Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
A linguagem ritual e sacerdotal de P trai um autor situado, com agenda própria.
A primeira coisa que trai a mão por trás de P é o que ela acha importante. Onde a fonte chamada J conta histórias de Deus que anda no jardim e fecha a porta da arca com a própria mão, P prefere listas: sete dias contados em fórmula, idades de patriarcas, dimensões exatas do tabernáculo, censos de tribos, calendários de festas. Esse vocabulário de datas, números e genealogias não é neutro. É o jargão de quem administra um templo, controla um calendário litúrgico e precisa saber quem pode tocar no que. A obsessão de P com ordem, separação e com a linhagem de Arão aponta para um autor que serve à casta sacerdotal de Jerusalém.
Veja como até a teologia de P serve a essa lógica. Em Ex 6:2-3, P afirma que os patriarcas conheceram Deus apenas como El Shaddai e que o nome YHWH só foi revelado a Moisés. Isso é mais que um detalhe: é uma forma de ancorar todo o culto legítimo num momento fundador único, o Sinai, de onde descem as regras de sacrifício e o sacerdócio aaronida. A religião, em P, não brota de altares espalhados e improvisados; ela é canalizada, centralizada e codificada. Para a inerrância isso é desconfortável, porque significa que Gn 1 e Ex 6 carregam uma agenda sacerdotal datável, e não simplesmente um relato transparente do que aconteceu.
Foi exatamente essa centralidade do ritual que Wellhausen leu como sinal de época tardia. No esquema dele, a religião de Israel teria evoluído do espontâneo e local para o centralizado e legalista, e P, com seu culto único e sua máquina ritual, representaria o ponto final dessa curva, já no exílio ou pós-exílio, depois de Deuteronômio. A datação tardia de P virou pilar da hipótese. O problema é que o argumento é em parte circular: pressupõe uma teoria de progresso religioso unilinear para então ler o ritual como prova de tardiedade.
E aqui a honestidade exige registrar o contra-ataque, que é sério. Yehezkel Kaufmann recusou a cronologia de Wellhausen, e linguistas como Avi Hurvitz e o exegeta Jacob Milgrom argumentaram, com dados de hebraico, que boa parte do material de P usa uma camada de língua anterior à do hebraico pós-exílico, sugerindo um núcleo pré-exílico. O debate sobre P antigo versus P tardio segue aberto. Mas note que esse debate desloca a data, não a natureza do texto: dos dois lados se reconhece que P é uma voz sacerdotal com interesses próprios, costurada a outras vozes. O que ela não sustenta é a imagem de um Pentateuco caído pronto do céu, sem autores, sem época e sem agenda.
A datação tardia de P é assumida, e hebraístas a contestam pela própria língua do texto.
A datação de P no exílio (séculos 6 a 5 a.C.) é o pilar que sustenta toda a reconstrução de Wellhausen: ele precisava que o material sacerdotal fosse o mais tardio para defender que o ritual e o sacerdócio eram uma degeneração final da religião de Israel, e não seu ponto de partida. O problema é que essa data nunca foi propriamente provada por evidência externa. Ela foi assumida porque encaixava na tese maior, e uma tese que precisa de uma data para se sustentar não pode usar essa mesma data como prova de si mesma.
Foi exatamente esse pilar que Yehezkel Kaufmann atacou. No seu trabalho monumental sobre a história da religião de Israel, Kaufmann inverteu a ordem de Wellhausen: argumentou que P é pré-exílico e anterior a D (o Deuteronômio), e não posterior. Se P vem antes de D, desmorona a narrativa de que o legalismo sacerdotal seria a fase decadente do judaísmo do Segundo Templo. Não se trata de um leitor devoto recusando a crítica, mas de um dos maiores historiadores judeus da Bíblia do século 20 desmontando a cronologia por dentro.
O reforço veio do campo linguístico, terreno onde a discussão é verificável. Avi Hurvitz, comparando a língua de P com a do livro de Ezequiel, mostrou que P usa o hebraico mais arcaico dos dois. Onde P emprega um verbo antigo para lavar o sacrifício, Ezequiel já usa o termo técnico mais recente, ausente em P justamente porque P reflete um estágio anterior da língua. Como Ezequiel é seguramente exílico, P, sendo linguisticamente mais antigo, dificilmente seria mais tardio. Jacob Milgrom, no seu comentário a Levítico, somou-se a essa linha e defendeu instituições e vocabulário pré-exílicos em P.
Nada disso apaga o que é factual: P tem mesmo um estilo próprio, ordenado, formal, repetitivo, com suas genealogias, censos e fórmulas litúrgicas, distinto da prosa mais narrativa das outras camadas. Reconhecer esse estilo distinto é honesto. O ponto é outro: estilo distinto não obriga data tardia. Quando hebraístas do calibre de Kaufmann, Hurvitz e Milgrom contestam a datação exílica de P por argumentos linguísticos checáveis, o que se conclui é que o pilar de Wellhausen não é um dado fechado, e sim uma hipótese disputada dentro da própria erudição crítica.