Para dentro, não para fora
O segundo livro da Imitação dá um passo a mais. Depois de pedir que se deixem as vaidades, ele ensina onde encontrar Deus: não nas coisas exteriores, e sim dentro da própria alma. A obra cita o Evangelho de Lucas e faz dele o seu lema: o reino de Deus está dentro de vós. Quem procura Deus na agitação de fora se cansa em vão; quem o procura no silêncio do coração o encontra.
1 O reino de Deus está dentro de vós, diz o Senhor. Converte-te de todo o teu coração ao Senhor, e deixa este mundo miserável, e a tua alma encontrará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e a dar-te às interiores, e verás vir a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo, que não é dado aos ímpios. Cristo virá a ti, mostrando-te a sua consolação, se lhe preparares por dentro uma morada digna. Toda a sua glória e formosura está no interior, e é ali que ele se compraz. Frequente é a sua visita ao homem interior, doce o seu colóquio, agradável a consolação, muita a paz, e admirável em excesso a familiaridade.
A paz começa em você
Daí vem um dos conselhos mais conhecidos do livro, e um dos mais práticos. A obra ensina que, se você quiser trazer paz aos outros, precisa primeiro estar em paz consigo mesmo. Não adianta querer consertar o mundo enquanto a própria alma está dividida e inquieta. O homem pacífico, diz Tomás de Kempis, faz mais bem do que o homem muito sábio.
1 Conserva-te primeiro em paz, e então poderás pacificar os outros. O homem pacífico é mais útil do que o homem muito instruído. O homem apaixonado converte até o bem em mal, e facilmente crê no mal. O homem bom e pacífico tudo converte em bem. Quem está bem em paz, de ninguém suspeita. Mas quem está descontente e perturbado, é agitado por várias suspeitas, e nem ele mesmo descansa, nem permite que os outros descansem. Diz muitas vezes o que mais lhe conviria fazer, e descuida daquilo que ele próprio é obrigado a fazer. Tem, portanto, primeiro zelo por ti mesmo, e então poderás também, com justiça, ter zelo pelo teu próximo.
Essa paz não é folga nem comodismo. A obra pede vigilância constante, lembrando que quem se descuida do serviço de Deus esfria depressa. A vida interior é trabalho diário: cuidar do coração como quem cuida de um jardim, arrancando todo dia o que cresce errado.
1 Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pensa com frequência para que vieste, e por que abandonaste o mundo. Não foi para viver para Deus e tornar-te espiritual? Portanto, sê fervoroso no progresso, porque em breve receberás a recompensa de teus trabalhos. Então não haverá mais temor nem dor em teus confins. Pouco trabalharás agora, e encontrarás grande descanso, ou melhor, alegria perpétua. Se permaneceres fiel e fervoroso no agir, Deus sem dúvida será fiel e generoso no retribuir. Deves manter boa esperança de que chegarás à palma da vitória, mas não convém adquirir falsa segurança, para que não te tornes preguiçoso nem te enchas de orgulho.