Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
As mudancas de nome no Genesis sao etimologias populares: a tradicao costurou um significado teologico em nomes cujo sentido linguistico real era outro, e o caso de Saulo/Paulo prova que a propria Biblia nao trata toda troca de nome como ato divino.
A pagina acerta num ponto que vale repetir, e que a maioria das pregacoes erra: Saulo nao virou Paulo por renomeacao divina. Atos 13:9 diz literalmente 'Saulo, tambem chamado Paulo', registrando dois nomes simultaneos de um judeu cidadao romano (Sha'ul e Paulus), nao uma troca operada por Deus. Esse caso e precioso porque funciona como um controle de laboratorio dentro do proprio texto: se a Biblia tem ao menos uma troca de nome que e pura convencao cultural greco-romana, entao 'mudanca de nome' nao e, por si so, prova de intervencao sobrenatural. A pergunta certa passa a ser quais trocas o texto apresenta como ato divino e o que sustenta essa leitura nas demais.
E aqui a evidencia linguistica complica a leitura inerrantista, sem precisar nega-la. As explicacoes que Genesis 17:5 e Genesis 32:27-28 dao para os novos nomes sao o que os estudiosos chamam de etimologia popular: associacoes de som, nao derivacoes corretas. 'Abraao' e glosado como 'pai de uma multidao de nacoes' (ab hamon goyim), mas linguisticamente Abrao e Abraao parecem ser apenas variantes do mesmo nome semita 'pai exaltado'; nao ha uma raiz hebraica que de 'multidao' dentro de 'Abraao'. 'Israel' e explicado no verso como 'lutou com Deus' (do verbo sarah), mas a construcao gramatical do nome aponta mais naturalmente para 'Deus luta' ou 'Deus governa', com El como sujeito. Ou seja: o texto primeiro tem o nome e depois constroi uma historia que lhe da sentido teologico, padrao tipico de narrativas de fundacao no Antigo Oriente Proximo, onde nomes de pessoas e lugares ganham lendas explicativas.
Nada disso prova que os patriarcas nao existiram ou que a experiencia religiosa por tras dos relatos seja vazia. Mas muda o peso do argumento. Quando se diz que 'Deus muda o nome para marcar um destino', a critica historica responde que o que temos no texto e a tradicao lendo destino para tras, a partir de nomes ja existentes, com etimologias que nao se sustentam fora da narrativa. Isso e coerente com um Pentateuco composto por camadas (a cena de Abrao pertence a fonte sacerdotal, P, justamente a que mais formaliza nomes e aliancas), nao ditado de uma vez. A propria pagina, ao corrigir o mito de Saulo-Paulo, ja aplica esse rigor a um caso; a honestidade pede aplica-lo tambem a Abraao e a Israel. O significado teologico desses nomes e real para a comunidade que os recebeu. O que a evidencia nao sustenta e que ele seja uma informacao divina inserida no nome, e nao uma interpretacao humana acrescentada a ele depois.
A renomeação como ato de aliança é uma convenção do Oriente Próximo que o texto usa de propósito teológico, não apesar dele, e distinguir isso do duplo nome de Saulo e Paulo é exatamente o que separa leitura rigorosa de lenda devocional.
Comeco concedendo o que a propria pagina ja concede, e que e honesto. A correcao sobre Saulo e Paulo esta certa e e consenso academico, nao concessao apologetica. Atos 13:9 diz "Saulo, tambem chamado Paulo", uma formula de duplo nome, nao um episodio de Deus trocando o nome de ninguem. Judeus da diaspora rotineiramente carregavam um nome semita e um nome greco-romano ao mesmo tempo, pratica documentada em fontes nabateias, palmirenas e egipcias do periodo. Como cidadao romano de Tarso, Saulo (Sha'ul) usava Paulus (provavelmente seu cognomen) ao circular no mundo gentio. Lucas passa a usar o nome romano quando Paulo entra em territorio greco-romano, e ponto. Quem prega que "Saulo virou Paulo no caminho de Damasco" esta inventando um milagre que o texto nao narra, e a apologetica honesta deveria ser a primeira a derrubar essa lenda, nao a ultima.
Mas aqui a critica que reduz tudo a convencao prova demais. O argumento de que Abrao virar Abraao e "so" etimologia popular esbarra num detalhe: o proprio texto sabe que esta fazendo um trocadilho, nao uma derivacao linguistica estrita. "Abraao" nao significa literalmente "pai de muitas nacoes" em hebraico classico; Genesis 17:5 faz um jogo sonoro proposital, e isso e uma convencao reconhecida do Oriente Proximo, nao um erro disfarcado de teologia. Walton e Kitchen insistem num ponto metodologico que o ceticismo costuma pular: no mundo do segundo milenio a.C. o nome era performativo, e renomear era um ato de soberania, tipicamente de um suserano sobre um vassalo (compare com o farao renomeando Jose, ou a Babilonia renomeando Daniel). O nome Abram, alias, tem paralelo amorita atestado em Mari (ʾabi-ram), o que ancora a cena num pano de fundo cultural concreto. Logo, dizer "convencao literaria" e "intervencao divina marcando destino" como se fossem alternativas excludentes e uma falsa dicotomia: no codigo do proprio Oriente Proximo, usar a convencao da renomeacao de aliancas e exatamente como se afirma uma intervencao divina. A forma e o conteudo.
Onde fica o aberto, e fico nele sem fingir resolve-lo. A datacao do material patriarcal e disputada, e parte do consenso o le como construcao literaria tardia, possivelmente persa. Isso afeta quanto peso historico se da a um Abrao individual, e nao tenho como fechar essa questao a partir do trocadilho de Genesis 17. O que o trocadilho mostra e mais modesto e mais solido: o texto opera dentro de uma gramatica antiga coerente, nao por anacronismo devocional. O caso Saulo e Paulo, longe de enfraquecer isso, e o controle de qualidade do argumento. Justamente porque nem toda troca de nome na Biblia e ato divino (At 13:9 prova que nao e), as que o texto marca deliberadamente como ato divino, com promessa, aliança e missao anexas (Gn 32:27-28, Mt 16:17-18), ganham peso por contraste, e nao perdem. A fe nao decide se Peniel aconteceu. Mas a leitura critica tambem nao dissolve o significado da cena reduzindo-a a "convencao cultural", porque a convencao cultural era, ela mesma, a linguagem em que aliança divina se dizia.