A Morte de Cada Um dos Doze Apóstolos

O que sabemos e o que é tradição

A pergunta "como morreram os apóstolos" tem uma resposta popular pronta: quase todos teriam morrido martirizados, em terras distantes, de formas dramáticas. Pedro de cabeça para baixo, André numa cruz em X, Tomé traspassado por lanças na Índia, Bartolomeu esfolado vivo. O problema é que a maior parte desses relatos vem de textos tardios, os Atos apócrifos dos apóstolos, escritos entre os séculos 2 e 4, mais interessados em edificação do que em registro histórico.

A tabela abaixo separa o que cada tradição afirma do quanto cada relato é historicamente atestado. Apenas uma morte de apóstolo é narrada na própria Bíblia (Tiago, filho de Zebedeu, em Atos 12), e somente duas ou três contam com testemunho antigo e relativamente próximo dos fatos.

1 E por aquele mesmo tempo o rei Herodes estendeu as mãos sobre alguns da igreja, para os maltratar;

2 E matou à espada Tiago, irmão de João.

ApóstoloMorte tradicionalLocal tradicionalFonte mais antigaAtestação
Tiago, filho de ZebedeuDecapitado por Herodes AgripaJerusalém (c. 44 d.C.)Atos 12:2 (Novo Testamento)Alta
PedroCrucificado, segundo a tradição de cabeça para baixoRoma, sob Nero1 Clemente 5; TertulianoBoa
PauloDecapitado (cidadão romano)Roma, sob Nero1 Clemente 5; TertulianoBoa
AndréCrucificado em cruz em XPatras, GréciaAtos de André (séc. 2-3)Baixa
ToméTraspassado por lançasÍndiaAtos de Tomé (séc. 3)Baixa
FilipeCrucificado ou apedrejadoHierápolisAtos de Filipe (tardio)Baixa
BartolomeuEsfolado vivoArmêniaTradições tardiasBaixa
MateusMorto à espada, incertoEtiópia ou PérsiaTradições tardiasMuito baixa
Tiago, filho de AlfeuApedrejado ou serradoIncertoTradições tardiasMuito baixa
Tadeu (Judas de Tiago)Morto à clava ou flechaPérsiaTradições tardiasMuito baixa
Simão, o ZeloteSerrado ou crucificadoPérsiaTradições tardiasMuito baixa
Matias (substituto de Judas)Apedrejado ou decapitadoIncertoTradições tardiasMuito baixa
JoãoMorte natural, idosoÉfesoTradição patrística (Irineu, Policarpo)Boa (não martírio)
Judas IscariotesSuicídio / morte violentaJerusalémMateus 27; Atos 1No Novo Testamento

Duas observações sobre a tabela. Primeiro, João é exceção dupla: a tradição mais antiga diz que ele morreu velho e de causa natural em Éfeso, não como mártir. Segundo, Judas Iscariotes, o traidor, tem sua morte narrada duas vezes no Novo Testamento, e os dois relatos não coincidem nos detalhes.

Vale lembrar ainda Estêvão, que não era um dos Doze mas é chamado o primeiro mártir cristão: sua morte por apedrejamento é a única execução de um discípulo narrada em detalhe no livro de Atos, com Saulo de Tarso (o futuro Paulo) guardando as capas dos que o lapidavam.

54 E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele.

55 Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus;

56 E disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em à mão direita de Deus.

57 Mas eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele.

58 E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo.

59 E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.

60 E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

Só uma morte de apóstolo está na Bíblia; o "todos mártires" repousa em lenda, e Judas o NT conta de duas formas.

A tese popular costuma andar empacotada num silogismo emocional: os doze morreram mártires, ninguém morre por algo que sabe ser mentira, logo a ressurreição é verdadeira. O problema aparece já no primeiro elo. De todas as doze mortes, uma única está narrada na própria Bíblia: a de Tiago de Zebedeu, decapitado por Herodes Agripa por volta do ano 44 (At 12:1-2), e mesmo essa o texto despacha em meio versículo, sem detalhe, sem heroísmo cênico. Tudo o mais (André crucificado em cruz em forma de X, Tomé trespassado por lanças na Índia, Bartolomeu esfolado vivo) vem dos Atos apócrifos, um gênero dos séculos 2 a 4 que é romance de aventura piedoso muito mais que crônica. Esses textos foram compostos para edificar e entreter comunidades cristãs, com viagens fantásticas, animais que falam e virgens convertidas, e datam de gerações ou séculos após os fatos que pretendem registrar. Construir uma prova histórica sobre eles é construir sobre areia literária.

Sejamos justos onde a evidência manda. Pedro e Paulo são o caso forte. Clemente de Roma, por volta do ano 95, na carta que chamamos de 1Clemente, já alude às mortes de ambos como algo que seus leitores conhecem, e Tertuliano, ao final do segundo século, situa esses martírios em Roma sob Nero. Isso é atestação antiga, próxima e independente do gênero romanesco, o tipo de ancoragem que um historiador aceita como provável. O que não se pode é estender essa solidez por contágio aos outros dez. André, Tomé, Filipe, Bartolomeu e companhia têm atestação baixa a muito baixa, e a tradição mais sóbria sequer mantém o roteiro do martírio universal: a patrística registra que João morreu velho, de causa natural, em Éfeso. Se um dos doze morre de velhice na própria tradição da Igreja, o slogan "todos mártires" já nasce furado por dentro.

O caso de Judas Iscariotes é o mais instrutivo, porque a divergência não está entre Bíblia e apócrifo, mas entre dois livros do Novo Testamento. Mateus 27:3-5 diz que Judas, tomado de remorso, devolveu as moedas e se enforcou. Atos 1:18-19 conta outra coisa: Judas comprou um campo com o dinheiro da iniquidade e ali, caindo de cabeça, arrebentou-se ao meio derramando as entranhas. Os motivos divergem (remorso que devolve o dinheiro contra aquisição de propriedade com ele), o mecanismo da morte diverge (enforcamento contra queda), e até o nexo com o campo diverge. As harmonizações tradicionais (a corda arrebentou, o corpo inchou e despencou) são reconstruções engenhosas que o texto em momento nenhum sugere, e a própria literatura apologética admite que parecem forçadas. É um exemplo limpo de que o cânon registra a mesma morte de duas formas que não se encaixam sem ginástica.

O saldo para a afirmação de inerrância é claro sem precisar de exagero. A morte de Judas mostra que dois autores inspirados podiam reportar um mesmo evento de modos incompatíveis, o que é exatamente o que se espera de tradições humanas transmitidas por canais distintos, e exatamente o que não se espera de um ditado divino sem erro. E o edifício do "martírio dos doze", que tanto se invoca como prova da sinceridade apostólica, repousa sobre fontes tardias e lendárias para a maioria dos nomes. Sinceridade, aliás, não é o ponto frágil: pessoas morrem convictas por toda sorte de crença, inclusive crenças mutuamente excludentes, de modo que a disposição ao martírio prova convicção, nunca o conteúdo do que se crê. O que a evidência sustenta é modesto e honesto: dois ou três martírios bem ancorados, um punhado de tradições piedosas sem lastro, e um cânon que, no caso de Judas, não conseguiu acertar a própria história.

Apologista Evidencial

O argumento forte não é quantitativo: bastam os poucos casos atestados de quem morreu pelo que dizia ter visto.

Comecemos pela concessão, porque ela é o ponto de partida honesto e não a derrota que se imagina. A imagem catequética de que os doze morreram todos mártires, cada um com seu instrumento de suplício, não se sustenta na evidência. O próprio Sean McDowell, em The Fate of the Apostles, que é hoje o tratamento apologético mais sério do tema, percorreu as fontes primárias e classificou cada caso numa escala. O resultado dele é modesto de propósito: martírio historicamente bem atestado apenas para Pedro, Paulo, Tiago de Zebedeu e Tiago, o irmão do Senhor, com Tomé e André acima de cinquenta por cento de probabilidade e o restante caindo para baixo ou muito baixo. A razão é a que a crítica corretamente aponta: para a maioria dos doze, a tradição vem dos Atos apócrifos dos séculos 2 a 4, um gênero romanesco com agenda edificante, não relatos de testemunhas. Quem defende o mito completo está defendendo o indefensável, e a apologética que merece respeito já abandonou essa trincheira.

Mas note o que essa concessão não dissolve. O argumento forte nunca foi quantitativo (doze de doze) e sim qualitativo, e ele sobrevive intacto com quatro ou cinco casos. Tiago de Zebedeu é decapitado por Herodes Agripa em Atos 12:1-2, datável por volta do ano 44, e essa morte está dentro do cânon, não nos apócrifos. Pedro e Paulo têm atestação independente e antiga: 1Clemente, escrito provavelmente nos anos 90 de Roma, fala do testemunho deles sob perseguição, e Tertuliano, já no início do século 3, situa as execuções em Roma. Tiago, o irmão de Jesus, é atestado fora do cristianismo por Flávio Josefo (Antiguidades 20). Isso é uma cadeia documental que nenhum historiador sério trata como ficção. O peso do dado não está no número, está em quem morre e por quê.

E aqui o ponto realmente carrega: esses homens não estavam morrendo por uma doutrina herdada nem por uma convicção sobre a qual poderiam estar sinceramente enganados em segunda mão. Estavam morrendo por uma afirmação de fato que diziam ter testemunhado pessoalmente, a saber, terem visto Jesus vivo depois de morto. Mártires de todas as religiões morrem por aquilo em que creem; o que é incomum, e o que pesa epistemicamente, é alguém que se recusa a retratar diante da execução sobre algo que afirma ter visto com os próprios olhos. Isso não prova a ressurreição, e seria desonesto sugerir que prova. Pessoas morrem por convicções falsas o tempo todo. O que isso estabelece, e estabelece bem, é que os líderes-chave do movimento criam genuinamente no que pregavam e não fabricaram conscientemente um relato que sabiam ser mentira. A teoria da fraude deliberada esbarra exatamente nesse dado.

Sobre Judas Iscariotes vale a mesma honestidade. Mateus 27:3-5 diz que ele se enforcou; Atos 1:18-19 descreve que, caindo de cabeça, arrebentou-se pelo meio e suas entranhas se derramaram. A harmonização clássica é que se trata de duas fases do mesmo evento: o enforcamento, seguido da queda do corpo já em decomposição que rompe ao despencar ou ao ser cortado. Ela é possível e internamente coerente, e não deve ser apresentada como mais do que isso. Não é certa, porque os dois textos têm também ênfases teológicas distintas e foram compostos por autores diferentes com propósitos diferentes, e forçar uma costura cirúrgica pode ser anacronismo de quem exige de um texto antigo a precisão de um laudo legista. O leitor honesto registra a tensão, reconhece que a harmonização resolve o problema factual de modo plausível sem o resolver de modo demonstrável, e segue adiante. Para o argumento central, aliás, Judas é irrelevante: ninguém alegou que ele morreu testemunhando uma ressurreição.