Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
"Jeová" é um híbrido filológico nascido de um mal-entendido medieval, não a pronúncia legítima do nome divino, e nenhuma quantidade de tradição posterior transforma um erro de leitura em revelação.
A página descreve com precisão o mecanismo, e vale insistir no que ele significa. O qerê perpétuo não é uma curiosidade ortográfica: é a prova material de que, no momento em que os massoretas vocalizaram o texto (entre os séculos 7 e 10), a pronúncia original de YHWH já estava perdida há tanto tempo que eles próprios não tentaram recuperá-la. Eles fizeram o oposto. Pegaram as consoantes de um nome que ninguém mais ousava dizer e penduraram nelas as vogais de outra palavra, Adonai, como uma nota de rodapé embutida no próprio corpo do texto: "não leia o que está escrito, leia esta outra coisa". "Jeová" é o que acontece quando alguém, séculos depois, ignora essa instrução e lê o aviso de aviso como se fosse a palavra. É como ler em voz alta o "[sic]" de uma citação. A forma híbrida aparecendo só por volta do século 13, como a página registra, não é detalhe menor: ela data o equívoco com mil anos de atraso em relação ao texto que pretende restaurar.
Sendo justo com o outro lado, e aqui a honestidade obriga a conceder, "Javé" também não é um registro direto. A própria página é correta ao chamá-la de reconstrução, hipótese majoritária e não certeza. As pistas são reais e convergentes (a raiz do verbo hayah, ligada ao "Eu Sou o Que Sou" de Êxodo 3:14, as formas abreviadas em nomes próprios como o "-iahu" de Elias e o "Yah" dos salmos, e as transcrições gregas em autores cristãos antigos como Clemente de Alexandria e Teodoreto), mas pistas convergentes produzem uma probabilidade, não um fonograma. A diferença decisiva entre as duas formas, então, não é que uma seja certa e a outra errada em absoluto. É que "Javé" é uma tentativa metodologicamente honesta de reconstruir um som perdido a partir de evidência interna ao hebraico, enquanto "Jeová" é a fossilização de um acidente: a soma de duas palavras que nunca foram pronunciadas juntas por falante nenhum do hebraico antigo.
Isso responde diretamente à pergunta de atrito. A posição das Testemunhas de Jeová não erra ao querer restituir o nome próprio de Deus ao texto, e nisso até têm um ponto que a tradição cristã, ao trocar YHWH por "o SENHOR", de fato apagou. O problema é o nome que escolhem restituir. Defender "Jeová" como forma consagrada confunde antiguidade de uso com legitimidade de origem: o uso é antigo, mas a origem é um defeito de leitura, e a consagração apenas tornou o defeito familiar. Para uma tradição que faz da precisão do nome divino um pilar doutrinário, isso é embaraçoso, porque a forma que ela ergue como bandeira é precisamente aquela que a filologia identifica como a mais artificial das três. Reconhecer isso não diminui Deus nem a reverência ao Nome. Apenas lembra que a transmissão do texto sagrado foi obra de mãos humanas, sujeitas a perda, a substituição reverente e a engano, e que tratar o resultado dessas mãos como ditado infalível é justamente o que a história do Tetragrama desautoriza.
"Jeová" é de fato um híbrido filológico tardio, mas isso não invalida seu uso devocional consagrado, e também não dá às Testemunhas de Jeová o que elas precisam: nem "Jeová" nem "Javé" recuperam a pronúncia perdida, e nenhuma das duas formas resolve a questão teológica que realmente importa.
Convém conceder de saída o que é honesto conceder: a página descreve corretamente o mecanismo. As vogais de Adonai foram apostas sob as consoantes YHWH pelos massoretas como sinal de leitura (o qerê perpétuo), e ler esse arranjo ao pé da letra produz a forma híbrida que chega ao português como "Jeová". Isso não é especulação apologética nem invenção cética: é a leitura padrão dos hebraístas, e estudiosos como John Walton, ao tratar do pensamento do Antigo Oriente Próximo, partem do mesmo dado consonantal. Quem defende "Jeová" como recuperação da pronúncia original está enganado quanto à filologia. O ponto, no entanto, é que "recuperar a pronúncia original" nunca foi o que a tradição cristã ocidental pretendeu ao usar a forma. Um nome próprio pode entrar numa língua por um caminho acidental e ainda assim se tornar a designação legítima e reconhecível de seu referente, exatamente como "Jesus" é uma cadeia de transliterações (Yeshua, Iesous, Jesus) que ninguém acusa de ilegítima por não soar como o aramaico do século 1.
O que precisa ser dito com igual franqueza é que a forma rival não está em terreno muito mais firme do ponto de vista da certeza. "Javé" é, como a própria página reconhece, uma reconstrução: plausível, majoritária, montada a partir da estrutura do verbo hayah de Êxodo 3:14, das formas teofóricas abreviadas (o "-yahu" de nomes próprios, o "Yah" dos salmos) e das transcrições gregas em autores cristãos primitivos como Clemente de Alexandria e Teodoreto. É boa erudição, mas continua sendo hipótese, não registro direto. Ou seja, a oposição não é entre uma forma falsa e uma forma verdadeira; é entre um híbrido medieval cuja origem conhecemos e uma reconstrução moderna cuja exatidão não podemos verificar. Reconhecer isso não rebaixa "Javé", apenas calibra a confiança: o silêncio da pronúncia perdida atinge as duas formas, e a tradição judaica de substituir o Nome por Adonai existe justamente porque a pronúncia deixou de circular.
Sobre as Testemunhas de Jeová, é aqui que o argumento honesto corta nos dois sentidos. O dado filológico de fato derruba a tese forte delas, a de que "Jeová" seria a forma autêntica e original a ser restaurada no texto, inclusive no Novo Testamento grego, onde o Tetragrama simplesmente não aparece nos manuscritos que possuímos. Mas a réplica cristã tradicional não deveria se contentar em vencer no terreno da pronúncia, porque esse não é o terreno onde a disputa real se decide. A questão de fundo é teológica e cristológica: se o "Eu Sou" da sarça (Êxodo 3:14) é assumido por Jesus em João 8:58, ao ponto de seus ouvintes pegarem pedras, então a identidade do portador do Nome importa mais do que a vocalização das suas consoantes. Fica genuinamente em aberto, e a apologética honesta admite, qual era o som exato do Nome em Israel. O que não fica em aberto, para a leitura cristã, é que a reverência ao Nome não se resolve escolhendo entre duas grafias, e sim reconhecendo a quem o Nome pertence.