e os benefícios recebidos por Israel(Sabedoria 16:1)
  • A noite do Êxodo: o Verbo de Deus desce do céu como guerreiro(Sabedoria 18:14)
  • Reflexão final sobre a travessia do Mar Vermelho e a transformação da natureza(Sabedoria 19:1)

Imortalidade da Alma e Ressurreição

O eixo escatológico do livro está em Sb 3:1: "as almas dos justos estão na mão de Deus" e sua esperança "está cheia de imortalidade". O vocabulário é o de uma alma que sobrevive separada do corpo, com o corpo descrito como peso (Sb 9:15), uma antropologia próxima da de Platão. Isso contrasta com as outras testemunhas judaicas do período sobre o destino dos mortos: Dn 12:2, que fala dos que dormem no pó e despertam (ressurreição corporal), e 2Mc 7, onde os mártires esperam receber de volta os próprios membros decepados.

(Sabedoria 3:1)

(Sabedoria 9:15)

(Dn 12:2)

(2 Macabeus 7)

São dois modelos distintos convivendo no mesmo recorte do judaísmo do Segundo Templo. Para uns críticos, isso mostra que a escatologia bíblica tem história e geografia: a imortalidade da alma entra pela porta de Alexandria, vestida de filosofia grega, enquanto a ressurreição corporal brota de uma matriz apocalíptica palestina. Para outros estudiosos, as duas respostas não se excluem, pois respondem a perguntas diferentes (o destino do justo entre a morte e o fim, de um lado, e o destino do corpo e da história no fim, de outro), e o próprio Novo Testamento as mantém em tensão sem percebê-las como contraditórias. O que fica em aberto é se a esperança de imortalidade aqui é desenvolvimento orgânico da fé de Israel sob estímulo grego ou enxerto filosófico sobre um tronco que não a continha.

O Justo Perseguido e a Recepção Cristológica

Em Sb 2:12 os ímpios resolvem provar com tortura e morte vergonhosa o justo que os incomoda, justamente porque ele se proclama filho de Deus. No sentido original, é uma figura paradigmática do mártir judaico genérico, na esteira do servo sofredor de Is 53 e dos salmos de lamento, e o próprio livro responde no capítulo seguinte que esse justo aparentemente vencido está na mão de Deus.

(Sabedoria 2:12)

(Is 53)

A leitura cristã posterior explorou um paralelo verbal real: a zombaria de Mt 27:43 ("confiou em Deus; livre-o agora, se o ama, pois disse: sou Filho de Deus") reproduz quase ponto a ponto Sb 2:18. O detalhe notado pelos comentaristas é que Mateus insere o título "Filho de Deus" na cena da Paixão onde Marcos, sua fonte, não o tem. A direção da dependência é a leitura mais econômica: não é que a Sabedoria previu a Paixão, e sim que o evangelista compôs a cena de escárnio com o molde do justo sofredor já disponível na Septuaginta. A figura é tipológica. A tradição cristã reconheceu em Cristo o justo da Sabedoria e releu o livro à luz dele, o que para a crítica é apropriação retrospectiva e para a apologética é extensão de um padrão que o próprio judaísmo helenístico já havia posto em movimento.

(Mt 27:43)

(Sabedoria 2:18)

A Polêmica Anti-Idolatria (caps. 13 a 15)

A polêmica contra os ídolos delata o lugar e o tempo de composição. O autor ataca a divinização da natureza nos termos da física estoica (Sb 13:1), ridiculariza o culto egípcio aos animais e descreve o culto dinástico aos soberanos ausentes, a religião imperial dos Ptolomeus sob cujo poder ele vivia. Para explicar a origem da idolatria, ele recorre ao evemerismo, a tese grega de que os deuses teriam sido homens mortos progressivamente divinizados: Sb 14:15 narra o pai enlutado que faz a imagem do filho morto e termina por cultuá-la. É teoria grega de história das religiões posta a serviço de uma apologética judaica.

(Sabedoria 13:1)

(Sabedoria 14:15)

A sátira contra o artesão que abate metade da árvore para cozinhar e da outra metade esculpe um deus a quem reza (Sb 13:11) é uma reescrita reconhecível da zombaria de Is 44:9-20, transposta do registro profético hebraico para a diatribe filosófica helenística. Na outra ponta, a correspondência entre estes capítulos e Rm 1:18-25 (conhecer Deus pela criação, recusá-lo, trocar a glória do Criador por imagens de homem e de animais, e a degradação moral que se segue) é um dos casos mais discutidos de uso do livro por Paulo. Boa parte da crítica fala de dependência paulina direta; outra leitura prefere fonte comum ou lugar-comum da apologética judaica. Uma diferença permanece notada: a Sabedoria usa a polêmica para reforçar a fronteira entre judeu fiel e gentio idólatra, ao passo que Paulo retoma a mesma tradição para afirmar a culpa de toda a humanidade.

(Sabedoria 13:11)

(Is 44:9-20)

(Rm 1:18-25)

Recepção no Novo Testamento

Além do uso paulino acima, autores do Novo Testamento ecoam a Sabedoria personificada do livro (pré-existente, reflexo da glória de Deus, agente da criação, em Sb 7:26) para falar de Cristo. A apresentação de Cristo como imagem de Deus e resplendor de sua glória em Hb 1:3 e Cl 1:15 ressoa essa descrição. Para a leitura inerrantista isso levanta a questão de Paulo e outros autores dependerem de um texto que a tradição protestante classifica como apócrifo, o que sugere que a fronteira do cânon é um veredito eclesiástico posterior mais do que uma propriedade intrínseca dos textos. A continuidade de argumento entre Is 44:9-20, a Sabedoria e Rm 1:18-25 descreve melhor uma tradição literária que se desenvolve e se cita do que ditados independentes de uma mesma fonte.

(Sabedoria 7:26)

(Hb 1:3)

(Cl 1:15)

(Is 44:9-20)

(Rm 1:18-25)