Vida de Santo Antão 1

A biografia (séc. IV) que Atanásio escreveu do pai do monaquismo cristão: a renúncia de Antão, suas lutas com os demônios no deserto, o longo discurso sobre o discernimento dos espíritos, os milagres, os debates com os filósofos gregos e a sua morte. Um dos livros mais influentes da história do cristianismo, leitura que ajudou a converter Agostinho

Depois da morte do pai e da mãe, ficou sozinho com uma irmãzinha: tinha cerca de dezoito ou vinte anos, e sobre ele recaía o cuidado tanto da casa quanto da irmã. Ora, não fazia ainda seis meses desde a morte dos pais quando, indo segundo o costume à Casa do Senhor, refletia consigo mesmo e ponderava, enquanto caminhava, como os apóstolos deixaram tudo e seguiram o Salvador; e como, nos Atos, venderam suas posses e as trouxeram e as depositaram aos pés dos apóstolos para a distribuição aos necessitados, e que grande esperança lhes estava reservada nos céus. Meditando nessas coisas, entrou na igreja, e aconteceu que o Evangelho estava sendo lido, e ele ouviu o Senhor dizer ao homem rico: 'Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e aos pobres; e vem, segue-me, e terás um tesouro no céu.' Antão, como se Deus o tivesse feito lembrar-se dos santos, e como se a passagem tivesse sido lida por causa dele, saiu imediatamente da igreja e deu aos moradores da aldeia as posses de seus antepassados, eram trezentos acres, produtivos e muito bons, para que não fossem mais um peso sobre ele e sua irmã. E todo o resto que era móvel ele vendeu, e, tendo reunido muito dinheiro, deu-o aos pobres, reservando, contudo, um pouco para o bem da irmã.