Capítulos

Miquéias
Autoria e Data de Composição
O livro identifica seu autor como Miquéias de Morestá, cidade no sopé das montanhas da Sefelá (Judá ocidental), que profetizou durante os reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá. A atividade profética pode ser datada entre 740 e 700 a.C., aproximadamente contemporânea a Isaías em Jerusalém e a Oséias no norte.
A autoria de Miquéias para os capítulos 1-3 é amplamente aceita. Os capítulos 4-5 e 6-7 são mais debatidos. Parte dos estudiosos propõe que os capítulos 4-7 contêm material de autores posteriores, possivelmente do período exílico ou pós-exílico, por razões estilísticas e teológicas. A referência ao exílio babilônico em mq 4:10 é vista por alguns como evidência de composição tardia ou inserção editorial. Outros pesquisadores defendem a unidade do livro como obra do próprio Miquéias. Não há consenso.
Manuscritos
Data: Séc. 3 a.C. a séc. 2 d.C.
O texto de Miquéias está presente nos Manuscritos do Mar Morto dentro dos rolos dos Doze Profetas Menores. O manuscrito 4Q82 (4QXIIg), do final do século 1 a.C., preserva partes de Miquéias. Fragmentos em cursiva de escrita do século 3 a.C. foram identificados com partes dos Profetas Menores, incluindo mq 5:2. Uma tradução grega dos Profetas Menores encontrada na Caverna do Horror (Nahal Hever, séc. 1 a.C.) contém mq 5:2 e outras passagens, com diferenças em relação ao Texto Massorético. Essas variações textuais indicam múltiplas tradições em circulação antes da fixação rabínica.
Conteúdo do Livro
Juízo sobre Samaria e Judá (Caps. 1-3)

- Palavra do Senhor ao profeta Miquéias de Morestá nos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias — (Mq 1:1)
- Samaria será reduzida a um monte de entulho e suas imagens destruídas — (Mq 1:6)
- Lamento do profeta: caminhará descalço e nu como sinal de luto pela destruição — (Mq 1:8)
- Maldição contra os que planejam iniquidade: tomam campos e casas pela força — (Mq 2:1)
- Falsos profetas pedem que Miquéias não profetize: conflito com a liderança religiosa — (Mq 2:6)
- Denúncia dos líderes que "comem a carne" do povo e arrancam sua pele — (Mq 3:1)
- Sacerdotes, profetas e líderes corrompidos constroem Sião com sangue — (Mq 3:9)
- Profecia da destruição de Jerusalém e do Templo: "Sião será lavrada como campo" — (Mq 3:12)
Promessas de Restauração (Caps. 4-5)

- Visão escatológica: todas as nações subirão ao monte do Senhor para aprender seus caminhos — (Mq 4:1)
- "Transformarão suas espadas em relhas de arado": paz universal entre as nações — (Mq 4:3)
- Sião irá ao exílio babilônico, mas será resgatada de lá — (Mq 4:9)
- De Belém-Efratá sairá aquele que governará Israel, cujas origens são desde os tempos antigos — (Mq 5:2)
- Deus destruirá cavalos, carros, cidades fortificadas e ídolos no dia da restauração — (Mq 5:10)
Querela do Senhor e Apelo Final (Caps. 6-7)

- Deus pleiteia sua causa diante dos montes como testemunhas — (Mq 6:1)
- O que Deus requer: "Fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com teu Deus" — (Mq 6:6)
- Condenação das balanças desonestas e da violência comercial — (Mq 6:10)
- Lamento do profeta pela total corrupção do povo: nem um justo reste — (Mq 7:1)
- Hino final: Deus perdoa a iniquidade e lança os pecados ao fundo do mar — (Mq 7:18)
Temas Centrais
Miquéias combina denúncia social intensa com promessas de restauração. Seus alvos principais são os proprietários de terras gananciosos, os líderes corruptos e os profetas venais que pregam o que querem ouvir os poderosos. O versículo de mq 6:8 é considerado uma das sínteses mais precisas da ética profética do Antigo Testamento: "Fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com teu Deus."
A profecia de Belém em mq 5:2 ganhou relevância central no Novo Testamento: Mateus 2:5-6 e João 7:42 a citam como indicação do lugar de nascimento do Messias. A visão de paz entre as nações em mq 4:3 é praticamente idêntica a Isaías 2:4, o que levanta questões de dependência literária entre os dois livros: não há consenso sobre qual dos dois é o original ou se ambos citam uma fonte comum.
Evidências Históricas
Jeremias 26:18 cita mq 3:12 explicitamente e menciona que Miquéias profetizou no tempo do rei Ezequias, tornando essa a única citação direta de um profeta menor por outro profeta bíblico com atribuição nominal. Isso confirma a historicidade da figura de Miquéias e data sua atividade ao período de Ezequias (715-686 a.C.). A destruição de Samaria em 722 a.C. pela Assíria é consistent com a profecia de mq 1:6 e com o contexto histórico do livro.