Um Cristo que não podia sofrer
Vários grupos cristãos dos séculos 2 e 3, hoje reunidos sob o rótulo de gnósticos, rejeitavam a ideia de que o Cristo divino tivesse de fato sofrido e morrido na cruz. A posição, chamada docetismo (do grego dokein, "parecer"), sustentava que Jesus apenas parecia ter um corpo físico, ou que o Cristo espiritual se separou do homem Jesus antes da crucificação, deixando só a casca humana padecer. Para essa visão, um ser divino e impassível não podia, por definição, sentir dor nem morrer.
O Novo Testamento já combate uma forma incipiente dessa ideia. As cartas de João insistem que negar que Jesus Cristo "veio em carne" é a marca do anticristo, e que o sangue real de Jesus é o que purifica, polêmica que faz sentido contra quem dizia que a carne e o sofrimento eram aparência.
2 Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;
3 E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo.
7 Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.
Os textos gnósticos
A biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egito em 1945, preservou textos que expõem essa visão de forma vívida. No Apocalipse copta de Pedro, Jesus aparece rindo acima da cruz enquanto outro, um substituto, é pregado em seu lugar; o Cristo verdadeiro, vivo e impassível, observa. No Segundo Tratado do Grande Set, é Simão de Cirene quem é crucificado por engano, enquanto Jesus ri da cegueira de seus algozes. Os Atos de João descrevem uma "cruz de luz" e um Jesus que conversa com o apóstolo numa caverna enquanto, lá fora, a multidão julga estar crucificando-o.
3 O Salvador me disse: "Aquele que você viu sobre a árvore, alegre e rindo, este é o Jesus vivo. Mas este, em cujas mãos e pés eles cravam os pregos, é a sua parte carnal, que é o substituto sendo envergonhado, aquele que veio a existir à semelhança dele. Mas olhe para ele e para mim."
7 Pois as Ennoias deles não me viram, porque eram surdos e cegos. Mas, ao fazerem essas coisas, eles se condenam. Sim, viram-me; castigaram-me. Foi outro, o pai deles, que bebeu o fel e o vinagre; não fui eu. Bateram-me com a cana; foi outro, Simão, que carregou a cruz no ombro.
2 E, tendo falado assim, ele me mostrou uma cruz de luz erguida, e em volta da cruz uma grande multidão, sem uma única forma: e nela, na cruz, havia uma só forma e uma só semelhança. E o próprio Senhor eu contemplei acima da cruz, sem ter forma alguma, mas só uma voz: e uma voz não como a que nos era familiar, mas uma voz doce e bondosa e verdadeiramente de Deus, dizendo-me: João, é necessário que alguém ouça estas coisas de mim, pois preciso de alguém que ouça. Esta cruz de luz é por mim chamada, por causa de vocês, ora de Verbo, ora de mente, ora de Jesus, ora de Cristo, ora de porta, ora de caminho, ora de pão, ora de semente, ora de ressurreição, ora de Filho, ora de Pai, ora de Espírito, ora de vida, ora de verdade, ora de fé, ora de graça. E por estes nomes ela é chamada em relação aos homens; mas o que ela é em verdade, concebida em si mesma e dita a vocês, é a delimitação de todas as coisas, e a firme elevação das coisas fixas a partir das instáveis, e a harmonia da sabedoria, e a sabedoria em harmonia. Há os da direita e os da esquerda, poderes também, autoridades, senhorios e demônios, operações, ameaças, iras, diabos, Satanás, e a raiz inferior, donde procedeu a natureza das coisas que vêm a existir.
Heresiólogos cristãos registram a mesma ideia entre os mestres gnósticos. Irineu de Lyon, no século 2, atribui a Basilides a doutrina de que Simão de Cirene foi crucificado no lugar de Jesus, que teria trocado de forma com ele e escapado rindo. É a mesma estrutura de substituição que reaparecerá, séculos depois, na leitura islâmica da crucificação, ainda que por caminhos e motivos distintos.
Por que a Igreja recusou
O cristianismo majoritário rejeitou o docetismo justamente porque ele esvaziava a cruz. Se Jesus só parecia sofrer, sua morte não era um sacrifício real, e a salvação que dela se afirma deixaria de ter base. A insistência dos credos antigos em que Cristo foi "crucificado, morto e sepultado" é, em parte, uma resposta direta a quem dizia que tudo não passara de aparência.