Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Mesmo fragmentária, E expõe as costuras e camadas do texto.
O estado fragmentário de E é, por si só, uma das evidências mais reveladoras do processo de redação. Diferente de J ou da fonte sacerdotal (P), que sobrevivem em blocos longos e contínuos, E aparece em retalhos: um episódio aqui (a quase-morte de Isaque em Gn 22), uma passagem ali, costurados dentro de narrativas que predominantemente são de J. A explicação mais aceita é histórica. Quando o Reino do Norte caiu diante da Assíria em 722 a.C., refugiados teriam levado os textos do Norte para o Sul, onde um redator os entrelaçou com a tradição de J, mantendo J como espinha dorsal e encaixando trechos de E. Por isso E chega até nós mutilado, e não porque tenha sido mal escrito.
Essa fragilidade abriu uma divisão real entre os pesquisadores, e a honestidade exige registrá-la. Uma corrente, associada a estudiosos como John Van Seters, sustenta que E nunca foi um documento independente: seria, no máximo, uma camada de expansões sobre J. Outra corrente, ligada a Rolf Rendtorff, troca a ideia de documentos contínuos pela hipótese fragmentária, na qual o Pentateuco nasce do acúmulo de blocos narrativos curtos, reunidos em fases editoriais sucessivas. Em ambos os casos, a moral é a mesma: o material que a tradição leu por séculos como um texto unitário mostra costuras e camadas.
Mesmo com a fragilidade de E, a dupla designação divina continua sendo tratada como pista de fontes por uma razão metodológica simples: foi o ponto de partida verificável de toda a investigação. Já no século 18, Jean Astruc separou passagens de Gênesis em colunas conforme usassem Elohim ou YHWH, e percebeu que essa divisão coincidia com duplicações de histórias e estilos distintos. O nome não funciona como prova isolada, e sim como sintoma: quando a alternância anda junto com repetição de episódios e teologia diferente (em E, um Deus mais distante, que fala por sonhos e anjos), o conjunto sugere mãos diferentes.
Convém, ainda assim, não exagerar a força do critério, e os próprios defensores da hipótese reconhecem isso. O nome divino sozinho falha em pontos concretos: Gn 22:11, atribuído a E, traz justamente YHWH na boca do anjo, o que mostra que a regra tem exceções. Por isso a crítica moderna não decide a fonte só pelo nome de Deus; cruza esse indício com estilo, duplicatas e teologia. O que está em discussão não é se Moisés escreveu cada palavra, hipótese que a evidência interna torna improvável, mas como esses materiais antigos foram compostos. E, fragmentário e contestado, é o melhor exemplo de que esse processo foi real, mesmo quando seus contornos exatos permanecem incertos.
Se ninguém consegue reconstruir E, a separação foi interpretada, não demonstrada.
Aqui vale uma honestidade que a própria erudição crítica oferece de bandeja: das quatro fontes propostas, E é de longe a mais frágil. Ela é fragmentária, nunca aparece como narrativa contínua que se sustente sozinha, e hoje a maioria dos estudiosos duvida que tenha existido como documento independente. Há quem reduza E a duas ou três passagens curtas em Gênesis. Quando os próprios proponentes do método admitem que não conseguem reconstruir o documento, a conclusão sincera é que a separação de E não foi demonstrada, foi interpretada. Você não isola um texto que nunca consegue exibir inteiro.
E note o que isso revela sobre o método como um todo. A fonte E foi recortada usando, entre outros critérios, a preferência pelo nome Elohim antes da revelação a Moisés. Mas se esse mesmo critério produz um suposto documento tão esfarelado que ninguém consegue montá-lo de pé, então o critério talvez esteja medindo outra coisa que não fronteiras entre autores. A fragilidade reconhecida de E funciona como um teste de controle do próprio bisturi: aplicado aqui, o bisturi cortou fumaça. Por isso a tendência recente, seguindo Rendtorff e os modelos fragmentário e suplementar, foi fundir E com J ou abandonar E de vez.
Agora, sendo evidencial e não negacionista: a alternância entre Elohim e YHWH é um dado real do texto, e não vou fingir que não existe. A questão é se a melhor explicação para ela é multiplicar autores ou reconhecer intenção teológica. Cassuto argumentou, e o argumento se sustenta, que os dois nomes não são sinônimos intercambiáveis: Elohim evoca o Deus universal, criador e juiz de todas as nações; YHWH evoca o Deus da aliança, próximo, pessoal, que se revela a Israel pelo nome. A escolha do nome acompanha o que o texto está dizendo, não a mão de um redator diferente.
Variar o nome divino conforme o aspecto em foco era recurso literário comum no Antigo Oriente Próximo, e Kitchen insistia que padrões assim precisam ser lidos dentro das convenções da época, não pelos hábitos de composição modernos. O ponto não é provar que E jamais existiu: é mostrar que, quando a explicação por nuance teológica dá conta do mesmo dado e a reconstrução documental sequer se sustenta de pé, a navalha mais honesta é a mais simples. Uma fonte que ninguém consegue exibir inteira não é a base sólida de uma teoria; é o sintoma de que o corte foi fino demais para a evidência aguentar.