Sócrates e a Morte: por que Temer o Fim é Fingir que se Sabe

O argumento mais ousado da defesa

No meio da defesa, Sócrates faz uma jogada inesperada. Em vez de implorar pela vida, ele desmonta o próprio medo da morte. O raciocínio é simples e cortante: ninguém sabe o que é a morte. Pode ser o maior dos males, mas pode também ser o maior dos bens. Temê-la como se fosse com certeza um mal é, portanto, achar que se sabe o que não se sabe. É a mesma ignorância disfarçada de sabedoria que ele combateu a vida toda.

54 Isso é que seria estranho, e então sim eu poderia ser levado a julgamento por não acreditar nos deuses, por desobedecer ao oráculo, por temer a morte e por me achar sábio sem ser. Pois temer a morte, atenienses, é apenas se julgar sábio sem ser, é achar que se sabe o que não se sabe. Ninguém sabe se a morte não é, por acaso, o maior dos bens para o ser humano, e mesmo assim a temem como se soubessem com certeza que é o maior dos males. E não é essa a ignorância mais vergonhosa, a de achar que se sabe o que não se sabe?

A coragem que vem da coerência

Sócrates não tinha medo de morrer, mas tinha algo que considerava muito pior: praticar a injustiça e desobedecer a quem é melhor, seja Deus ou homem. Disso, sim, ele fugia. Diante de males que sabia serem males, jamais temeria o que talvez fosse um bem.

55 Nisso, atenienses, talvez eu me diferencie da maioria, e, se em algo posso me dizer mais sábio, é nisto: como não sei o suficiente sobre o que no Hades, também não acho que sei. Mas sei que praticar a injustiça e desobedecer a quem é melhor, seja deus ou homem, é mau e vergonhoso. Por isso, diante de males que sei serem males, nunca vou temer ou fugir do que talvez seja um bem.

Por isso ele compara a sua situação à do soldado no posto de batalha. Onde um homem se coloca por dever, ali deve permanecer, sem dar importância à morte, apenas à desonra. Abandonar o posto que Deus lhe deu, a missão de examinar a si mesmo e aos outros, por medo de morrer, é que seria a verdadeira covardia.

53 Pois é assim, atenienses, na verdade: onde quer que um homem se coloque, julgando ser o melhor lugar, ou seja colocado por um comandante, ali ele deve permanecer na hora do perigo, sem dar importância à morte nem a nada, apenas à desonra. Seria estranho da minha parte, atenienses, eu que permaneci onde fui colocado, enfrentando a morte como qualquer outro, quando os generais que vocês escolheram me deram ordens em Potideia, Anfípolis e Délio, e agora, quando o deus me ordena, segundo creio e imagino, cumprir a missão do filósofo de examinar a mim mesmo e aos outros, eu abandonar o meu posto por medo da morte ou de qualquer outra coisa.

A maldade corre mais rápido que a morte

Já condenado, Sócrates resume tudo numa frase que ficou famosa. O difícil não é escapar da morte, mas escapar da maldade, porque ela é mais veloz. Ele, velho e lento, foi alcançado pela morte; seus acusadores, hábeis e ligeiros, foram alcançados por algo pior, a injustiça.

7 O difícil, meus amigos, não é escapar da morte, mas escapar da maldade, pois ela corre mais rápido que a morte. Agora, sendo eu velho e lento, fui alcançado pelo mais lento, a morte; e meus acusadores, sendo hábeis e ligeiros, foram alcançados pelo mais rápido, a maldade.