Capítulos

Atos

Autoria e Data de Composição

A tradição cristã desde os séculos II e III atribui Atos dos Apóstolos ao mesmo autor do terceiro evangelho: Lucas, companheiro de Paulo. O próprio prólogo de Atos (1:1) menciona um "primeiro livro" dedicado a Teófilo, ligando-o ao prólogo de Lucas 1:1-4. Essa dupla autoria é aceita pela maioria dos estudiosos modernos, embora o texto não nomeie o autor diretamente.

A identificação com Lucas médico, mencionado em Colossenses 4:14, é tradicional mas não confirmável pelo texto. Alguns acadêmicos questionam se o autor de Atos era mesmo próximo de Paulo, pois em vários pontos a teologia apresentada difere do que Paulo escreve em suas próprias cartas. Não há consenso definitivo sobre a identidade exata do autor.

A data de composição é incerta. Duas propostas principais circulam entre os estudiosos: por volta de 62-64 d.C., logo após os eventos finais narrados (Paulo em Roma), ou entre 80 e 90 d.C., período que explicaria o afastamento de certas perspectivas paulinas e a suposta dependência de Lucas de fontes anteriores. A datação precoce é defendida por conservadores; a tardia, pela maioria do consenso acadêmico crítico.

Manuscritos

Atos é preservado em dois tipos textuais distintos: o texto alexandrino (mais curto, presente em manuscritos como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, século IV) e o texto ocidental (cerca de 10% mais longo, presente no Codex Bezae, século V). A razão para essa divergência não está resolvida: alguns acreditam que o texto ocidental expande o alexandrino, outros propõem que o autor produziu duas edições.

O Papiro P45 (Papiros de Chester Beatty, datado do século III) contém fragmentos de Atos e é um dos testemunhos manuscritos mais antigos do livro. Fragmentos adicionais aparecem em P50 e P53.

Eventos do Livro

Prólogo e Ascensão

A Ascensão de Jesus aos céus, enquanto os apóstolos olham para o alto
  • Dedicatória a Teófilo e resumo do evangelho anterior(At 1:1)
  • Ascensão de Jesus e promessa do Espírito Santo(At 1:9)
  • Eleição de Matias para substituir Judas Iscariotes(At 1:15)

Pentecostes e Igreja em Jerusalém (caps. 2–7)

Pedro e João curam o paralítico na Porta Formosa do templo
  • Descida do Espírito Santo no Pentecostes: glossolalia e conversão de cerca de três mil pessoas(At 2:1)
  • Vida comunitária da primeira comunidade: ensino, partilha e fração do pão(At 2:42)
  • Pedro e João curam um paralítico na Porta Formosa do templo(At 3:1)
  • Pedro e João são presos e interrogados pelo Sinédrio(At 4:1)
  • Morte de Ananias e Safira por mentir à comunidade(At 5:1)
  • Eleição dos sete diáconos, incluindo Estêvão e Filipe(At 6:1)
  • Martírio de Estêvão: primeiro mártir cristão registrado(At 7:54)

Expansão para a Samaria e regiões vizinhas (caps. 8–12)

A conversão de Saulo, derrubado pela luz no caminho de Damasco
  • Filipe evangeliza a Samaria após a perseguição que dispersa a comunidade(At 8:4)
  • Filipe e o eunuco etíope: batismo no caminho de Gaza(At 8:26)
  • Conversão de Saulo (Paulo) no caminho de Damasco(At 9:1)
  • Pedro ressuscita Tabita em Jope(At 9:36)
  • Pedro e Cornélio: batismo do primeiro gentio, abertura do evangelho aos não judeus(At 10:1)
  • Herodes mata Tiago e prende Pedro. Pedro é libertado por um anjo(At 12:1)

Primeira viagem missionária de Paulo (caps. 13–14)

Em Listra, a multidão tenta sacrificar a Paulo e Barnabé como se fossem deuses
  • Barnabé e Paulo enviados pela comunidade de Antioquia(At 13:1)
  • Paulo prega na sinagoga de Antioquia da Pisídia: discurso sobre a história de Israel e ressurreição(At 13:14)
  • Cura de um paralítico em Listra e tentativa de culto a Paulo e Barnabé como deuses(At 14:8)

Concílio de Jerusalém (cap. 15)

O Concílio de Jerusalém: os apóstolos deliberam sobre a circuncisão dos gentios
  • Debate sobre a circuncisão dos gentios convertidos(At 15:1)
  • Decisão apostólica: gentios ficam dispensados da circuncisão mas devem observar algumas normas(At 15:22)

Segunda e terceira viagens missionárias (caps. 16–21)

Paulo prega no Areópago de Atenas diante dos filósofos gregos
  • Visão macedônia: Paulo leva o evangelho à Europa pela primeira vez(At 16:9)
  • Paulo e Silas presos em Filipos após libertar uma escrava de espírito de adivinhação(At 16:16)
  • Discurso de Paulo no Areópago de Atenas: "o Deus desconhecido"(At 17:16)
  • Paulo em Corinto por dezoito meses, trabalha com Áquila e Priscila(At 18:1)
  • Paulo em Éfeso por cerca de dois anos; revolta dos artesãos de prata liderada por Demétrio(At 19:1)
  • Em Trôade, Paulo ressuscita Êutico e prega até o amanhecer(At 20:7)
  • Discurso de despedida aos presbíteros de Éfeso em Mileto(At 20:17)

Prisão de Paulo e viagem a Roma (caps. 21–28)

O naufrágio na ilha de Malta: o navio despedaçado pela tempestade
  • Paulo é preso em Jerusalém após tumulto no templo(At 21:27)
  • Paulo discursa ao povo e ao Sinédrio em sua própria defesa(At 22:1)
  • Paulo apela ao César como cidadão romano(At 25:11)
  • Viagem marítima para Roma, tempestade e naufrágio em Malta(At 27:1)
  • Paulo em Roma: recebe visitantes e prega livremente por dois anos sob prisão domiciliar(At 28:16)

Paralelos e Fontes

As chamadas "seções nós" (em que a narrativa usa a primeira pessoa do plural: "partimos", "chegamos") nos capítulos 16, 20, 21 e 27-28 sugerem que o autor era companheiro de Paulo em parte das viagens, ou utilizou um diário de viagem de alguém que o era. A questão não está totalmente resolvida.

Os discursos de Pedro e Paulo em Atos têm estrutura retórica grega e diferem do estilo das cartas paulinas autênticas. Estudiosos debatem se refletem memória histórica, composição do autor à maneira de Tucídides, ou combinação de ambos.