O Inferno no Ensino de Jesus

Quem mais fala do castigo

Um dado costuma surpreender: nos evangelhos, é Jesus quem mais fala do castigo no além, mais do que qualquer profeta do Antigo Testamento. Ele usa sobretudo a palavra Geena e um conjunto de imagens vívidas: o fogo, a escuridão exterior, o choro e o ranger de dentes. Essas imagens aparecem com mais frequência nas parábolas sobre o juízo final.

42 E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.

12 E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

A parábola do rico e Lázaro

A descrição mais detalhada de Jesus sobre o destino após a morte está na parábola do rico e de Lázaro. Ela reúne os elementos que o Segundo Templo havia desenvolvido: a separação imediata após a morte, a consciência, o tormento do ímpio, o conforto do justo, e um abismo fixo entre os dois. Estudiosos discutem se é uma descrição literal do além ou uma parábola com função moral, mas o quadro que ela pressupõe é o do judaísmo do primeiro século.

19 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.

20 Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele;

21 E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas.

22 E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado.

23 E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio.

24 E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.

25 Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.

26 E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de passar para cá.

27 E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai,

28 Pois tenho cinco irmãos; para que lhes testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.

29 Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.

30 E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam.

31 Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.

Fogo eterno e destruição

No grande quadro do juízo final em Mateus, Jesus fala de um "fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos", e conclui com a sentença de "castigo eterno" para uns e "vida eterna" para outros. É sobre o sentido exato dessas palavras (eterno como duração sem fim, ou como qualidade definitiva; castigo como tormento consciente, ou como destruição) que se trava o debate tratado na última página deste tema.

41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

46 E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.

Vale notar uma assimetria: Jesus descreve o castigo quase sempre em imagens (fogo, trevas, verme, choro), nunca num tratado sistemático. A geografia detalhada do inferno, com seus compartimentos e penas específicas para cada pecado, não vem dos evangelhos. Ela vem dos apócrifos que tentaram preencher esse silêncio, o tema do próximo grupo.