Pseudepigrafia: livros sob nomes antigos
Além dos deuterocanônicos, o judaísmo antigo produziu um corpo grande de escritos chamados pseudepígrafos, ou seja, atribuídos a figuras veneradas do passado (Enoque, Moisés, os doze patriarcas, Adão) que não foram seus autores reais. Atribuir uma obra a um antigo era prática literária aceita no período, uma forma de situar o texto numa tradição autorizada, não necessariamente uma fraude no sentido moderno. Nenhum deles entrou no cânon judaico nem no protestante; alguns permanecem canônicos em igrejas orientais.
O caso espinhoso: o Novo Testamento cita livros não canônicos
O ponto que mais intriga é que o próprio Novo Testamento cita esses escritos. A Epístola de Judas, no cânon, faz duas coisas notáveis. Primeiro, cita explicitamente uma profecia de Enoque sobre a vinda do Senhor com seus santos para julgar, frase que corresponde de perto a um trecho de 1 Enoque. Segundo, alude a uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés, episódio que não está em nenhum livro do Antigo Testamento e que a tradição antiga ligava à Assunção (ou Testamento) de Moisés.
14 E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;
15 Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.
9 A terra será imersa e todas as coisas que nela estão perecerão; enquanto um julgamento virá sobre todos, mesmo sobre todos os justos:
Colocar os dois lado a lado mostra a dependência: o autor de Judas conhecia 1 Enoque e o citava como palavra de autoridade. Isso não torna 1 Enoque canônico, mas complica a ideia de uma fronteira limpa e sempre óbvia entre o que é Escritura e o que não é. O mesmo vale para a alusão a Moisés, que pressupõe um texto extrabíblico circulando entre os primeiros cristãos.
9 Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.
1 O testamento de Moisés acerca de tudo que ele ordenou no ano cento e vinte de sua vida, o qual corresponde ao ano dois mil e quinhentos desde a fundação do mundo, quando, depois do êxodo, o povo foi conduzido a Aman, que está do outro lado do Jordão.
Os principais pseudepígrafos hospedados
O site hospeda vários desses escritos na íntegra. 1 Enoque desenvolve a história dos anjos que caíram e geraram os gigantes, ampliando poucos versículos de Gênesis (esse ângulo, dos Vigilantes e dos nefilins, é tratado em profundidade no tema dedicado aos nefilins). O Livro dos Jubileus reconta o Gênesis e o Êxodo num calendário de "jubileus". Os Testamentos dos Doze Patriarcas trazem os discursos finais dos filhos de Jacó. A Vida de Adão e Eva narra os eventos após a expulsão do Éden, incluindo a queda de Satanás.
1 E aconteceu no primeiro ano do êxodo dos filhos de Israel do Egito, no terceiro mês, no décimo sexto dia do mês, [2450 Anno Mundi] que Deus falou a Moisés, dizendo: 'Sobe a Mim no Monte, e te darei duas tábuas de pedra da lei e do mandamento, que escrevi, para que as ensines.'
1 A cópia do Testamento de Rúben, ou seja, as ordens que ele deu aos seus filhos antes de
1 Esta é a história de Adão e Eva depois que saíram do paraíso.
O status varia. Na Igreja Ortodoxa Etíope, 1 Enoque e Jubileus são plenamente canônicos. Em toda a tradição ocidental são apócrifos. O fato de o Novo Testamento citá-los é o nó que o debate abaixo procura desatar.