Quem foi Sócrates? O Filósofo que Não Escreveu Nada

O filósofo que não deixou uma só linha

Sócrates viveu em Atenas no século V antes de Cristo. Não foi rei, nem general famoso, nem professor pago. Andava descalço pela cidade, parava as pessoas na praça e fazia perguntas. E aqui está o detalhe estranho: ele nunca escreveu nada. Tudo o que sabemos dele veio de quem o conheceu, sobretudo de seu discípulo Platão, que pôs as ideias do mestre em forma de diálogos. A Apologia é a nossa principal fonte sobre como ele falava e pensava.

Na própria defesa, Sócrates conta como ganhou fama. Ele saiu interrogando os que tinham reputação de sábios (políticos, poetas, artesãos) e descobriu que quase todos achavam saber muito mais do que de fato sabiam.

25 E juro a vocês, atenienses, pois devo dizer a verdade, o resultado da minha missão foi este: descobri que os homens de maior reputação eram quase os mais tolos, e que outros, tidos como inferiores, eram na verdade mais sensatos. Vou contar a vocês as minhas andanças e os trabalhos que enfrentei, para no fim achar o oráculo irrefutável.

Por que tanta gente passou a odiá-lo

Esse método tinha um preço. Cada vez que Sócrates mostrava a alguém que ele não sabia o que pensava saber, fazia um inimigo. Ele mesmo descreve isso na defesa: a investigação foi gerando inveja e calúnia, até virar uma fama pesada de "aquele que sabe tudo" e "aquele que corrompe os jovens".

29 Dessa investigação, atenienses, surgiram muitas inimizades, das piores e mais perigosas, e dela vieram muitas calúnias. Ganhei o nome de sábio, pois quem me ouve sempre imagina que eu mesmo possuo a sabedoria que aponto faltar nos outros. Mas a verdade, atenienses, é que o deus é sábio, e na sua resposta ele quis mostrar que a sabedoria humana vale pouco ou nada. Não estava falando de Sócrates, apenas usou o meu nome como exemplo, como se dissesse: o mais sábio entre vocês é aquele que, como Sócrates, reconhece que de nada vale a sua sabedoria.

Ele se compara a um moscardo, aquele inseto que pica o cavalo para o animal não cair no sono. Atenas, dizia ele, era um cavalo grande e nobre, mas preguiçoso, e Deus o colocara ali para picá-la sem parar e mantê-la desperta. Um incômodo necessário, e por isso mesmo odiado.

63 Pois, se me matarem, não vão achar facilmente outro como eu, que, se posso usar uma comparação um tanto cômica, fui colocado junto à cidade pelo deus como um moscardo junto a um cavalo grande e nobre, que, por causa do próprio tamanho, é meio lento e precisa ser despertado. Parece-me que o deus me colocou junto à cidade para ser algo assim: para despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, sem parar, o dia inteiro, por toda parte.

Por que um cristão leria um pagão da Grécia antiga

Sócrates morreu cerca de quatro séculos antes de Cristo. Não conheceu a Bíblia, não adorou o Deus de Israel, falava dos deuses gregos. Então por que ele aparece num site cristão? Por duas razões. A primeira é que a Igreja sempre leu os melhores pensadores pagãos com discernimento, aproveitando a verdade que encontraram pela razão e recusando o que contradiz a fé. O próprio apóstolo Paulo, em Atenas, citou poetas gregos para falar do Deus vivo.

22 E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos;

23 Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.

24 O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;

25 Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;

26 E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos dantes ordenados, e os limites da sua habitação;

27 Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós;

28 Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.

A segunda razão é mais direta: a Apologia mostra um homem que prefere morrer a trair a verdade e a consciência. Esse retrato (o justo condenado por uma multidão, que enfrenta a morte com serenidade) ressoa fundo em quem conhece a história dos mártires cristãos. Não porque Sócrates seja um santo, mas porque a coragem dele levanta as mesmas perguntas que a fé responde. As três páginas finais deste tema tratam exatamente disso.