O que é A República de Platão? O Livro Sobre Justiça, Explicado para Leigos

Uma pergunta que todo mundo já fez

Imagine que você achasse um anel mágico que te deixa invisível. Ninguém nunca saberia o que você fez. Você continuaria sendo honesto? Pagaria as contas, devolveria o troco a mais, contaria a verdade? Ou faria o que bem entendesse, sabendo que jamais seria pego? Essa é, no fundo, a pergunta que move A República de Platão: vale a pena ser uma pessoa justa quando ninguém está olhando, ou ser justo é só uma máscara que usamos por medo de punição?

A República é o diálogo mais famoso de Platão, escrito por volta de 380 a.C., na Grécia antiga. "Diálogo" porque o livro não é um tratado seco: é uma conversa, quase uma peça de teatro, em que personagens discutem entre si. O protagonista é Sócrates, mestre de Platão, que vai desmontando os argumentos dos outros com perguntas. O título grego, Politeia, significa algo como "a organização da cidade" ou "a vida em comum". Não tem nada a ver com "república" no sentido moderno de governo sem rei. É um livro sobre o que é a justiça e como ela aparece tanto numa pessoa quanto numa cidade inteira.

A pergunta central: justo de verdade ou só na aparência?

Logo no começo, um personagem chamado Trasímaco joga na mesa a ideia mais provocadora do livro. Para ele, "justiça" é só uma palavra bonita que os fortes inventaram para manter os fracos na linha. Quem manda faz as leis a seu favor, e ser justo é simplesmente obedecer ao interesse de quem tem poder. Pela lógica dele, o esperto de verdade é o injusto que sabe não ser pego: esse vive melhor que o tolo honesto.

Veja como Trasímaco resume sua tese de um jeito cru, sem rodeios. É contra essa frase que todo o resto do livro vai lutar.

9 Pois os homens condenam a injustiça com medo de serem suas vítimas, não porque tenham receio de cometê-la. E assim, Sócrates, como eu mostrei, a injustiça, quando em escala suficiente, tem mais força, mais liberdade e mais poder que a justiça. E, como disse desde o início, a justiça é o interesse do mais forte, enquanto a injustiça é o ganho e o proveito de cada um."

Sócrates não aceita isso, mas também não se contenta com uma resposta fácil. Ele percebe que provar que vale a pena ser justo é difícil, e que a discussão precisa ser levada a sério. No fim do primeiro dia de conversa, a pergunta verdadeira fica posta na mesa, e é ela que organiza o livro inteiro: que tipo de vida é melhor de viver, a do justo ou a do injusto?

47 Estou tão longe de concordar com Trasímaco, que diz que a justiça é o interesse do mais forte. Essa questão não precisa ser discutida mais agora. Mas quando Trasímaco diz que a vida do injusto é mais vantajosa que a do justo, essa nova afirmação me parece muito mais séria. Qual de nós falou a verdade? E que tipo de vida, Glauco, você prefere?"

O mapa deste tema

Para responder a essa pergunta, Platão constrói uma cidade ideal inteira no papel, só para conseguir enxergar a justiça com clareza, e no caminho passa por algumas das ideias mais influentes da história do pensamento. Não precisa saber nada de filosofia para acompanhar. Este tema sobe a escada um degrau de cada vez. Estes são os grandes conceitos que vamos destravar e onde cada um aparece:

ConceitoEm uma linhaOnde explicamos
O anel de GigesO teste do anel que te deixa invisível: você seria justo?Página 1
A cidade e a almaEstudar a justiça na cidade para enxergá-la na pessoaPágina 2
As três classesProdutores, guardiões e governantes numa cidade justaPróximas páginas
As três partes da almaRazão, ânimo e desejo brigando dentro de vocêPróximas páginas
As quatro virtudesSabedoria, coragem, moderação e justiçaPróximas páginas
A teoria das ideiasO mundo perfeito por trás das coisas imperfeitasPróximas páginas
A ideia do BemO sol do mundo das ideias, fonte de tudoPróximas páginas
A alegoria da cavernaPrisioneiros que tomam sombras pela realidadePróximas páginas
O justo é mais felizA resposta final: por que vale a pena ser justoPróximas páginas
O mito de ErO que acontece com a alma depois da mortePróximas páginas

Cada degrau usa só o que o anterior ensinou. Comece pela página 2, onde Platão revela o truque que torna tudo isso possível: olhar para a justiça numa cidade antes de procurá-la dentro de uma pessoa.