Quatro registros das mesmas palavras
As palavras que Jesus disse sobre o pão e o cálice na última ceia foram registradas quatro vezes no Novo Testamento: em Mateus, em Marcos, em Lucas e na primeira carta de Paulo aos Coríntios. Nenhum dos quatro registros é idêntico ao outro, e é justamente a comparação entre eles que alimenta o debate sobre o que Jesus quis dizer.
Um detalhe cronológico costuma surpreender: o registro mais antigo não está nos evangelhos. É o de Paulo, escrito por volta dos anos 50, uma ou duas décadas antes de Marcos, o primeiro evangelho. Paulo afirma ter "recebido do Senhor" a tradição que transmite aos coríntios, vocabulário técnico judaico de transmissão de tradição (recebi e entreguei, em grego parelabon e paredōka). Ou seja: a fórmula da Ceia já circulava fixada nas comunidades cristãs a menos de trinta anos da crucificação.
23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;
24 E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.
25 Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
26 Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.
26 E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.
27 E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos;
28 Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.
22 E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.
23 E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele.
24 E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado.
19 E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim.
20 Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
O que cada versão inclui
Mateus e Marcos seguem uma linha comum (o sangue "derramado por muitos"); Lucas e Paulo seguem outra (o cálice como "novo testamento", isto é, nova aliança, "no meu sangue"). Só Lucas e Paulo trazem a ordem "fazei isto em memória de mim", e só Paulo acrescenta o comentário de que o rito "anuncia a morte do Senhor, até que venha".
| Elemento | Mateus 26 | Marcos 14 | Lucas 22 | 1 Coríntios 11 |
|---|---|---|---|---|
| "Isto é o meu corpo" | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Corpo "dado/partido por vós" | Não | Não | Sim ("por vós é dado") | Sim ("partido por vós") |
| "Fazei isto em memória de mim" | Não | Não | Sim | Sim (no pão e no cálice) |
| O cálice | "Meu sangue, o sangue do novo testamento" | "Meu sangue, o sangue do novo testamento" | "O novo testamento no meu sangue" | "O novo testamento no meu sangue" |
| Sangue "derramado" | Sim, "por muitos, para remissão dos pecados" | Sim, "por muitos" | Sim, "por vós" | Não menciona |
| "Anunciais a morte do Senhor até que venha" | Não | Não | Não | Sim |
Literal ou figurado: o debate sobre o verbo "é"
Todo o debate posterior se concentra em uma palavra: o verbo "é" (em grego, estin). Quem lê a frase como figura de linguagem observa que Jesus falava por metáfora com frequência, e ninguém entende essas frases ao pé da letra: ele se chamou de porta e de videira sem que ninguém o tomasse por madeira ou planta. Nessa leitura, "isto é o meu corpo" significa "isto representa o meu corpo", como um retrato de família apontado com a frase "este é o meu avô". Um dado gramatical reforça o argumento: em aramaico, língua em que Jesus provavelmente falou, a frase nem teria verbo ("isto: meu corpo").
9 Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.
1 Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador.
A leitura literal, sustentada historicamente por católicos e ortodoxos, responde com o contexto: "eu sou a porta" vem acompanhado de explicação ("se alguém entrar por mim..."), enquanto na Ceia Jesus não explica nem relativiza; ele manda comer e beber. E o texto mais antigo que temos, o de Paulo, traz na sequência uma advertência que essa leitura considera decisiva: quem come e bebe "indignamente" torna-se "culpado do corpo e do sangue do Senhor", e come a própria condenação por "não discernir o corpo". Para a leitura realista, ninguém se torna culpado do corpo de alguém por comer um símbolo: Paulo trataria os elementos como mais que uma lembrança.
27 Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor.
28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice.
29 Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor.
O mesmo debate se trava sobre o discurso do pão da vida em João 6, em que Jesus fala em comer a sua carne e beber o seu sangue (ver a página dedicada ao capítulo).
53 Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.
O contexto pascal: a Ceia como sêder
As palavras não foram ditas no vazio: os sinóticos situam a Ceia como uma refeição de Páscoa judaica, o sêder, celebrado na noite em que Israel relembra a saída do Egito. Nesse rito, cada elemento da mesa carrega significado declarado em voz alta: o pão ázimo (sem fermento, o "pão da aflição"), as ervas amargas, os cálices de vinho bebidos em momentos fixos da liturgia. O cálice que Lucas diz vir "depois da ceia" corresponde, para muitos estudiosos, ao terceiro cálice do sêder, chamado cálice de bênção, expressão que o próprio Paulo usa em 1 Coríntios 10:16.
Esse pano de fundo é usado pelos dois lados. Para a leitura figurada, ele mostra que Jesus estava fazendo o que todo pai de família fazia no sêder: dar significado simbólico a alimentos ("este é o pão da aflição que nossos pais comeram no Egito", diz a liturgia pascal, sem que ninguém pense em canibalizar os antepassados). Para a leitura literal, ele mostra que Jesus tomou o rito fundacional de Israel e o refundou em torno de si mesmo: onde a Páscoa dizia "este é o pão da aflição", Jesus disse "isto é o meu corpo", instituindo a nova aliança no seu sangue, como o sangue dos cordeiros selou a antiga no Egito e no Sinai.
O que os quatro registros estabelecem sem controvérsia é o essencial: desde a década de 50, os cristãos repetiam um rito com pão e vinho, ligado à morte de Jesus, com palavras que remontavam à sua última noite. O que exatamente acontece com os elementos nesse rito é a pergunta que dividiria a cristandade por dois milênios, e ela é tratada nas demais páginas deste tema.