O que é o amor platônico? A escada do amor no Banquete de Platão, explicada

De onde vem a expressão "amor platônico"

Quase todo mundo já ouviu falar de amor platônico, e quase sempre no sentido de um afeto sem desejo físico, um amor à distância que nunca se consuma. Esse uso popular é uma simplificação tardia. O termo vem de Platão, o filósofo grego do século IV antes de Cristo, e da obra em que ele descreve o amor com mais profundidade: o diálogo O Banquete. Lá, o "amor platônico" original não é um amor frio nem incompleto. É um amor que começa atraído por um corpo belo e, em vez de parar nele, sobe degrau por degrau até desejar a Beleza eterna em si mesma. Entender o termo de verdade é entender essa subida.

O coração do conceito é a chamada escada do amor, ensinada no Banquete pela personagem Diotima: o amor é uma força que arranca a alma das coisas baixas e a faz ascender ao que é eterno. É essa ideia que séculos de poetas, místicos e teólogos herdaram, e que acabou virando, na boca do povo, o "amor platônico" que conhecemos. Este tema explica o conceito a partir da fonte, o próprio Banquete, sem você precisar saber nada de filosofia.

A festa que virou o livro mais famoso sobre o amor

O Banquete (em grego, Symposion, que quer dizer "beber junto") é um dos textos mais lidos de toda a filosofia, e talvez o mais bonito. Não é um tratado seco. É a narração de uma festa: um grupo de amigos atenienses jantou na casa do poeta Agatão para celebrar um prêmio que ele tinha ganho, e, depois de muito vinho na véspera, resolveram beber pouco e fazer uma coisa diferente. Cada um faria um discurso em louvor ao Amor. É desses discursos, e sobretudo do de Sócrates, que nasce o que hoje chamamos de amor platônico.

O resultado é uma sequência de sete elogios ao deus Eros, um mais ambicioso que o outro, até chegar a Sócrates, que vira o jogo de cabeça para baixo. A pergunta por trás de tudo é simples e enorme ao mesmo tempo: o que é, afinal, o amor? De onde ele vem, para que serve, o que ele faz com a gente?

A própria abertura já avisa que estamos diante de algo precioso, contado de boca em boca por quem amava Sócrates. O narrador, Apolodoro, diz que ouvir e repetir conversas de filosofia lhe dá um prazer enorme.

13 E foi assim que, caminhando juntos, fomos falando sobre o assunto. Por isso, como eu disse no começo, estou bem preparado. Se for para contar a vocês também, vou contar. De qualquer modo, sempre que faço ou ouço discursos sobre filosofia, sinto um prazer enorme, além de achar que aquilo me faz bem.

Por que num jantar com bebida

A moldura não é enfeite. Um symposion grego era exatamente isto: homens reclinados, vinho, conversa e, em geral, música de uma flautista. Platão pega esse cenário comum e o transforma. Logo no início, os convidados dispensam a flautista e decidem que a diversão da noite vai ser a conversa, não a bebedeira. A festa vira sala de aula sem deixar de ser festa.

49 "Pois bem", disse Erixímaco. "Já que ficou decidido que cada um bebe quanto quiser, sem obrigação nenhuma, proponho agora que se dispense a flautista que acabou de entrar. Que ela tocar para si mesma, ou, se preferir, para as mulheres dentro. Nós, hoje, vamos ficar juntos na conversa. E, se vocês quiserem, posso sugerir sobre o que conversar."

Isso importa para o leitor de hoje. O Banquete não foi escrito como um manual a ser estudado, mas como uma cena viva, com personagens reais de Atenas, ironia, ciúme, bêbados que invadem a porta. As ideias mais altas chegam misturadas a risos e a uma briga de amantes. Quem espera um texto árido se surpreende: é literatura antes de ser teoria.

Os sete que falam, na ordem

Cada discurso é um degrau. O primeiro orador tem a visão mais simples do amor; cada um que segue corrige, completa ou amplia o anterior, até o discurso de Sócrates virar tudo do avesso. Vale guardar quem é quem antes de subir a escada:

Quem falaEm uma linhaOnde explicamos
FedroEros é o deus mais antigo e dá coragem de morrer pelo amadoPágina 2
PausâniasExistem dois amores: um nobre e um vulgarPágina 3
Erixímaco, o médicoO amor é uma força que atravessa toda a naturezaPágina 4
AristófanesÉramos inteiros, fomos partidos: amar é buscar a outra metadePágina 5
AgatãoEros é o mais jovem, belo e perfeito dos deusesPágina 6
Sócrates e DiotimaO amor é falta e desejo, e sobe como uma escada até o BeloPágina 7
AlcibíadesO retrato vivo: Sócrates é o próprio amor encarnadoPágina 8

Cada página pega um discurso e o explica com calma. Você não precisa saber nada de filosofia para começar. No fim, três páginas mostram por que cristãos leram esse diálogo pagão com tanto cuidado: o que ele iluminou, e o que a fé precisou recusar.