Épico de Atrahasis 3

Versão paleobabilônica, c. 1646 a.C.

Coluna I

Atra-hasis abriu a boca
e dirigiu-se ao seu senhor.
Atra-hasis abriu a boca
e dirigiu-se ao seu senhor.
"Explique-me o sentido [do sonho],
[...] que eu descubra o seu desfecho."
[Ea (=Enki)] abriu a boca
e dirigiu-se ao seu servo.
"Você diz: 'O que devo buscar?'
Observe a mensagem que vou lhe dar:
Parede, escute-me!
Muro de junco, preste atenção a todas as minhas palavras!
Destrua a sua casa, construa um barco,
despreze os bens e salve a vida.
O barco que você vai construir
[...] que ele seja igual a [...].
Cubra-o com teto como o Apsu.
Para que o sol não enxergue o interior dele,
que ele seja coberto por cima e por baixo.
Que os cabos sejam bem fortes,
betume com firmeza e confira força ao barco.
Eu farei chover sobre você aqui
uma abundância de aves, uma profusão de peixes."
Ele abriu o relógio d'água e o encheu;
anunciou-lhe a chegada do Dilúvio para a sétima noite.
Atra-hasis recebeu a ordem.
Ele reuniu os anciãos à sua porta.
Atra-hasis abriu a boca
e dirigiu-se aos anciãos.
"O meu deus está em desacordo com o de vocês.
Ea (=Enki) e Enlil estão irados um com o outro.
Eles me expulsaram da [minha casa (?)].
Como venero [Ea (=Enki)],
ele me contou esse assunto.
Eu não posso mais morar na [sua cidade (?)],
não posso mais pôr os pés no território de Enlil.
Com os deuses [...].
[Foi isto] que ele me disse [...].'

Coluna II

Os anciãos [...].
O carpinteiro [trouxe o seu machado],
o trabalhador do junco [trouxe a sua pedra].
[A criança trouxe] o betume,
o pobre [trouxe o que era necessário].
[...].
Ele/Eles [...].
[...].
Atra-hasis [...].
Trazendo [...].
Tudo o que [ele tinha...].
Tudo o que ele tinha [...].
Animais limpos [...].
Animais gordos [...].
Ele apanhou [e pôs a bordo].
As [aves] aladas dos céus.
O gado (?) [...],
os [animais] selvagens (?) [...] ele pôs a bordo.
[...] ele convidou o seu povo
[...] para um banquete.
[...] ele pôs a família a bordo,
comeram e beberam.
Mas ele entrava e saía,
não conseguia se sentar nem se agachar,
pois o seu coração estava partido e ele vomitava bile.
O aspecto do tempo mudou,
Adad bramiu nas nuvens.
Assim que ele ouviu a voz de Adad,
trouxeram betume para ele lacrar a porta.
Depois de ter trancado a porta,
Adad bramava nas nuvens.
Os ventos ficaram furiosos quando ele se levantou,
ele cortou os cabos e soltou o barco.

Coluna III

[...].
[...] a tempestade
[...] foram atrelados.
[Zu (=Anzu)] rasgou [o céu] com as suas garras,
[ele...] partiu o seu ruído [como uma vasilha].
[...] o Dilúvio [irrompeu].
A sua força caiu sobre os povos [como uma carga de batalha].
Uma pessoa [não] enxergava a outra,
não dava para se reconhecerem na destruição.
[O Dilúvio] mugia como um touro,
[como] um asno selvagem em disparada [uivava] o vento.
A escuridão [era densa], não havia sol.
[...] do Dilúvio.
[...].
[...].
[...] o ruído do [Dilúvio].
Ele atingia [...].
[Ea (=Enki)] estava fora de si,
[ao ver] que os seus filhos eram jogados diante dele.
Nintu, a grande dama,
tinha os lábios cobertos de febre.
Os Anunnaki, os grandes deuses,
ficaram sentados com sede e fome.
A deusa viu e chorou,
a parteira dos deuses, a sábia Mami.
"Que o dia volte a ser escuridão,
que ele se transforme de novo em trevas.
Na assembleia dos deuses,
como foi que eu, com eles, ordenei a destruição total?
Enlil teve coragem de provocar um mal por ordem dele,
e, como Tiruru, ordenou um mal abominável.
Por escolha minha,
e por culpa minha, será que ouvi o seu clamor?
A minha prole, sem que eu pudesse evitar, virou esses peixes.
E quanto a mim, como a ocupante de uma casa de lamento,
o meu choro se esgotou.
Vou eu subir aos céus,
como se eu fosse morar em uma casa do tesouro?
[...].
Para onde foi Anu, o presidente,
cujos filhos divinos obedeceram à sua ordem?
Ele, que sem pensar provocou um Dilúvio
e entregou os povos à destruição?"

Coluna IV

Nintu lamentava [...].
"Será que eles deram à luz o [revolto (?)] mar,
será que encheram o rio como libélulas?
Como uma jangada eles encalharam [na margem],
como uma jangada [...] encalharam na beira do rio!
Eu vi e chorei por eles,
acabei o meu lamento por eles."
Ela chorou e desafogou os sentimentos,
Nintu chorava e dava vazão à emoção.
Os deuses choraram junto com ela pela terra,
estavam saturados de tristeza e tinham sede de cerveja.
Onde ela se sentava, eles também se sentavam chorando,
como ovelhas, eles enchiam o cocho.
Seus lábios ardiam de sede,
sofriam câimbras de fome.
Por sete dias e sete noites
vieram a tempestade, o vendaval, [o Dilúvio].
Onde [...].
Foi derrubado [...].

Coluna V

Aos [quatro] ventos [...].
Ele pôs [...].
Provendo alimento [...].
[...].
[Os deuses] cheiraram o aroma,
reuniram-se [como moscas] sobre a oferenda.
[Depois] de terem comido a oferenda,
Nintu se levantou para reclamar de todos eles.
"Para onde foi Anu, o presidente?
Será que Enlil veio ao incenso,
eles, que sem pensar provocaram um Dilúvio
e entregaram os povos à destruição?
Vocês decidiram a destruição total,
e agora o rosto límpido deles ficou sombrio."
Então ela se aproximou das grandes moscas
que Anu havia feito (?) e que ela carregava.
"O sofrimento dele é meu! Que o meu destino seja agora decretado!
Que ele me tire desta aflição e me alivie (?).

Coluna VI

[...].
Que [estas] moscas sejam o lápis-lazúli ao redor do meu pescoço,
para que eu me lembre dele [todos (?)] os dias [para sempre (?)]."
[O guerreiro Enlil] viu o barco
e se encheu de ira contra os Igigi.
"Todos nós, grandes Anunnaki,
juntos juramos um juramento.
Onde a vida escapou?
Como um homem sobreviveu à destruição?"
Anu abriu a boca
e dirigiu-se ao guerreiro Enlil.
"Quem, senão Enki, poderia fazer isso?
[...] eu não revelei a ordem."
[Ea (=Enki)] abriu a boca
e dirigiu-se aos grandes deuses.
"Eu fiz isso de fato diante de vocês.
[Sou responsável] por ter salvado a vida [...].
[...] deuses [...].
[...] o Dilúvio.
[...].
[...] o seu coração.
[...].
Imponha a sua punição [sobre o criminoso],
e sobre quem desconsiderar a sua ordem."
[...] ela/lhe.
[...] ele/eles a pôs(eram).
[Enlil] abriu a boca
e dirigiu-se ao príncipe Enki.
"Vamos, convoque Nintu, a deusa do nascimento,
vocês dois conversem na assembleia."
[Enki] abriu a boca
e dirigiu-se a Nintu, a deusa do nascimento.
"[Você], deusa do nascimento, criadora dos destinos,
[...] para os povos,
[...] que ela seja.

Coluna VII

Além disso, que haja uma terceira categoria entre os povos:
que entre os povos haja mulheres férteis e mulheres que não geram.
Que haja entre os povos o demônio Pashittu,
para arrebatar o bebê do colo da mãe que o deu à luz.
Estabeleça mulheres Ugbabtu, mulheres Entu e mulheres Igisitu,
que lhes sejam vedados, e assim cessem o parto.
[...].
[...] e vida (?).
Óleo [...].
Regras para a raça humana [...].
O macho [...].
À jovem [...].
O homem jovem à jovem [...].
Que o jovem [...] tome [...].

Coluna VIII

Óleo [...].
Regras para a raça humana [...].
O macho [...].
[...] à jovem [...].
O homem jovem à [jovem...].
Que [...] tome o(a) jovem [...].
Aquilo que provocamos por causa [do Dilúvio],
mas o homem sobreviveu destruição].
Você, o conselheiro dos [grandes] deuses,
por sua [ordem] eu provoquei a guerra.
Para o seu louvor, que os Igigi ouçam
esta canção e exaltem a sua grandeza um ao outro.
Eu cantei do Dilúvio a todos os povos. Escute!