Não houve um único concílio que "fez" a Bíblia
A imagem popular de um concílio que se reuniu certa tarde e votou os 66 livros é falsa. A formação do cânon foi um processo longo, de séculos, em que listas concorrentes circularam, livros foram aceitos em algumas regiões e rejeitados em outras, e só aos poucos um consenso se firmou. Nenhuma assembleia única criou a Bíblia do nada.
O testemunho mais antigo de uma lista cristã do Novo Testamento é o Fragmento Muratoriano, datado em geral no fim do século 2. Ele já reconhece os quatro evangelhos e a maioria das cartas de Paulo, mas hesita sobre alguns livros e menciona outros que hoje não estão no cânon, sinal de que as fronteiras ainda estavam sendo desenhadas.
Vários escritos cristãos antigos chegaram perto de entrar e aparecem em códices bíblicos importantes. A Didaqué (ou "Doutrina dos Doze Apóstolos") era lida e citada com grande respeito; a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas aparecem dentro do Codex Sinaiticus, um dos mais antigos manuscritos completos da Bíblia grega, lado a lado com os livros do Novo Testamento. Nenhum dos três acabou no cânon final, mas a sua presença mostra que a lista não era óbvia.
1 Existem dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte. Há uma grande diferença entre os dois.
1 Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz, em nome do Senhor que nos amou.
1 Meu senhor me havia levado a Roma para me vender a uma certa Rosa.
Os critérios e as datas que importam
As comunidades cristãs não escolhiam por capricho. Quatro critérios aparecem com frequência nas discussões antigas: apostolicidade (o livro vinha de um apóstolo ou de seu círculo próximo?), ortodoxia (concordava com a regra de fé já recebida?), catolicidade (era aceito e usado pelas igrejas em geral, não só por um grupo?) e uso litúrgico (já era lido nas reuniões de culto?). Um escrito que falhasse nesses pontos dificilmente se firmava.
| Marco | Data aproximada | O que estabeleceu |
|---|---|---|
| Fragmento Muratoriano | Fim do séc. 2 | Lista cristã mais antiga conhecida do NT |
| Carta 39 de Atanásio | 367 | Primeira lista com exatamente os 27 livros do NT atual |
| Concílios de Hipona e Cartago | 393 a 397 | Confirmação regional do cânon no Ocidente |
| Concílio de Trento | 1546 | Definição dogmática católica, incluindo os deuterocanônicos |
A carta festal de Atanásio, bispo de Alexandria, escrita em 367, é a primeira lista conhecida que enumera exatamente os 27 livros do Novo Testamento que hoje conhecemos, nem mais nem menos. Os concílios de Hipona e Cartago, no fim do mesmo século, confirmaram esse núcleo no Ocidente. Para o Antigo Testamento e seus livros disputados, a definição dogmática católica só veio em 1546, no Concílio de Trento, em resposta à Reforma.
A pergunta de fundo, que divide as tradições até hoje, é se esses concílios criaram o cânon ou apenas reconheceram uma lista que o uso das igrejas já tinha, na prática, consolidado. A resposta muda conforme a teologia de quem responde.