Mito: Constantino Criou o Cristianismo

O que diz o mito

Uma versao mais ampla do mito faz de Constantino o arquiteto do cristianismo: ele teria fundado a religiao, fundido o cristianismo com cultos pagaos do sol, montado a Biblia e imposto tudo por decreto para controlar o imperio. Nessa narrativa, o que veio antes do imperador seria irreconhecivel, e o cristianismo "de verdade" seria uma invencao do seculo 4.

O que Constantino de fato fez

Constantino encontrou um cristianismo que ja existia havia quase tres seculos, com escrituras, liturgia, bispos, martires e doutrina em formacao. Ele nao o fundou: ele o legalizou. O marco e o Edito de Milao, de 313, acordo entre Constantino e Licinio que concedeu liberdade de culto a todos, encerrando oficialmente a perseguicao aos cristaos. O cristianismo passou de religiao perseguida a religiao permitida; so se tornaria religiao oficial do imperio em 380, sob Teodosio, decadas apos a morte de Constantino.

O mito dizO que o registro mostra
Constantino fundou o cristianismoA igreja ja existia ha quase 300 anos
Ele criou a BibliaO canon se formou em processo anterior e posterior a ele
Tornou-o religiao oficialApenas legalizou (313); oficial so em 380, sob Teodosio
Inventou a doutrinaA doutrina foi formulada pelos bispos, nao pelo imperador

O que muda, e o que nao muda

O que o patrocinio imperial mudou foi enorme em termos sociais e politicos: fim da perseguicao, devolucao de bens confiscados, construcao de basilicas, prestigio publico, recursos e a convocacao de concilios como o de Niceia. Mas isso e diferente de criar a religiao. As crencas centrais, os evangelhos, as cartas de Paulo, a adoracao a Cristo e a estrutura de bispos antecedem Constantino em geracoes, como atestam autores do seculo 2 e ate observadores pagaos como Plinio, por volta de 112.

O nucleo factual e este: Constantino legalizou, patrocinou e organizou, e com isso transformou a posicao social do cristianismo. O que ele nao fez foi inventar suas escrituras, suas doutrinas ou sua existencia. O quanto esse patrocinio "corrompeu" ou apenas "promoveu" uma fe ja existente e onde mora o debate real.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

Constantino legalizou e patrocinou uma religiao que ja tinha tres seculos de escrituras e doutrina; ele nao a inventou, mas seu patrocinio passou a moldar quais vozes sobreviveriam.

Aqui a critica historica esta do mesmo lado do artigo, e vale dizer isso sem rodeios. A tese do Constantino arquiteto e historicamente insustentavel, e nao porque a fe seja sagrada, mas porque a documentacao a desmente. O cristianismo que Constantino encontrou ja tinha escrituras em circulacao, bispos, liturgia e martires. O testemunho mais incomodo para o mito vem de um pagao hostil: por volta de 112, mais de dois seculos antes de Niceia, o governador Plinio, o Jovem, escreve a Trajano relatando que os cristaos da Bitinia se reuniam antes do amanhecer e cantavam hinos a Cristo como a um deus (quasi deo). Quem datou alto a divindade de Jesus nao foi um concilio imperial, foi um romano que estava tentando processar esses cristaos. A adoracao a Cristo precede Constantino por geracoes, e nenhum reconstrutor serio da historia textual situa a origem do cristianismo no seculo 4.

A linha do canon merece a mesma firmeza. Niceia, em 325, nao votou nem discutiu quais livros entravam na Biblia: as atas e os relatos de participantes como Eusebio e Atanasio nao registram uma sessao sobre canon. Esse capitulo da lenda foi popularizado por Voltaire e depois injetado na cultura pop pelo Codigo Da Vinci, e nenhum especialista o leva a serio. Sendo justo com o leitor, isso nao significa que o canon caiu pronto do ceu antes de Constantino. A formacao das listas foi um processo longo e disputado, com o nucleo dos evangelhos e das cartas de Paulo ja firme no seculo 2, mas com livros como Hebreus, Tiago, 2Pedro, Judas (a mesma Jd 1:14 que cita o apocrifo de 1Enoque) e o Apocalipse ainda em debate por geracoes depois. O canon foi anterior e tambem posterior ao imperador. O que ele nao foi e obra de uma canetada imperial em 325.

Onde o mito acerta o alvo, ainda que erre a explicacao, e na intuicao de que poder e doutrina se tocam. O artigo concede isso com honestidade ao dizer que o debate real esta entre corromper e promover. Aqui eu empurro um pouco: convocar concilios, custear bispos, devolver bens e construir basilicas nao e neutro. Constantino nao escreveu o Credo, mas pressionou por unidade, presidiu a abertura de Niceia e depois exilou quem nao assinou, e a moeda imperial dele continuou estampando o Sol Invicto por anos. O patrocinio nao inventou a fe, mas passou a decidir quais vozes teriam basilica e quais teriam o exilio, e foi sob esse novo equilibrio de forca que a ortodoxia se consolidou contra os derrotados, de Ario aos grupos depois rotulados hereticos. Reconhecer que Constantino nao fundou o cristianismo e o passo correto. O passo seguinte, igualmente honesto, e admitir que a partir dele a sobrevivencia de um texto ou de uma doutrina deixou de depender so de persuasao e passou a depender tambem de quem segurava o poder.

Apologista Evidencial

Constantino legalizou e patrocinou uma fe ja madura; ele nao escreveu seu credo nem seu canon, e a evidencia documental pre-niceia mostra exatamente o que ele encontrou pronto.

A pagina acerta no nucleo, e o ponto merece ser dito sem rodeios: o mito do Constantino arquiteto desaba diante da datacao das proprias fontes. Quando Plinio, o Jovem, escreve a Trajano por volta de 112 (Cartas 10.96), ele descreve, com hostilidade de administrador romano, cristaos que se reuniam antes do amanhecer para cantar um hino a Cristo "como a um deus". Esse e um observador externo, pagao, sem interesse em promover a fe, registrando adoracao a Cristo dois seculos antes de Niceia. Some-se a isso que os manuscritos do Novo Testamento que ja circulavam nesse periodo (o fragmento P52 de Joao, datado por paleografia da primeira metade do seculo 2) carregam um texto que Constantino nao tinha como reescrever sem deixar rastro material. A critica textual moderna, justamente a disciplina mais cetica, e quem fecha essa porta: nao ha camada constantiniana detectavel no texto evangelico, porque copias anteriores a ele sobreviveram para serem comparadas.

Onde a pagina e honesta, eu insisto na honestidade: ela admite, na ultima linha, que "o quanto esse patrocinio corrompeu ou apenas promoveu" e onde mora o debate real. Concedo o terreno. O poder imperial nao e neutro, e seria ingenuo fingir que basilicas, bens devolvidos e a convocacao de concilios nao mudaram a sociologia da igreja. Mas a pergunta de atrito, se Constantino criou a doutrina, se responde olhando para quem formulou o homoousios. Foi a pressao de bispos como Atanasio, vindos do lado que o imperador menos controlava, que produziu a formula mais dura contra Ario. O proprio Eusebio, citado na pagina como testemunha ocular, e parte interessada que preferia uma linguagem mais branda e assinou a contragosto. Se Constantino fosse o arquiteto teologico, ele teria imposto o termo que lhe garantisse paz politica; o que saiu de Niceia foi o termo mais divisivo possivel, que rendeu decadas de conflito e quase foi revertido sob seus sucessores. Isso e o oposto de uma doutrina desenhada por conveniencia imperial.

Resta o que fica em aberto, e nao adianta fingir que nao fica. O canon nao caiu do ceu fechado: a pagina esta certa ao dizer que ele se formou em processo anterior e posterior a Constantino, e listas como a de Eusebio ainda hesitavam sobre Apocalipse e algumas cartas catolicas no seculo 4. A esperanca da ressurreicao que o Credo confessa nao nasceu em 325; ela ja aparece no judaismo do Segundo Templo, na mae martir de 2Mc 7:9 que espera o Rei do mundo ressuscitar seus filhos, e atravessa a leitura crista do servo ferido por nossas transgressoes de Is 53:5. O que o patrocinio imperial de fato alterou foi a posicao de poder de uma fe que ja existia, ja adorava Cristo e ja tinha escrituras. Isso traz problemas reais, a tentacao do trono junto ao altar nao e pequena, e o cristao honesto nao deveria varrer isso para debaixo do tapete. Mas trocar a perseguicao pelo patrocinio nao e o mesmo que inventar a religiao, e nenhuma evidencia documental disponivel sustenta a tese mais forte do mito.