Confissões - Livro V 14
Livro V: a decepção com Fausto, a viagem a Roma e a Milão e o encontro com Ambrósio
Pois, embora eu não me empenhasse em aprender o que ele dizia, mas somente em ouvir como o dizia (porque essa vazia preocupação era o que me restava, já que desesperava de que houvesse um caminho aberto ao homem para chegar até Vós), vinham ao meu ânimo, juntamente com as palavras que eu amava, também as coisas que eu menosprezava, pois não podia separar umas das outras. E enquanto abria o coração para acolher quão eloquentemente ele falava, entrava juntamente quão verdadeiramente ele falava, ainda que gradualmente. Pois primeiro essas mesmas coisas começaram a parecer-me que podiam ser defendidas, e a fé católica, em favor da qual eu julgava nada se poder dizer contra os maniqueus que a atacavam, já a tinha por afirmável sem impudência, sobretudo depois de ouvir resolvido um e outro, e muitas vezes, enigma das Escrituras antigas, onde, quando eu as tomava ao pé da letra, era morto. Expostos, pois, espiritualmente muitos lugares daqueles livros, já eu reprovava o meu desespero, ao menos aquele pelo qual cria que de modo algum se podia resistir aos que detestavam e escarneciam da Lei e dos Profetas. No entanto, nem por isso julgava ainda que se devesse seguir o caminho católico, pelo fato de também ele poder ter seus doutos defensores, que com abundância e não sem razão refutavam as objeções; nem por isso já se devia condenar aquilo que eu sustentava, pelo fato de se igualarem as partes da defesa. Assim, com efeito, a fé católica não me parecia vencida, mas tampouco ainda aparecia vencedora.
Então, de fato, apliquei fortemente o ânimo para ver se de algum modo poderia, por meio de alguma prova segura, convencer os maniqueus de falsidade. E se eu pudesse conceber uma substância espiritual, no mesmo instante todas aquelas maquinações se desfariam e seriam lançadas para fora do meu ânimo: mas não podia. Contudo, quanto ao próprio corpo deste mundo e a toda a natureza que os sentidos da carne alcançam, considerando e comparando cada vez mais, julgava que muitos filósofos haviam sentido coisas muito mais prováveis. E assim, à maneira dos acadêmicos, como são tidos, duvidando de tudo e flutuando entre todas as coisas, decidi que os maniqueus deviam ser abandonados, julgando que, naquele mesmo tempo da minha dúvida, não devia permanecer naquela seita, a qual já antepunha alguns filósofos. A esses filósofos, todavia, por estarem sem o nome salutar de Cristo, eu de todo me recusava a confiar a cura da enfermidade da minha alma. Resolvi, pois, ser catecúmeno na Igreja católica, que me fora recomendada por meus pais, até que algo de certo me brilhasse, pelo qual dirigisse o meu curso.