Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
A morte de Deus é diagnóstico cultural, não tese metafísica, e a secularização lhe deu razão.
Vale começar pelo que o próprio texto diz, porque ele é quase sempre lido pela metade. No aforismo 125 de A Gaia Ciência, quem anuncia a morte de Deus é um louco que chega cedo demais ao mercado, e quem ri dele são os ateus já instalados ali. Esse detalhe é a chave: Nietzsche não está provando metafisicamente que Deus não existe, nem celebrando o ateísmo dos descrentes confortáveis. Ele descreve um processo cultural já consumado e ainda não digerido. O Deus cristão deixou de ser o pressuposto vivo da civilização europeia, e a maioria, inclusive os que se dizem livres dele, não percebeu que junto cai todo o edifício que aquele Deus sustentava: a moral objetiva, a verdade como correspondência, o sentido último da história.
E o diagnóstico tem lastro histórico real. A secularização da Europa no longo século XIX não é metáfora: é um fenômeno mensurável que os primeiros levantamentos já registravam, com queda sustentada na frequência à missa e à comunhão. A historiografia mais cuidadosa, como a de Owen Chadwick, mostra que o processo foi mais lento e ambíguo do que o slogan, houve até reavivamentos no mesmo período. Mas a direção do vetor é clara, e Nietzsche a leu com antecedência: o cristianismo deixava de ser o ar que todos respiravam para virar uma opção entre outras, e uma opção em retração.
O ponto mais lúcido, e o que torna o argumento difícil de descartar, é a acusação que Nietzsche faz ao humanismo iluminista, não ao crente. Ele percebe que boa parte da modernidade secular quis manter a moral cristã, a dignidade do indivíduo, a compaixão pelos fracos, a igualdade, a verdade como dever, depois de ter removido o Deus que a fundamentava. Para Nietzsche isso é incoerência, herança de quem dilapidou o capital sem reconhecer a origem. E aqui ele toca um problema genuíno, que filósofos rigorosamente seculares enfrentam até hoje sem consenso: de onde vem a obrigatoriedade da moral, se não de um legislador transcendente? As respostas existem, mas nenhuma fechou a questão, e o fato de o debate seguir aberto dá razão ao diagnóstico, não necessariamente à terapia que ele propôs.
Convém ser preciso sobre o que esse argumento atinge e o que não atinge. A morte de Deus não refuta a existência de Deus, nem responde à objeção de Cl 1:16-17 e At 17:28, que sustenta que o fundamento subsiste independentemente de quem nele crê. Nietzsche concederia isso de bom grado, porque seu alvo nunca foi a metafísica, e sim a sociologia da crença: ele descreve o que acontece com uma civilização quando deixa de levar Deus a sério, não o que acontece com Deus. O que o argumento pressiona é uma posição intermediária e muito comum, a do humanismo que quer os frutos da moral cristã sem a raiz. Contra essa posição a pressão é real. Contra a fé professada e vivida, o que resta é menos uma refutação e mais um espelho desconfortável.
Deus deixar de ser crível para a cultura não é Deus deixar de existir: o fundamento não consulta o censo.
Comecemos concedendo o que precisa ser concedido, porque a força do argumento depende disso. Nietzsche está certo, e o cristão honesto deveria ser o primeiro a aplaudir o diagnóstico. A parábola do louco não é gritada para devotos numa igreja, mas lançada na praça do mercado, diante da burguesia esclarecida que já não crê e nem percebeu o que isso implica. Esse é o golpe: Nietzsche acusa de covardia exatamente o humanismo secular que quer conservar a ética cristã, compaixão, dignidade do fraco, igualdade, depois de serrar o galho metafísico em que ela estava sentada. Nisso ele é aliado involuntário do argumento moral. Se os valores são reais e obrigatórios, e não meras preferências da espécie, eles precisam de um fundamento que não seja eu mesmo. Tire o fundamento e o que sobra não é uma moral autônoma flutuando no ar, é o abismo. Nietzsche teve a coragem de olhar para dentro dele em vez de fingir que a tábua de valores se sustenta por inércia.
Mas é por levar Nietzsche a sério que se deve marcar uma distinção que ele próprio não pretendeu apagar. Uma coisa é dizer que Deus deixou de ser crível para a cultura: isso é um fato sociológico, e é verdadeiro. Outra, inteiramente distinta, é dizer que Deus deixou de existir. A segunda não se segue da primeira, e Nietzsche, no rigor da parábola, não comete essa confusão: o louco anuncia que nós o matamos, ou seja, descreve um evento na consciência do Ocidente, não uma descoberta de que não há nada lá em cima. A crença de uma civilização e a realidade que essa crença visava são duas variáveis independentes. Um fundamento, se for real, não consulta o censo de fé para decidir se continua sustentando. É o que afirmam Cl 1:16-17 e At 17:28: a tese cristã não é que Deus subsiste enquanto creem nele, mas que ele sustenta o ser independentemente do reconhecimento, inclusive o de quem o nega.
O que sobra em aberto, e aqui não há vitória barata, é que o argumento moral é uma faca de dois gumes, e Nietzsche sabia disso melhor que seus herdeiros. Ele não conclui voltemos a Deus; conclui criemos novos valores, a transvaloração, o além-do-homem. Essa saída é coerente e brutal, e não pode ser refutada apontando para o desconforto que provoca. O cristão não fecha a questão dizendo a moral exige Deus, logo Deus existe, porque o ateu pode morder a bala e responder então não há moral no sentido robusto, só configurações de poder, e essa posição é internamente consistente. O que o teísmo oferece não é uma prova que obrigue, é uma leitura na qual nossas intuições morais mais profundas, que a tortura de inocentes é errada de fato e não por convenção, deixam de ser ilusões úteis e passam a ser percepções de algo real. Nietzsche escolheu pagar o preço de chamá-las de ilusão. O cristianismo aposta que elas são verdade. A escolha não se decide no laboratório, mas tampouco se decide fingindo que o abismo que ele viu não está lá.