
Rabdos, Rath e o Dragão Alado são três demônios do Testamento de Salomão, interrogados nos capítulos 10, 11 e 14. Rabdos aparece como um cão de caça de tamanho enorme e conduz o servo de Salomão até uma pedra verde para o Templo; Rath aparece em forma de leão que ruge, salta sobre quem já jaz doente e diz ter legiões sob seu controle; o Dragão Alado diz de si mesmo que é "um espírito transformado em deus entre os homens". Nenhum dos três aparece na Bíblia. A frase do terceiro, porém, é a que mais rende: ela põe na boca do próprio demônio a explicação que autores cristãos dos primeiros séculos davam para os deuses do paganismo.
Rabdos, o cão que revela a pedra verde
3 E ele respondeu: "Eu realmente pareço ser um cão de caça, mas antes de você ser, ó rei Salomão, eu era um homem que cometeu muitos atos profanos na Terra.
4 Eu fui extraordinariamente educado em letras, e era tão poderoso que eu poderia conter as estrelas do céu.
5 E preparei muitas obras divinas. Pois prejudico os homens que seguem nossa estrela, e os retorno para ela que nasceu do eco.
6 E agarro os homens frenéticos pela garganta, e assim destruí-los.”
7 E eu, Salomão, disse-lhe: “Qual é o teu nome?” E ele respondeu: "Rabdos". E eu disse a ele: "Qual é o seu emprego? E que resultados você pode alcançar?”
8 E ele respondeu: “Dá-me o teu homem, e eu o conduzirei para um lugar montanhoso, e mostrarei a ele uma pedra verde lançada de um lado para o outro, com a qual você pode adornar o Templo do Senhor Deus.”
O nome é grego. Rhabdos (ῥάβδος) quer dizer vara, bastão ou cetro, a mesma palavra que a Septuaginta usa para a vara de Arão e para o cajado do pastor. A tradução de F. C. Conybeare glosa o nome como "Staff", vara, e outras versões trazem "Sceptre". O texto não explica por que um cão se chama assim, e a ligação que alguns leitores modernos fazem com a rabdomancia (adivinhação por varas, do mesmo rhabdos) é inferência, não algo que o Testamento afirme. O que o texto de fato diz é curto: Rabdos foi homem antes de ser demônio, alega ter sido educado em letras e poderoso a ponto de conter as estrelas do céu, prejudica os homens que seguem "nossa estrela" e agarra pela garganta os homens frenéticos, destruindo-os. É frustrado pelo anjo Brieus. Ele pede o servo do rei, leva o servo a um lugar montanhoso e mostra a pedra verde, e o servo a sela com o anel antes de trazer o demônio de volta. O destino que Salomão lhe dá é doméstico: o cão fica encarregado de guardar um espírito ígneo, de modo que a luz saia pela sua boca sobre os artesãos, de dia e de noite. Da mina daquela pedra Salomão tira duzentos siclos para os suportes da mesa de incenso.
Rath, o portador de leão, e sua legião
2 E ele se levantou e me respondeu dizendo: “Ó rei, na forma que tenho, sou um espírito totalmente incapaz de ser percebido.
3 Sobre todos os homens que jazem de bruços com a doença eu salto, avançando furtivamente;
4 e eu torno o homem fraco, de modo que seu hábito corporal é privado de força.
5 Mas eu também tenho outra glória, ó rei.
6 Expulso demônios e tenho legiões sob meu controle. E eu sou capaz de ser recebido em minhas moradas, junto com todos os demônios pertencentes às legiões abaixo de mim."
7 Mas eu, Salomão, ao ouvir isso, perguntou-lhe: “Qual é o seu nome?” Mas ele respondeu: “Portador de Leão, Rath em espécie.”
"Portador de Leão, Rath em espécie" é como ele se apresenta; nas traduções inglesas o título aparece como "Lion-bearer". Ele diz ainda ser, na forma que tem, um espírito incapaz de ser percebido. O ataque descrito é oportunista: salta, avançando furtivamente, sobre os que já jazem de bruços com a doença, e os deixa sem força. Afirma também expulsar demônios e ter legiões sob seu controle, o que no Testamento indica hierarquia entre espíritos, não bondade. Quando Salomão pergunta que anjo o frustra, Rath resiste: dizer o nome, alega, prenderia não só ele, mas também as legiões abaixo dele. Conjurado em nome do Deus dos Exércitos, responde com um enigma numérico: quem os amarrou é "o grande entre os homens", que sofrerá muitas coisas nas mãos dos homens, "cujo nome é a figura seiscentos e quarenta e quatro, que é Emmanuel". A conta fecha em grego, onde cada letra vale um número: Ἐμμανουήλ soma 644 (5+40+40+1+50+70+400+8+30). É uma camada cristã explícita, do tipo que reaparece em outros pontos do livro. O que vem logo depois, sobre as "três letras que o derrubam", é obscuro, e os editores não o explicam com segurança. Já a frase anterior tem paralelo direto em Marcos: esse Emanuel virá e mergulhará os demônios "do penhasco sob a água", como a manada que se precipita no mar depois que a legião é expulsa.
O Dragão Alado: um demônio que virou deus
2 E veio, rolando, um na aparência como a de um dragão, mas tendo o rosto e as mãos de um homem.
3 E todos os seus membros, exceto os pés, eram de dragão; e tinha asas nas costas.
4 E quando eu vi, fiquei surpreso e disse: “Quem é você, demônio, e como você se chama? E de onde você veio? Diga-me."
5 E o espírito respondeu e disse: “Esta é a primeira vez que estou diante de ti, ó rei Salomão.
6 Eu sou um espírito transformado em deus entre os homens, mas agora reduzido a nada pelo anel e pela sabedoria concedida a você por Deus.
7 Agora eu sou o chamado dragão alado, e não durmo com muitas mulheres, mas apenas com algumas que são de boa forma, que possuem o nome da madeira, desta estrela.
O Dragão Alado não negocia nem oferece nada. Diz que é a primeira vez que está diante de Salomão e que é um espírito transformado em deus entre os homens, agora reduzido a nada pelo anel e pela sabedoria concedidas ao rei por Deus. Depois descreve uma atividade sexual predatória com mulheres e uma prole que, segundo ele, não pode ser levada a termo, e demonstra o poder que lhe resta: um espírito sai da sua boca e queima as toras já postas no Templo. Salomão o condena a serrar mármores. A abertura, porém, é o ponto que interessa. Ela inverte o evemerismo grego, que explicava os deuses como homens antigos divinizados pela memória, e afirma o contrário: segundo o dragão, o que se adorava era um espírito que aceitou o culto e passou por deus. Essa é a mesma explicação que apologistas cristãos dos séculos II e III davam para o paganismo, e ela já tinha precedente na tradução grega do Antigo Testamento. Onde o hebraico de Salmo 96:5 diz elilim, "ídolos" ou "nadas", a Septuaginta (que numera o salmo como 95) traz daimonia, "demônios". Deuteronômio 32:17 diz que Israel sacrificou a demônios, e é desse verso que Paulo parte ao tratar da carne oferecida nos templos. A diferença é de gênero literário: o apologista acusa de fora, o Testamento faz o demônio confessar.
Vale separar o que está no texto do que veio depois. No Testamento, Rabdos é um cão, não uma vara empunhada por alguém; Rath não tem biografia, só função e hierarquia; e o Dragão Alado não é Satanás, é mais um espírito na fila de interrogatórios. Nada disso está na Bíblia: os três nomes vêm deste livro. Até os nomes dos anjos que os frustram variam entre manuscritos e traduções. A versão que hospedamos chama o anjo do segundo céu de Bezaliel; a tradução de F. C. Conybeare (1898), feita sobre o códice da Biblioteca de Paris, traz Bazazeth. Listas demonológicas modernas e enciclopédias de ocultismo tratam Rabdos e Rath como entidades com poderes fixos e correspondências mágicas, mas isso é acréscimo posterior, não leitura do texto. A datação do próprio Testamento é disputada, e as propostas vão do fim do século I à Idade Média; a leitura mais citada, a partir da edição crítica de C. C. McCown (1922) e retomada por D. C. Duling, situa a compilação grega por volta do século III, sobre material judaico anterior, com camadas cristãs evidentes.
| Demônio | Forma | O que faz | O que o frustra |
|---|---|---|---|
| Rabdos (cap. 10) | Cão de caça de tamanho enorme; diz ter sido homem | Prejudica quem segue "nossa estrela" e agarra pela garganta os homens frenéticos; leva o servo do rei à pedra verde do Templo | O anjo Brieus |
| Rath, o Portador de Leão (cap. 11) | Leão que ruge; espírito "incapaz de ser percebido" | Salta sobre os que já jazem doentes e os enfraquece; diz ter legiões sob controle | O nome Emanuel, "a figura 644" |
| Dragão Alado (cap. 14) | Dragão com asas, rosto e mãos de homem | Foi adorado como deus; gera prole por união violenta e queima a madeira do Templo com o espírito que sai da sua boca | O anjo do segundo céu (Bezaliel, ou Bazazeth em Conybeare) |