Dois relatos de criação, duas leituras
A pergunta sobre a dignidade da mulher na Bíblia começa nas primeiras páginas. O primeiro relato da criação, em Gênesis 1, é igualitário no enunciado: homem e mulher são criados juntos, ambos à imagem de Deus, e ambos recebem a mesma bênção e o mesmo mandato de dominar a terra.
26 E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
27 E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
O segundo relato, em Gênesis 2, narra a criação em duas etapas: primeiro o homem, depois a mulher, formada a partir dele. É deste relato que saem as duas expressões mais debatidas. A mulher é feita como ezer kenegdo, traduzido tradicionalmente por "auxiliadora idônea" ou "ajudadora que lhe seja semelhante", e é formada da tsela do homem, palavra hebraica que pode significar tanto "costela" quanto "lado".
18 E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.
19 Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.
20 E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea.
21 Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar;
22 E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.
23 E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada.
O peso das palavras
O termo ezer ("auxiliador") não é, no hebraico, palavra de subordinação. Ela aparece em outros pontos do Antigo Testamento descrevendo o próprio Deus como socorro de Israel, o que torna disputável a leitura que vê na "auxiliadora" uma posição inferior. Por outro lado, a ordem da criação (o homem primeiro, a mulher depois e a partir dele) e o fato de o homem nomear a mulher são lidos por outros como sinais de uma precedência ou liderança masculina inscrita na própria criação.
A maldição de Gênesis 3
Depois da queda, Deus dirige à mulher uma sentença que se tornou central no debate: a dor no parto e a frase "o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará". A pergunta interpretativa é se esse domínio do homem sobre a mulher é parte da ordem criada e querida por Deus, ou se é descrição de uma consequência do pecado, uma distorção que entra no mundo com a queda e não o ideal original.
16 E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.
| Elemento | Leitura de subordinação | Leitura de igualdade |
|---|---|---|
| Imagem de Deus (Gn 1) | Compartilhada, mas com papéis distintos | Idêntica em homem e mulher |
| Ordem da criação (Gn 2) | O primeiro tem precedência | Sequência narrativa, não hierarquia |
| Ezer kenegdo | "Auxiliadora" como função de apoio | Mesma palavra usada para Deus socorrer |
| Gn 3:16 ("ele te dominará") | Confirma a liderança masculina | Descreve a distorção trazida pela queda |
O texto, portanto, sustenta as duas perguntas que abrem este tema. A ordem da criação e o título de "auxiliadora" implicam subordinação, ou descrevem uma complementaridade entre iguais? E o "ele te dominará" é mandato ou diagnóstico de um mundo quebrado?