Capítulos

2 Samuel
Autoria e Data de Composição
Assim como 1 Samuel, o livro de 2 Samuel não identifica nenhum autor. Originalmente, 1 e 2 Samuel formavam um único livro na tradição hebraica; a divisão em dois volumes surgiu na Septuaginta grega (onde são chamados de "1 e 2 Reis") e foi adotada pela Vulgata latina e pelas tradições cristãs.
O livro integra a Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr), e sua composição final é geralmente datada entre o reino dividido (931 a 722 a.C.) e o exílio babilônico (século 6 a.C.). O autor anônimo provavelmente utilizou documentos de arquivo real, narrativas de corte e poemas mais antigos (como o Cântico de 2sm22, paralelo ao Salmo 18). Uma data exata é impossível de determinar.
Manuscritos
Data: Fragmentos de Qumran datados de cerca de 200 a.C. a 70 d.C.
Fragmentos de Samuel foram encontrados nas cavernas de Qumran (4QSam), e alguns se aproximam da tradição da Septuaginta em vez do Texto Massorético, indicando pluralidade textual. A crítica textual de Samuel é considerada uma das mais complexas do Antigo Testamento, com divergências significativas entre as tradições hebraica e grega em várias passagens.
Eventos do Livro
Ascensão de Davi ao Trono

- Davi recebe a notícia da morte de Saul e de Jônatas; lamenta e plora — (2Sm 1:1)
- Davi ungido rei de Judá em Hebrom; Isbosete declarado rei de Israel — (2Sm 2:1)
- Guerra longa entre a casa de Saul e a de Davi; morte de Abner — (2Sm 3:1)
- Assassinato de Isbosete; Davi condena os assassinos — (2Sm 4:5)
- Davi ungido rei de todo Israel pelos anciãos em Hebrom — (2Sm 5:1)
- Conquista de Jerusalém (cidade dos jebuseus); torna-se capital do reino — (2Sm 5:6)
A Arca e a Aliança Davídica

- Transferência da Arca da Aliança para Jerusalém; morte de Uzá; dança de Davi — (2Sm 6:1)
- Davi deseja construir o Templo; Natã transmite a promessa divina da aliança davídica — (2Sm 7:1)
- Promessa de descendência eterna: "Estabelecerei o teu reino para sempre" — (2Sm 7:12)
Conquistas Militares

- Davi derrota filisteus, moabitas, sírios e edomitas; expansão do reino — (2Sm 8:1)
- Davi honra a aliança com Jônatas: acolhe Mefibosete, filho paralítico de Jônatas — (2Sm 9:1)
- Guerras contra os amonitas e sírios — (2Sm 10:1)
O Pecado de Davi e suas Consequências

- Davi vê Bate-Seba e comete adultério; manda matar Urias, marido dela — (2Sm 11:2)
- Natã confronta Davi com a parábola da ovelha pobre; Davi se arrepende — (2Sm 12:1)
- Morte do filho gerado com Bate-Seba; nascimento de Salomão — (2Sm 12:14)
- Amnon estupra Tamar (meia-irmã); Absalão mata Amnon e foge — (2Sm 13:1)
- Joabe negocia o retorno de Absalão a Jerusalém; reconciliação superficial com Davi — (2Sm 14:1)
Rebelião de Absalão

- Absalão conquista o povo e se proclama rei em Hebrom — (2Sm 15:1)
- Davi foge de Jerusalém; Husai fica para sabotar os conselhos de Aitofel — (2Sm 15:13)
- Absalão entra em Jerusalém; Aitofel aconselha o desonramento das concubinas de Davi — (2Sm 16:20)
- O conselho de Husai prevalece sobre o de Aitofel; Aitofel se enforca — (2Sm 17:14)
- Absalão fica preso pelos cabelos em uma árvore e é morto por Joabe — (2Sm 18:9)
- Lamento de Davi pela morte de Absalão: "Meu filho Absalão!" — (2Sm 18:33)
Restauração e Epílogos

- Retorno de Davi a Jerusalém; disputas entre Judá e Israel pelo rei — (2Sm 19:9)
- Rebelião de Seba da tribo de Benjamim; morte de Seba em Abel — (2Sm 20:1)
- Fome por três anos; Davi entrega descendentes de Saul aos gibeonitas — (2Sm 21:1)
- Cântico de Davi em louvor por suas vitórias (paralelo ao Salmo 18) — (2Sm 22:1)
- Últimas palavras de Davi e lista dos seus guerreiros valentes — (2Sm 23:1)
- Davi censura o povo; peste; compra da eira de Araúna, futuro local do Templo — (2Sm 24:1)
Evidências Históricas e Arqueológicas
A historicidade de Davi é atestada pela Inscrição de Tel Dan(século 9 a.C.), descoberta em 1993, que menciona a "Casa de Davi", confirmando a existência da dinastia davídica. A Estela Mesha (Pedra de Mesa, século 9 a.C.) também pode conter referência à mesma dinastia. Esses documentos confirmam Davi como fundador de uma linhagem real reconhecida por povos vizinhos.
Jerusalém como capital davídica foi objeto de escavações extensas. A "Cidade de Davi" (Ofel) mostra ocupação contínua desde a Idade do Bronze, e estruturas do século 10 a.C. foram identificadas, embora a atribuição específica ao período de Davi permaneça debatida entre arqueólogos. Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman argumentam que o reino de Davi era modesto comparado à narrativa bíblica; outros, como Eilat Mazar, defendem uma estrutura administrativa mais robusta já no século 10 a.C.
Aliança Davídica e Paralelos no Cânon
A promessa divina a Davi em 2sm7 (aliança davídica) é um dos textos centrais de toda a teologia bíblica posterior. Ela é retomada nos Salmos (sl89, sl132), nos profetas (is9:6, is11:1, jr23:5, ez37:24) e no Novo Testamento como base para a identidade messiânica de Jesus (mt1:1, lc1:32). O Cântico de 2sm22 é praticamente idêntico ao Salmo 18, mostrando circulação do mesmo material em contextos distintos.