A morte e a viagem
No sonho, o homem faz o que tinha planejado: atira em si mesmo, embora no coração, e não na cabeça. Morre, sente que o colocam no caixão e o enterram. Sozinho no escuro da sepultura, ele faz algo que negaria acordado: dirige a palavra a quem quer que governe ali. O niilista reza, mesmo que rezando brigando. A sepultura se abre, um ser o ergue, e os dois atravessam o espaço até uma estrela que ele reconhece como uma outra Terra.
Uma terra que não conheceu a Queda
O que ele encontra ali é um paraíso. Uma humanidade sem pecado, bela e feliz, que vive em amor mútuo, sem doença grave, sem mentira, sem ciúme, em harmonia com a natureza. O próprio narrador entende, no primeiro olhar, o que está vendo: a Terra como era antes da Queda, habitada por gente que nunca pecou.
24 Ah, desde o primeiro instante, desde o primeiro olhar para eles, entendi tudo! Era a terra não maculada pela Queda; nela viviam pessoas que não haviam pecado. Eles viviam justamente num paraíso como aquele em que, segundo todas as lendas da humanidade, os nossos primeiros pais viveram antes de pecar; a única diferença era que toda esta terra era o mesmo paraíso. Essas pessoas, rindo com alegria, se aglomeravam à minha volta e me acariciavam; me levaram para casa com elas, e cada uma delas tentava me tranquilizar. Ah, elas não me fizeram nenhuma pergunta, mas pareciam, imaginei eu, saber de tudo sem perguntar, e queriam se apressar a alisar para longe os sinais de sofrimento do meu rosto.
7 Não havia briga, nem ciúme entre eles, e eles nem sequer sabiam o que essas palavras significavam. Os filhos deles eram filhos de todos, pois todos formavam uma só família. Quase não havia doença entre eles, embora houvesse morte; mas os velhos morriam em paz, como se adormecessem, dando bênçãos e sorrisos aos que os cercavam para a última despedida com sorrisos luminosos e amorosos. Nunca vi tristeza ou lágrimas nessas ocasiões, mas só amor, que chegava ao ponto do êxtase, mas um êxtase calmo, perfeito e contemplativo.
Ele corrompe o paraíso
Então vem a parte mais dura. A simples presença do narrador estraga aquele mundo. Ele os ensina, sem querer, a mentir, a ter vergonha, a sentir ciúme. Da mentira nasce a crueldade, depois o primeiro sangue derramado, depois as guerras, a escravidão, a divisão em nações, e por fim uma ciência fria que toma o lugar do amor. Dentro do sonho, ele assiste à história humana inteira se repetindo, e sabe que a culpa é dele.
1 Sim, sim, tudo terminou comigo corrompendo todos eles! Como isso pôde acontecer eu não sei, mas me lembro com clareza. O sonho abraçou milhares de anos e deixou em mim apenas a sensação do todo. Só sei que eu fui a causa do pecado e da ruína deles.