Uma história que se repete pelo mundo
Não é só a Bíblia que conta um grande dilúvio. Povos do Oriente Próximo, da Grécia, da Índia, da China e das Américas guardam relatos de uma inundação que quase apaga a humanidade, da qual escapam poucos sobreviventes, muitas vezes avisados por uma divindade e salvos num barco ou refúgio. Essa recorrência intriga há séculos e tem mais de uma explicação possível.
Os parentes mais próximos: a Mesopotâmia
Os paralelos mais notáveis vêm da Mesopotâmia, anteriores ao texto bíblico. No Épico de Gilgamesh, o herói Utnapishtim recebe a ordem de um deus para construir um barco, sobrevive ao dilúvio, encalha numa montanha e solta aves em sequência para testar se as águas baixaram, exatamente o gesto de Noé.
O gesto da oferta após o dilúvio também ecoa entre os dois relatos: Noé sacrifica e o Senhor aspira o "cheiro suave"; em Gilgamesh, os deuses se juntam "como moscas" sobre o sacrifício do sobrevivente.
Mais antigo ainda é o Épico de Atrahasis, em que os deuses decidem destruir a humanidade barulhenta com um dilúvio e um homem é avisado a construir um barco e levar a vida a bordo. Gilgamesh herda e reaproveita esse material.
13 Destrua a sua casa, construa um barco,
14 despreze os bens e salve a vida.
15 O barco que você vai construir
16 [...] que ele seja igual a [...].
17 Cubra-o com teto como o Apsu.
18 Para que o sol não enxergue o interior dele,
19 que ele seja coberto por cima e por baixo.
20 Que os cabos sejam bem fortes,
21 dê betume com firmeza e confira força ao barco.
22 Eu farei chover sobre você aqui
23 uma abundância de aves, uma profusão de peixes."
24 Ele abriu o relógio d'água e o encheu;
25 anunciou-lhe a chegada do Dilúvio para a sétima noite.
Por que isso acontece?
Há mais de uma resposta, e elas não se excluem. Uma é histórica: o Oriente Próximo, entre o Tigre e o Eufrates, sofria inundações reais e devastadoras, e a memória de uma grande catástrofe hídrica pode ter deixado eco nas tradições da região. Outra é cultural: relatos vizinhos compartilham um repertório comum, transmitido e reescrito de povo em povo. E há a leitura de que enchentes catastróficas são experiência universal o bastante para gerar histórias semelhantes em culturas sem contato entre si.
A pergunta de quem copiou quem, e se Gênesis depende literariamente de Gilgamesh e Atrahasis, é tratada em detalhe, com a comparação verso a verso, no tema sobre a Bíblia e os mitos do Antigo Oriente: ver /temas/biblia-e-mitos-do-antigo-oriente/. Aqui basta o ponto de consumo: a mesma catástrofe aparece em muitos povos, e o relato de Noé é a versão israelita de uma memória que o mundo antigo partilhava.