Evangelho do Pseudo-Mateus 6

Compilação latina medieval atribuída falsamente a Mateus por uma correspondência apócrifa com Jerônimo. Reúne o Protoevangelho de Tiago e o Evangelho da Infância de Tomé e acrescenta cenas que moldaram a arte do Ocidente: o boi e o jumento na manjedoura, os dragões e feras que adoram o menino, a palmeira que se curva e a queda dos ídolos do Egito

A vida exemplar de Maria no templo

E Maria era admirada por todo o povo de Israel; e, quando tinha três anos de idade, caminhava com passos tão firmes, falava de modo tão perfeito e dedicava seu tempo de maneira tão assídua aos louvores de Deus, que todos se admiravam com ela e se maravilhavam; e ela não era tida como uma criança pequena, mas como se fosse uma pessoa adulta de trinta anos.
Ela era tão constante na oração, e sua aparência era tão bela e gloriosa, que dificilmente alguém conseguia fitar o seu rosto. E ela se ocupava sem cessar com o seu trabalho de lã, de modo que, em sua tenra idade, conseguia fazer tudo o que as mulheres idosas não eram capazes de fazer.
E esta era a ordem que ela havia estabelecido para si mesma: da manhã até a hora terceira permanecia em oração; da hora terceira até a nona ocupava-se com a tecelagem; e a partir da nona dedicava-se novamente à oração. Ela não se retirava da oração até que lhe aparecesse o anjo do Senhor, de cuja mão costumava receber alimento; e assim ia se tornando cada vez mais perfeita na obra de Deus.
Então, quando as virgens mais velhas descansavam dos louvores de Deus, ela não descansava de modo algum; de sorte que, nos louvores e nas vigílias de Deus, nenhuma era encontrada antes dela, nenhuma mais instruída na sabedoria da lei de Deus, mais simples na humildade, mais elegante no canto, mais perfeita em toda virtude.
Ela era de fato firme, inabalável, imutável, e avançava diariamente rumo à perfeição. Ninguém a viu irada, nem a ouviu falar mal. Toda a sua fala era tão cheia de graça, que se reconhecia estar o seu Deus em sua língua.
Ela estava sempre dedicada à oração e à investigação da lei, e receava que, por alguma palavra sua, viesse a pecar para com as suas companheiras. Temia, então, que em seu riso, ou no som de sua bela voz, cometesse alguma falta, ou que, exaltando-se, manifestasse algum erro ou altivez para com alguma de suas iguais.
Ela bendizia a Deus sem interrupção; e, para que talvez nem mesmo em sua saudação deixasse de louvar a Deus, se alguém a saudava, ela costumava responder, a modo de saudação: Graças a Deus. E dela teve início, pela primeira vez, o costume de as pessoas dizerem Graças a Deus quando se saudavam umas às outras.
Ela se alimentava somente com o alimento que recebia diariamente da mão do anjo; mas o alimento que obtinha dos sacerdotes ela repartia entre os pobres. Os anjos de Deus eram vistos com frequência conversando com ela, e a obedeciam com toda a diligência. Se alguém que estivesse doente a tocava, na mesma hora voltava para casa curado.