A Morte é um Bem? A Esperança de Sócrates Diante do Fim

As últimas palavras de um condenado

A Apologia termina com Sócrates já sentenciado à morte, falando aos que votaram por sua absolvição. Em vez de lamento, ele oferece uma das reflexões mais serenas já escritas sobre o morrer. A morte, diz ele, é uma de duas coisas, e nas duas há razão para esperança.

16 Vamos pensar de outra maneira, e veremos que boa razão para esperar que a morte seja um bem. A morte é uma de duas coisas: ou é como não ser nada, sem nenhuma sensação de coisa alguma, ou, como dizem, é uma mudança e mudança de morada da alma deste mundo para outro lugar.

Primeira possibilidade: um sono sem sonhos

Se a morte for o fim de toda sensação, como um sono profundo sem sequer um sonho, então ela seria um ganho admirável. Sócrates pede que se lembre da melhor noite de sono que já se teve, sem nenhum sonho, e que se compare com todas as outras. Se a morte for assim, é descanso, não desgraça.

17 Se não sensação nenhuma, e a morte é como um sono em que quem dorme não tem nem um sonho, então morrer seria um ganho admirável. Imagine alguém escolhendo a noite em que dormiu tão profundamente que nem sonhou, e comparando essa noite com todas as outras noites e dias da própria vida; depois pense quantos dias e noites teria vivido melhor e mais agradavelmente do que aquela noite.

Segunda possibilidade: a alma viaja a outro mundo

Mas se a morte for uma viagem da alma a outro lugar, onde estão todos os que já morreram, então que bem maior poderia haver? Sócrates imagina encontrar os justos do passado, conversar com os grandes homens da antiguidade, e continuar lá o que fazia aqui: examinar quem é sábio de verdade e quem só pensa que é.

19 Mas se a morte é como uma viagem daqui para outro lugar, e é verdade o que dizem, que estão todos os mortos, que bem maior poderia haver do que esse, meus amigos e juízes?

A frase final

A obra fecha com uma das despedidas mais célebres da literatura. Sócrates não sabe qual dos dois caminhos é melhor, o dele ou o dos juízes, mas confia que ao homem bom nenhum mal pode acontecer, nem em vida nem na morte.

23 Por isso, juízes, tenham bom ânimo diante da morte e tenham por certa esta verdade: a um homem bom nenhum mal pode acontecer, nem em vida nem depois de morto, e as coisas dele não são esquecidas pelos deuses. O que aconteceu comigo agora não foi por acaso. Para mim está claro que era melhor eu morrer e me livrar das aflições. Foi por isso que o sinal divino em nenhum momento me afastou do que fazia.

26 Se vocês fizerem isso, terei recebido de vocês um tratamento justo, eu e meus filhos. Mas chegou a hora de irmos embora, eu para morrer e vocês para viver. Qual dos dois caminhos é o melhor, o deus sabe.

Note o limite honesto: tudo aqui é esperança e raciocínio, não certeza. Sócrates não tem promessa de ressurreição, fala em "se for verdade o que dizem". É exatamente nesse ponto que a fé cristã oferece algo que ele não tinha, e a página sobre os limites vai mostrar onde a esperança dele para e a do Evangelho continua.