Letras pequenas demais para ler
Sócrates tem um problema prático. A pergunta dele é "o que é a justiça dentro de uma pessoa?". Só que a alma de alguém é invisível, complicada, difícil de examinar. É como pedir a uma pessoa de vista fraca que leia letras minúsculas de longe: ela simplesmente não consegue enxergar.
Aí ele tem a ideia que vira a chave de todo o livro. E se essas mesmas letras estivessem escritas em outro lugar, bem maiores? Bastaria ler as grandes primeiro e depois reconhecer as pequenas. O próprio Sócrates propõe exatamente essa imagem.
5 Já que não somos pessoas de grande agudeza, eu disse, acho melhor adotarmos um método que posso ilustrar assim: imaginem que alguém pedisse a uma pessoa de vista fraca para ler letras pequenas a distância, e outra pessoa percebesse que essas mesmas letras existem em outro lugar, maiores e num espaço maior. Se fossem as mesmas letras, e ela pudesse ler primeiro as maiores e depois passar para as menores, isso seria uma rara sorte.
A cidade é a alma em tamanho gigante
Onde estão essas "letras grandes" da justiça? Numa cidade. A justiça, diz Sócrates, é falada de dois jeitos: como a virtude de uma pessoa e como a virtude de uma cidade inteira. E uma cidade é muito maior que uma pessoa. Logo, a justiça aparece ali em tamanho gigante, mais fácil de identificar.
7 Então, no que é maior, a quantidade de justiça provavelmente também é maior e mais fácil de enxergar. Proponho, portanto, que investiguemos a natureza da justiça e da injustiça, primeiro como elas aparecem na cidade e em segundo lugar no indivíduo, indo do maior para o menor e comparando os dois. Essa, ele disse, é uma proposta excelente.
O plano fica assim: primeiro Sócrates vai construir uma cidade do zero, na imaginação, e descobrir onde mora a justiça nela. Depois ele transfere essa descoberta de volta para dentro de uma pessoa. Essa analogia entre a cidade e a alma é a espinha dorsal de A República. Tudo que Platão diz sobre como organizar uma cidade é, ao mesmo tempo, uma fala sobre como organizar você por dentro. Guarde isso: quando ele falar das três classes da cidade, está falando das três partes da sua alma.
De onde nasce uma cidade
E como ele começa a montar essa cidade? Não pela política, nem por reis ou exércitos, mas por algo bem mais simples: a necessidade. Ninguém se basta sozinho. Você precisa de comida, de roupa, de teto, e não consegue produzir tudo isso sem ajuda. É essa carência mútua que junta as pessoas num mesmo lugar e faz nascer uma cidade.
10 Uma cidade, eu disse, surge, como eu entendo, das necessidades dos seres humanos. Ninguém basta a si mesmo, mas todos nós temos muitas carências. Você consegue imaginar outra origem para uma cidade? Não pode haver outra, ele disse. Então, como temos muitas carências e muitas pessoas são necessárias para supri-las, um toma um ajudante para um fim e outro para outro. Quando esses sócios e ajudantes se reúnem em um só lugar de moradia, o conjunto dos habitantes recebe o nome de cidade. É verdade, ele disse.
A partir desse grão minúsculo, o lavrador que precisa do sapateiro que precisa do construtor, a cidade vai crescendo página após página, até ficar grande o bastante para que a justiça apareça nela "em letras grandes". É nessa cidade em formação que as próximas páginas vão encontrar as três classes de pessoas e as quatro virtudes. E cada coisa que acharmos lá, lembre, é também um retrato de algo que existe dentro de você.