Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
A Septuaginta era uma biblioteca grega de fronteiras moveis, nao um canon fechado: o uso apostolico dela prova herdeiros de uma coleção fluida, nao a aprovacao de um indice oficial.
A pagina concede o ponto historico mais forte do lado catolico, e ele merece ser concedido sem regateio: a Septuaginta foi de fato a Biblia operante dos apostolos, e a maioria das citacoes do Antigo Testamento no Novo segue o texto grego, nao o hebraico massoretico. Quando o autor de Hebreus escreve, ele cita Isaias na forma da Septuaginta, e quando Lucas reproduz a leitura de Jesus na sinagoga, e o grego que ressoa. Isso e dado, nao opiniao. O salto que a evidencia nao sustenta e o que vem depois: de que a Biblia dos apostolos era a Septuaginta logo os apostolos abracaram tudo o que algum manuscrito grego viesse a encadernar. Usar uma traducao como fonte de leitura nao equivale a ratificar um sumario, pela razao simples de que, no primeiro seculo, esse sumario nao existia.
O argumento decisivo esta nos proprios manuscritos que a pagina invoca, e ele corta contra a tese da canonicidade automatica. Os tres grandes codices cristaos do seculo 4 discordam entre si sobre o que e a Septuaginta. O Vaticano traz Tobias, Judite, Sabedoria e Eclesiastico, mas omite os Macabeus por inteiro. O Sinaitico inclui 1 e 4 Macabeus. O Alexandrino vai alem e carrega 3 e 4 Macabeus, o Salmo 151 e ainda lista os Salmos de Salomao apos o Novo Testamento. Ora, 4 Macabeus e os Salmos de Salomao nunca entraram no canon de ninguem, nem catolico nem ortodoxo nem protestante. Se a mera presenca de um livro dentro de um codice da Septuaginta provasse canonicidade, esses scribes do seculo 4 teriam canonizado obras que toda a tradicao posterior rejeitou. A premissa, levada a serio, prova demais, e o que prova demais nao prova nada.
O que a evidencia textual realmente mostra e uma coleção de rolos com fronteira difusa, em que a linha entre Escritura e leitura edificante so foi tracada com nitidez depois, e por concilios humanos discutindo entre si. Os judeus de Jamnia fecharam um canon mais estreito; Jeronimo, traduzindo a Vulgata, distinguiu os livros que considerava canonicos dos que chamava apenas uteis para edificacao; e Trento so respondeu com uma lista fechada em 1546, em reacao a Reforma. Nada disso desmente a fe de quem ve providencia nessa historia, mas desmente uma afirmacao especifica: a de que o canon deuterocanonico estava dado, pronto e reconhecido na mao dos apostolos. A Septuaginta que eles usavam era uma biblioteca, nao um indice. Atribuir a ela uma fronteira canonica que so nasceria seculos mais tarde e ler o fim da historia de volta no comeco.
A Septuaginta prova que os deuterocanônicos eram Escritura em uso entre os primeiros cristãos, mas não prova um cânon grego fechado: ela documenta autoridade funcional, não uma lista oficial.
A objeção da página é honesta e eu a aceito sem disfarce: os códices Vaticano e Sinaítico do século 4 não vêm com um sumário inspirado de Deus dizendo quais livros são canônicos. Eles refletem escolhas de copistas cristãos, discordam entre si sobre conteúdo e ordem, e incluem em alguns casos até livros que ninguém hoje defende como Escritura, como 3 e 4 Macabeus no Sinaítico e no Alexandrino. Tratar 'estava encadernado junto' como 'logo era canônico no mesmo grau' é, de fato, um salto. Quem afirma que a LXX entrega um cânon fechado pronto está pedindo mais da evidência do que ela dá. Esse é um terreno que o argumento católico não pode reivindicar como prova direta.
Mas o argumento cético também prova menos do que parece. Dizer que a LXX era 'fluida' não a esvazia de autoridade funcional. Quando o autor de Hebreus descreve mulheres recebendo seus mortos pela ressurreição e homens torturados que recusaram a libertação para alcançar 'melhor ressurreição' (Hb 11:35), ele está retomando o martírio dos sete irmãos de 2 Macabeus, em que um deles declara esperar receber de volta seus membros porque o Rei do mundo o ressuscitará (2Mc 7:9). Não é citação com fórmula 'está escrito', e a página acerta em chamar isso de eco. Mas é um eco que pressupõe um texto conhecido e respeitado pela comunidade, não uma curiosidade marginal. O mesmo vale para os paralelos com Sabedoria em Romanos 1 e em passagens da Paixão. A fronteira 'canônico contra leitura edificante' que a crítica invoca é em parte uma fronteira que o próprio judaísmo do segundo Templo ainda não tinha desenhado com a nitidez que projetamos sobre ele.
Aqui está o ponto metodológico que o leitor precisa conhecer: a noção de um 'cânon hebraico fechado' que teria competido com a LXX é em boa medida uma reconstrução posterior. O suposto 'concílio de Jâmnia' como assembleia que fixou o cânon judaico é hoje amplamente abandonado pela própria crítica histórica, e os manuscritos de Qumran mostram um judaísmo com fronteiras textuais ainda em formação, incluindo cópias de Eclesiástico e de Tobias em hebraico e aramaico. Ou seja, exigir da LXX uma fronteira fixa e depois acusá-la de não a ter é cobrar dela um padrão que nenhuma coleção judaica daquele período satisfazia, nem mesmo a hebraica. Quando Jude cita Enoque profetizando (Jd 1:14), vemos a mesma liberdade de uso. O que fica honestamente em aberto é isto: a LXX prova uso e autoridade prática dos deuterocanônicos entre os primeiros cristãos, e isso é mais do que o cético costuma conceder, mas não prova, por si só, uma decisão canônica formal. Essa decisão pertence ao processo de recepção da Igreja ao longo dos séculos, não ao índice de um códice. A pergunta sobre canonicidade não se resolve no manuscrito; ela só se desloca para o terreno da autoridade que define o cânon.