O adversário, não o nome de um inimigo
No hebraico, a palavra que traduzimos por "Satanás" quase sempre aparece com artigo definido: ha-satan, "o satã", ou seja, "o acusador", "o adversário". É um título de função, não um nome próprio. Nos textos mais antigos ele não é um inimigo cósmico de Deus, e sim uma figura que opera dentro do governo divino.
No livro de Jó, "o satã" surge entre os "filhos de Deus" que se apresentam diante do Senhor. Ele só pode tocar em Jó depois de pedir e receber permissão. O papel dele é provar, acusar e testar, sempre dentro dos limites que Deus impõe.

6 E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.
7 Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
8 E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.
9 Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde?
10 Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra.
11 Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
12 E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor.
1 E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o SENHOR.
2 Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E respondeu Satanás ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
3 E disse o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa.
4 Então Satanás respondeu ao Senhor, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.
5 Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!
6 E disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.
7 Então saiu Satanás da presença do Senhor, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.
Em Zacarias o satã reaparece num tribunal celeste, de pé à direita do sumo sacerdote Josué para o acusar. De novo a função é jurídica, a de um promotor, e de novo quem o repreende é o Anjo do Senhor.
1 E ele mostrou-me o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do SENHOR, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor.
2 Mas o Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?
O mesmo ato, dois autores
Um detalhe revela como o conceito foi mudando. O livro de 2 Samuel diz que foi o próprio Senhor quem incitou Davi a recensear o povo. Séculos depois, o Cronista, escrevendo após o exílio, narra o mesmo episódio e atribui a incitação a "Satanás".
A leitura tradicional do cristianismo harmoniza os dois textos: Deus teria permitido, e Satanás executado. A leitura histórica vê aqui um desenvolvimento teológico. À medida que Israel passou a separar mais nitidamente Deus do mal, ações antes ditas "de Deus" foram reatribuídas a um agente intermediário. As duas leituras concordam num ponto: no Antigo Testamento Satanás ainda é mais uma função dentro da corte de Deus do que um rival autônomo.
O mal que vinha de Deus
Essa reatribuição é parte de um padrão maior. Nos textos mais antigos, antes de existir um reino autônomo do mal, a calamidade e até os espíritos malignos são atribuídos diretamente a Deus. O caso mais claro é Saul: quando o Espírito do Senhor se retira dele, o que vem ocupar o seu lugar é "um espírito mau da parte do Senhor".
14 E o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e atormentava-o um espírito mau da parte do Senhor.
O texto não se constrange com isso. Esse mesmo espírito volta sempre que Saul é atormentado, e a harpa de Davi é o alívio. E não é um caso isolado. Deus envia um espírito mau entre Abimeleque e os homens de Siquém, e, para arruinar o rei Acabe, autoriza no céu um "espírito de mentira" na boca dos profetas, numa cena de corte celeste muito parecida com a de Jó.
Os profetas enunciam o princípio sem rodeios. Em Isaías, o próprio Deus diz que forma a luz e cria as trevas, que faz a paz e cria o mal. Amós pergunta se sobrevém algum mal a uma cidade sem que o Senhor o tenha feito.
Vale uma ressalva: a palavra hebraica ra abrange tanto o mal moral quanto o desastre e a calamidade, e muitas traduções vertem esses versículos como "adversidade" ou "infortúnio". Ainda assim, o ponto permanece. É uma visão de mundo em que tudo, inclusive a desgraça e os espíritos que atormentam, brota de uma única fonte soberana. Só mais tarde, com a consolidação de Satanás e dos demônios, um domínio à parte passa a receber esse papel. A reatribuição do censo, que vimos acima, é esse mesmo movimento em escala menor.
A serpente do Éden
Gênesis nunca diz que a serpente do Éden é Satanás. Ela é apresentada como "o mais astuto de todos os animais do campo". O judaísmo clássico em geral não a identificava com um anjo caído: associava a serpente ao yetzer hara, a inclinação ao mal que habita o ser humano, ou à figura angélica de Samael na tradição rabínica posterior.
1 Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?
14 Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.
15 E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.
A equação direta entre a serpente e o Diabo é uma leitura do período do Segundo Templo, retrojetada sobre o texto antigo. Ela aparece explícita em Sabedoria 2:24 e, no Novo Testamento, em Apocalipse 12:9 e 20:2, que chamam o Diabo de "a antiga serpente". O cristianismo tradicional lê ainda Gênesis 3:15 como primeiro anúncio da vitória sobre esse inimigo.
Samael, na tradição judaica, é tanto o anjo da morte quanto o adversário. O apócrifo conhecido como Ascensão de Moisés o coloca diante de Moisés para lhe ceifar a alma, e Samael recua, incapaz de fazê-lo.
4 Embora não sendo um anjo comum, Samma`el entendeu que não estava apto para ceifar a alma de Moisés.