Capítulos

1 Coríntios
Autoria e Data de Composição
Primeira Coríntios é uma das cartas paulinas indiscutivelmente autênticas. A autoria de Paulo é aceita de modo unânime pela crítica acadêmica, apoiada pelo testemunho da tradição mais antiga: Clemente de Roma já a citava por volta de 96 d.C. como carta do próprio apóstolo. O texto se apresenta como de Paulo e Sóstenes (1:1); Sóstenes pode ter sido um co-remetente ou secretário.
A data de composição é estimada em cerca de 54-55 d.C., quando Paulo estava em Éfeso durante sua terceira viagem missionária (ver 16:8). Referências internas indicam que Paulo já havia enviado uma carta anterior a Corinto (5:9), hoje perdida, o que significa que 1 Coríntios é na verdade pelo menos a segunda carta de Paulo àquela comunidade.
A carta responde a questões enviadas pelos próprios coríntios (7:1: "quanto ao que me escrevestes") e a relatos orais sobre problemas na comunidade trazidos por membros da casa de Cloé (1:11). Esse contexto de resposta a situações concretas explica o caráter fragmentado e temático do documento.
Manuscritos
O Papiro P46 (Papiros de Chester Beatty, datado de cerca de 200 d.C.) é o testemunho manuscrito mais antigo de 1 Coríntios e contém a carta quase integralmente. O Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus (século IV) são os grandes unciais que preservam o texto completo. A tradição manuscrita de 1 Coríntios é bem atestada e não apresenta variantes textuais de grande impacto doutrinário.
Conteúdo Principal
Divisões na comunidade (caps. 1–4)

- Apelo à unidade: facções em torno de Paulo, Apolo, Cefas e Cristo — (1Co 1:10)
- A "loucura da cruz": o evangelho contradiz a sabedoria humana — (1Co 1:18)
- Paulo e Apolo como servos: Deus é quem faz crescer, não os pregadores — (1Co 3:1)
Questões morais e disciplina (caps. 5–6)

- Caso de incesto na comunidade: Paulo exige expulsão do infrator — (1Co 5:1)
- Proibição de levar litígios entre cristãos a tribunais pagãos — (1Co 6:1)
- O corpo como templo do Espírito Santo: argumentação contra a imoralidade sexual — (1Co 6:12)
Casamento, celibato e liberdade (caps. 7–10)

- Instruções sobre casamento, celibato e divórcio; preferência pessoal de Paulo pelo celibato — (1Co 7:1)
- Carne sacrificada a ídolos: o "conhecimento" deve ceder ao amor pelo irmão mais fraco — (1Co 8:1)
- Defesa do apostolado de Paulo e renúncia voluntária ao sustento financeiro pela comunidade — (1Co 9:1)
- Israel no deserto como exemplo de aviso: não confiar na eleição sem vigilância moral — (1Co 10:1)
Culto, carismas e ordem (caps. 11–14)

- Abusos na Ceia do Senhor em Corinto: ricos comem à parte dos pobres — (1Co 11:17)
- Narrativa da instituição da eucaristia: o relato mais antigo do Novo Testamento sobre a Última Ceia — (1Co 11:23)
- Os dons espirituais (carismas): diversidade de dons, um só Espírito — (1Co 12:1)
- Metáfora do corpo: a comunidade como organismo com membros interdependentes — (1Co 12:12)
- Hino ao amor (ágape): superior a línguas, profecia e fé sem amor — (1Co 13:1)
- Profecia preferível à glossolalia no culto: critério da edificação da comunidade — (1Co 14:1)
Ressurreição (cap. 15)

- Lista das aparições do ressuscitado: Pedro, os Doze, mais de quinhentos irmãos, Tiago, todos os apóstolos e Paulo — (1Co 15:1)
- Argumento lógico: se não há ressurreição dos mortos, então nem Cristo ressuscitou, e a fé é vã — (1Co 15:12)
- A natureza do corpo ressuscitado: analogia com a semente e o grão — (1Co 15:35)
Conclusão e planos (cap. 16)

- Instruções sobre a coleta para os santos de Jerusalém — (1Co 16:1)
- Planos de visita de Paulo a Corinto passando pela Macedônia — (1Co 16:5)
Importância Histórica e Teológica
O capítulo 15 contém o que os estudiosos consideram a fórmula de credo mais antiga do Novo Testamento (15:3-5), provavelmente recebida por Paulo poucos anos após a morte de Jesus. A lista de aparições do ressuscitado, datável a meados dos anos 30 d.C., é o testemunho documental mais próximo em tempo do evento que relata.
O capítulo 11:23-26 apresenta a narrativa da instituição da Última Ceia de forma independente dos evangelhos sinóticos, e em redação provavelmente mais antiga que a de Marcos 14. Isso faz de 1 Coríntios uma fonte primária para a história da eucaristia cristã.
O versículo 14:34-35, que manda as mulheres calarem-se nas assembleias, é objeto de debate acadêmico intenso: alguns estudiosos argumentam que é uma interpolação posterior incompatível com 11:5, onde Paulo pressupõe que mulheres profetizam. Não há consenso sobre a questão.