Capítulos
Sabedoria
Autoria e Data de Composição
O livro é apresentado como um escrito de Salomão, mas isso é um recurso literário deliberado. Trata-se de uma pseudoepigrafia: o autor real adota a persona do rei sábio como ficção retórica, sem intenção de enganar. Salomão não escreveu este livro.
O consenso acadêmico situa a composição no século I a.C., provavelmente entre 100 e 50 a.C., em Alexandria, Egito. Alguns estudiosos ampliam a janela até o início do século I d.C. O autor foi um judeu da diáspora egípcia, conhecedor tanto da tradição bíblica hebraica quanto da filosofia grega (estoicismo e platonismo influenciam o conceito de imortalidade da alma no livro).
O texto foi composto diretamente em grego, o que exclui qualquer origem hebraica anterior. Não há evidências de que exista ou tenha existido um original semítico.
Status Deuterocanônico
O livro não faz parte do cânon hebraico nem do cânon protestante. Está ausente da Bíblia Hebraica (Tanakh) e foi excluído da lista de livros aceitos na tradição rabínica. Martinho Lutero o classificou como apócrifo e o removeu do Antigo Testamento protestante.
Por outro lado, a Sabedoria de Salomão faz parte da Septuaginta (LXX), a tradução grega das Escrituras judaicas usada pelas primeiras comunidades cristãs. O Concílio de Trento (1546) confirmou oficialmente seu status canônico para a Igreja Católica Romana. Igrejas Ortodoxas também o incluem em seu cânon.
Manuscritos
Não foram encontrados fragmentos hebraicos do livro nos Manuscritos do Mar Morto nem em qualquer outra coleção, o que é consistente com sua composição original em grego. Os manuscritos mais antigos preservados são unciais gregos:
- Codex Vaticanus (séc. IV d.C.): considerado a testemunha mais fiel do texto.
- Codex Sinaiticus (séc. IV d.C.): contém o livro na íntegra.
- Codex Alexandrinus (séc. V d.C.): outra cópia completa importante.
- Codex Ephraemi Rescriptus e Codex Venetus também transmitem o texto.
Conteúdo Principal
- Convite aos governantes da terra a amar a justiça e a Deus — (Sb 1:1)
- Raciocínio dos ímpios contra a imortalidade; perseguição ao justo — (Sb 2:1)
- As almas dos justos estão nas mãos de Deus; imortalidade como recompensa — (Sb 3:1)
- O justo que morre cedo não é abandonado; o idoso ímpio não tem honra — (Sb 4:7)
- Juízo final: os ímpios reconhecem seu erro; o justo permanece para sempre — (Sb 5:1)
- Exortação aos reis a buscar a Sabedoria; ela se deixa encontrar — (Sb 6:1)
- O autor (como Salomão) descreve sua busca pela Sabedoria desde criança — (Sb 7:1)
- Natureza e atributos da Sabedoria: espírito inteligente, único, multiforme — (Sb 7:22)
- A Sabedoria governa tudo com força e docilidade; o autor a deseja como esposa — (Sb 8:1)
- Oração de Salomão pedindo a Sabedoria; sem ela nenhum plano humano tem êxito — (Sb 9:1)
- A Sabedoria guiou Adão, Noé, Abraão, Jacó, José e Moisés — (Sb 10:1)
- As pragas do Egito versus a proteção de Israel: providência divina — (Sb 11:1)
- Crítica à idolatria: adoração da natureza e de ídolos de madeira — (Sb 13:1)
- Origem dos ídolos: vaidade humana e luto por mortos — (Sb 14:1)
- Contraste entre os castigos dos egípcios e os benefícios recebidos por Israel — (Sb 16:1)
- A noite do Êxodo: o Verbo de Deus desce do céu como guerreiro — (Sb 18:14)
- Reflexão final sobre a travessia do Mar Vermelho e a transformação da natureza — (Sb 19:1)
Exortação à Justiça e à Imortalidade (caps. 1–6)
Elogio da Sabedoria (caps. 7–9)
História Providencial de Israel (caps. 10–19)
Paralelos e Recepção
Autores do Novo Testamento demonstram familiaridade com a Sabedoria de Salomão. A apresentação de Cristo como "imagem da bondade de Deus" em Hebreus 1:3 e Colossenses 1:15 ressoa com a descrição da Sabedoria em Sb 7:26. Paulo em Romanos 1:20–32 segue de perto o argumento anti-idolatria de Sb 13–14. Essas conexões são reconhecidas por estudiosos como dependência literária ou tradição teológica compartilhada.
O conceito de imortalidade da alma em Sb 3:1–4 representa uma síntese entre a tradição bíblica da ressurreição e a filosofia platônica da imortalidade. Essa síntese foi influente na teologia cristã posterior.