O que dá para saber, fonte a fonte
Como era a Eucaristia antes das catedrais, dos concílios e das definições dogmáticas? Para os primeiros 150 anos do cristianismo, a resposta não depende de especulação: existem fontes escritas, datáveis e curtas o bastante para serem lidas inteiras. Esta página percorre as quatro principais, na ordem cronológica, e todas elas podem ser lidas na íntegra aqui no site.
O Novo Testamento (c. 50 a 100)
O retrato mais antigo vem das cartas de Paulo e de Atos. A comunidade de Jerusalém "perseverava no partir do pão", e em Trôade os discípulos se reuniam "no primeiro dia da semana" para partir o pão, um dos primeiros indícios do culto dominical. Em Corinto, por volta do ano 55, a ceia ainda acontecia dentro de uma refeição comunitária plena, e é justamente o abuso nessa refeição (ricos comendo à parte enquanto os pobres passavam fome) que Paulo censura na carta mais antiga a registrar as palavras da instituição.
42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.
7 E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite.
20 De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor.
21 Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se.
22 Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.
A Didaquê (c. 90 a 110)
A Didaquê, um manual de instrução comunitária redescoberto em 1873, traz as orações eucarísticas mais antigas que chegaram até nós, fora do Novo Testamento. Nos capítulos 9 e 10, a comunidade agradece sobre o cálice pela "santa vinha do teu servo Davi" e sobre o pão partido, com uma imagem que ficaria famosa: assim como o pão foi semeado pelas colinas e depois reunido em um, que a Igreja seja reunida dos confins da terra no Reino.
2 Diga primeiro sobre o cálice: 'Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.'
3 Depois diga sobre o pão partido: 'Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.'
4 Da mesma forma como este pão partido havia sido semeado sobre as colinas e depois foi recolhido para se tornar um, assim também seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu Reino, porque teu é o poder e a glória, por Jesus Cristo, para sempre.'
O mesmo capítulo registra a restrição de acesso mais antiga de que se tem notícia: só os batizados comem e bebem. E o capítulo 14 acrescenta três dados preciosos sobre a prática: a reunião acontece "no dia do Senhor", exige confissão prévia dos pecados, e a celebração é chamada de "sacrifício puro", com uma citação explícita da profecia de Malaquias sobre a oferta pura entre as nações.
5 Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: 'Não deem as coisas santas aos cães.'
1 Reúna-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro.
11 Mas desde o nascente do sol até ao poente é grande entre os gentios o meu nome; e em todo o lugar se oferecerá ao meu nome incenso, e uma oferta pura; porque o meu nome é grande entre os gentios, diz o Senhor dos Exércitos.
Inácio de Antioquia (c. 108)
A caminho do martírio em Roma, Inácio escreveu sete cartas. Na carta aos cristãos de Esmirna, ele ataca os docetistas, que negavam que Cristo tivesse vindo em carne real, e usa a Eucaristia como teste: eles se abstêm dela "porque não confessam que a eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo". É o testemunho realista mais antigo fora do Novo Testamento: para Inácio, negar a carne de Cristo e negar a Eucaristia eram o mesmo erro.
1 Eles se abstêm da eucaristia e da oração, porque não confessam que a eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados, e que o Pai, por sua bondade, ressuscitou.
Na carta aos Efésios, Inácio cunha a expressão que atravessaria os séculos: o único pão partido na assembleia é o "remédio da imortalidade" (em grego, pharmakon athanasias), o antídoto para que não morramos, mas vivamos para sempre em Jesus Cristo.
2 Farei isso especialmente se o Senhor me revelar que vocês, um por um, se reúnem em comum, pela graça, individualmente, em uma só fé, e em Jesus Cristo, que foi da descendência de Davi segundo a carne, sendo tanto o Filho do homem quanto o Filho de Deus, de modo que vocês obedeçam ao bispo e ao presbitério com mente indivisa, partindo um só e o mesmo pão, que é o remédio da imortalidade e o antídoto para que não morramos, mas que vivamos para sempre em Jesus Cristo.
Justino Mártir (c. 155)
Escrevendo ao imperador para defender os cristãos, Justino deixou a descrição completa mais antiga do culto cristão. Nos capítulos 65 a 67 da Primeira Apologia está tudo: as orações comuns, o ósculo da paz, o pão e o cálice de vinho com água levados a quem preside, a longa ação de graças, o "Amém" do povo, a distribuição pelos diáconos e o envio dos elementos aos ausentes. No domingo ("o dia que se chama do sol"), leem-se as Memórias dos apóstolos ou os profetas, o presidente exorta, e há uma coleta voluntária para órfãos, viúvas, presos e forasteiros.
3 No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.
5 Depois que o presidente deu ação de graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam ministros ou diáconos dão a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da água sobre os quais se pronunciou a ação de graças e os levam aos ausentes.
E Justino é explícito sobre o sentido: quem participa precisa crer e ter sido batizado, porque os cristãos não recebem aquilo "como pão comum ou bebida ordinária", mas como a carne e o sangue de Jesus encarnado, conforme o que os apóstolos transmitiram nos Evangelhos.
1 Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
2 De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado.
A linha do tempo das fontes
| Fonte | Data aproximada | O que mostra |
|---|---|---|
| Cartas de Paulo e Atos | c. 50 a 100 | Ceia dentro de refeição comunitária; "partir do pão"; reunião no primeiro dia da semana; palavras da instituição. |
| Didaquê 9, 10 e 14 | c. 90 a 110 | Orações eucarísticas fixas; só batizados participam; dia do Senhor; confissão prévia; linguagem de "sacrifício puro" (Malaquias 1:11). |
| Inácio de Antioquia | c. 108 | A Eucaristia "é a carne de nosso Salvador"; "remédio da imortalidade"; unidade em torno do bispo e do único pão. |
| Justino Mártir, 1ª Apologia 65 a 67 | c. 155 | Descrição completa do culto: leituras, exortação, orações, ósculo, pão e vinho com água, "não como pão comum", diáconos, envio aos ausentes, coleta. |
O que as fontes mostram, e o que não mostram
Lidas em sequência, as fontes mostram um realismo litúrgico surpreendentemente precoce: já em 108 Inácio identifica a Eucaristia com a carne de Cristo, e em 155 Justino declara que aquilo não é recebido como pão comum. Mostram também uma refeição que rapidamente ganhou regras (batismo, confissão, reconciliação), dia fixo e estrutura de culto reconhecível. Quem defende a presença real encontra aqui seus textos favoritos, e com razão: a linguagem é realista, não decorativa.
O que as fontes não mostram é a metafísica posterior. Nenhum desses autores explica como o pão se relaciona com o corpo, não há vocabulário de substância e acidentes, e a palavra "transubstanciação" só aparece no século 13, mais de mil anos depois. As orações da Didaquê, aliás, nem sequer identificam os elementos com o corpo e o sangue, falando de "comida e bebida espirituais". Os textos sustentam com folga que a igreja primitiva levava a Eucaristia muito a sério e falava dela em termos realistas; o que cada tradição construiu sobre esse dado é discussão que pertence às páginas de doutrina deste tema.