Capítulos
Lenda de Sargão
Autoria e Data de Composição
A Lenda de Sargão, também chamada de Lenda do Nascimento de Sargão, é um texto em acádio do gênero naru, a pseudo-autobiografia régia, narrado em primeira pessoa pelo próprio Sargão de Acádia. O Sargão histórico reinou por volta de 2334 a 2279 a.C., no século XXIII, e foi o fundador do império acadiano, o primeiro grande império da Mesopotâmia.
O texto da lenda que sobreviveu, no entanto, é muito posterior ao rei. Os fragmentos conhecidos são neoassírios, copiados em tabuinhas dos séculos VII e VI a.C., ligadas ao acervo da biblioteca de Assurbanípal e a cópias babilônicas posteriores. Ou seja, o texto preservado foi composto ou transmitido mais de mil e quinhentos anos depois da época do rei histórico. A edição de referência é a de Brian Lewis, The Sargon Legend (ASOR, 1980). Apenas o início da composição chegou até nós.
Conteúdo
- Sargão se apresenta como rei poderoso de Acádia — (Lenda de Sargão 1:1)
- A mãe, uma sacerdotisa, concebe e dá à luz em segredo — (Lenda de Sargão 1:3)
- O bebê é posto num cesto de junco selado com betume e lançado ao rio — (Lenda de Sargão 1:6)
- Akki, o aguadeiro, recolhe o cesto do rio — (Lenda de Sargão 1:8)
- Akki cria o menino como filho e o faz seu jardineiro — (Lenda de Sargão 1:11)
- A deusa Ishtar concede seu amor a Sargão, que ascende à realeza — (Lenda de Sargão 1:12)
- Lista de conquistas e feitos do rei — (Lenda de Sargão 1:14)
- Desafio aos reis que vierem depois, para igualar seus feitos — (Lenda de Sargão 1:24)
Nascimento e Exposição
Resgate e Ascensão
Reinado e Desafio
Nota sobre a tradução
Traduções mais antigas descrevem a mãe de Sargão como uma "changeling". O termo no original aponta para uma sacerdotisa entu (ou enitu), funcionária de alto posto no culto, sujeita a votos que a proibiam de gerar filhos legítimos. É essa proibição que explica o nascimento em segredo e a exposição do bebê no rio: a mãe ocultava uma gravidez que não podia assumir.
Paralelos bíblicos
O elemento que mais aproxima esta lenda da Bíblia é a exposição do recém-nascido. O bebê posto num cesto de junco selado com betume e lançado ao rio, depois resgatado, é o paralelo clássico com o nascimento de Moisés em Êxodo 2:1-10. A semelhança de motivo é direta e frequentemente citada.
A direção da influência, no entanto, é incerta e não se pode afirmar simplesmente que "o Êxodo copiou Sargão". Como o texto sobrevivente de Sargão é neoassírio do século VII a.C., ele é possivelmente contemporâneo ou até posterior à formação da tradição de Moisés. Não há prova de uma versão antiga da lenda circulando na época em que a narrativa de Êxodo teria tomado forma. A relação entre os dois textos permanece debatida.
Há ainda uma leitura mais ampla. O nascimento secreto, a exposição do bebê e o resgate por um estranho de condição humilde formam um motivo folclórico difundido, o do herói exposto ao nascer. Ele reaparece em Sargão, Moisés, Ciro da Pérsia, Édipo, Rômulo e Remo, entre outros. Otto Rank organizou esses casos em um padrão comum em O Mito do Nascimento do Herói (1909). Por essa ótica, a semelhança entre Sargão e Moisés pode refletir um esquema narrativo compartilhado, e não um empréstimo direto de um texto pelo outro.
Comparativo com a Bíblia
A tabela abaixo alinha o episódio do nascimento de Sargão com a narrativa de Moisés em Êxodo 2:1-10, versículo a versículo, para que o leitor compare diretamente os motivos compartilhados.
| Descrição | Lenda de Sargão | Bíblia |
|---|---|---|
Nascimento mantido em segredo | ||
Bebê posto em cesto de junco selado com betume | ||
O cesto com o bebê é lançado ao rio | ||
O bebê é resgatado das águas por outra pessoa | ||
O bebê é retirado da água ao ser achado | ||
O menino é adotado e criado por quem o salvou |