Capítulos

Marcos
Autoria e Data de Composição
O evangelho é anônimo: nenhum manuscrito antigo identifica o autor pelo nome dentro do texto. A atribuição a Marcos (em grego, Markos) deriva da tradição patrística. Por volta de 125 d.C., Papias de Hierápolis citou que "Marcos, intérprete de Pedro, escreveu com precisão, mas sem ordem, tudo o que Pedro ensinava". Ireneu e Clemente de Alexandria repetiram variações dessa afirmação. A identificação desse Marcos com João Marcos das cartas paulinas (At 12:12; Cl 4:10) é possível, mas não verificável.
A data de composição é estimada entre 65 e 75 d.C., com a maioria dos pesquisadores situando o texto ao redor da destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. O discurso escatológico do capítulo 13 é o principal indício: alguns interpretam a passagem como vaticínio post eventum (escrito após a queda do templo), enquanto outros a leem como profecia genuína composta antes de 70 d.C. Essas datas são estimativas debatidas; há uma minoria que propõe composição na década de 40 ou 50 d.C.
Prioridade Marqana e o Problema Sinótico
Mateus, Marcos e Lucas são chamados de evangelhos sinóticos por compartilharem estrutura, ordem e trechos quase idênticos. O problema sinótico é a questão de como explicar essas semelhanças e diferenças. A solução hoje majoritária é a hipótese das duas fontes: Marcos foi escrito primeiro (prioridade marqana) e serviu de base para Mateus e Lucas, que também utilizaram uma segunda fonte hipotética chamada Q (do alemão Quelle, "fonte"), um conjunto de ditos de Jesus que não sobreviveu como documento independente.
Os argumentos para a prioridade de Marcos incluem: é o mais curto dos três, seu grego é mais rústico, e Mateus e Lucas quase sempre preservam a ordem de Marcos quando diferem entre si. Essa hipótese tem ampla aceitação acadêmica, mas não é unânime. Alternativas como a hipótese de Griesbach(Mateus escrito primeiro, Marcos como abreviação de Mateus) têm defensores, especialmente em círculos conservadores.
Manuscritos e o Final Longo (16:9-20)
Os manuscritos mais antigos e relevantes do evangelho de Marcos são preservados em papiros e códices gregos. Os códices Sinaítico e Vaticano (século IV) terminam em 16:8, com as mulheres fugindo do túmulo com medo: "pois tinham medo". Esse final abrupto gerou debates desde a Antiguidade.
O chamado final longo (16:9-20), que relata aparições do ressuscitado, a comissão dos discípulos e a ascensão, está ausente nos manuscritos mais antigos(Sinaítico e Vaticano) e não era conhecido por Clemente de Alexandria nem por Orígenes. Eusébio de Cesareia e Jerônimo afirmaram que essa passagem era ausente em quase todos os manuscritos gregos que conheciam. A esmagadora maioria dos pesquisadores do Novo Testamento considera os versículos 16:9-20 uma adição posterior, provavelmente do século II, por um escriba incomodado com o final abrupto. Há também um "final médio" presente em alguns manuscritos, igualmente considerado secundário.
Conteúdo Principal
Início do Ministério

- Pregação de João Batista no deserto e batismo de Jesus — (Mc 1:1)
- Tentação de Jesus no deserto por quarenta dias — (Mc 1:12)
- Chamado dos primeiros discípulos: Simão, André, Tiago e João — (Mc 1:16)
- Ensino em Cafarnaum e expulsão de espírito impuro na sinagoga — (Mc 1:21)
- Cura de um leproso: "Quero, fica limpo" — (Mc 1:40)
Milagres e Conflitos com Fariseus

- Cura do paralítico descido pelo telhado: Jesus perdoa pecados — (Mc 2:1)
- Chamado de Levi (Mateus) e refeição com cobradores de impostos — (Mc 2:14)
- Cura da mão ressequida no sábado: conflito com fariseus — (Mc 3:1)
- Escolha dos Doze Apóstolos no monte — (Mc 3:13)
- Jesus acalma a tempestade no mar da Galileia — (Mc 4:35)
- Expulsão da legião de demônios em Gerasa — (Mc 5:1)
- Ressurreição da filha de Jairo e cura da hemorroíssa — (Mc 5:21)
- Morte de João Batista decapitado por ordem de Herodes — (Mc 6:14)
- Multiplicação dos pães para cinco mil pessoas — (Mc 6:30)
- Jesus caminha sobre as águas — (Mc 6:48)
Confissão de Pedro e Transfiguração

- Confissão de Pedro em Cesareia de Filipe: "Tu és o Cristo" — (Mc 8:27)
- Primeiro anúncio da Paixão: o Filho do Homem deve sofrer e ressuscitar — (Mc 8:31)
- Transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João — (Mc 9:2)
- Cura do menino com espírito mudo que os discípulos não conseguiram expulsar — (Mc 9:14)
- O jovem rico e o ensinamento sobre a riqueza e o Reino — (Mc 10:17)
- Cura de Bartimeu, o cego de Jericó — (Mc 10:46)
Entrada em Jerusalém e Semana da Paixão

- Entrada triunfal em Jerusalém montado num jumentinho — (Mc 11:1)
- Expulsão dos vendilhões do templo — (Mc 11:15)
- Debate sobre o tributo a César: "Dai a César o que é de César" — (Mc 12:13)
- Discurso escatológico: sinais dos últimos tempos e destruição do templo — (Mc 13:1)
- Última Ceia e instituição da Eucaristia — (Mc 14:12)
- Oração no Getsêmani e prisão de Jesus — (Mc 14:32)
- Julgamento diante do sumo sacerdote e negação de Pedro — (Mc 14:53)
- Julgamento por Pilatos, crucificação e morte de Jesus — (Mc 15:1)
Ressurreição

Características Literárias
Marcos é o mais breve e dinâmico dos evangelhos. A palavra grega euthys("imediatamente") aparece dezenas de vezes, conferindo ritmo acelerado à narrativa. Jesus é retratado com emoções marcadas: compaixão, indignação, espanto. O chamado segredo messiânico é um tema notável: Jesus frequentemente pede silêncio após milagres (mc1:44; mc5:43; mc8:30), o que alguns estudiosos interpretam como recurso teológico do autor para explicar por que Jesus não foi reconhecido como Messias em vida.