A Cidade de Deus - Livro XIII 3
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
Se a morte, que pelo pecado de nossos primeiros pais passou a todos os homens, é o castigo do pecado, mesmo para os bons
Mas surge uma questão que não se deve evitar: se na mais pura verdade a morte, que separa a alma e o corpo, é boa para os bons. Pois, se o for, como veio a acontecer que tal coisa seja o castigo do pecado? Porque os primeiros homens não teriam sofrido a morte, se não houvessem pecado. Como, então, pode ser bom para os bons aquilo que não poderia ter acontecido senão aos maus? Por outro lado, se só pudesse acontecer aos maus, então para os bons não deveria ser bom, mas inexistente. Pois por que haveria de existir algum castigo onde não há nada a castigar?
Por isso devemos dizer que os primeiros homens foram de fato criados de tal modo que, se não houvessem pecado, não teriam experimentado nenhuma espécie de morte; mas que, tendo-se tornado pecadores, foram de tal maneira punidos com a morte, que tudo quanto procedesse de sua estirpe fosse igualmente punido com a mesma morte. Pois nada mais podia nascer deles senão aquilo que eles próprios haviam sido. A sua natureza deteriorou-se na proporção da grandeza da condenação do seu pecado, de sorte que aquilo que existia como castigo naqueles que primeiro pecaram tornou-se uma consequência natural nos seus filhos. Porque o homem não é produzido pelo homem como o foi a partir do pó.
Pois o pó foi a matéria de que o homem foi feito: o homem é o pai por quem o homem é gerado. Por isso a terra e a carne não são a mesma coisa, ainda que a carne seja feita de terra. Mas, tal como é o homem que gera, assim é o homem que dele nasce. No primeiro homem, portanto, existia toda a natureza humana, que havia de ser transmitida pela mulher à posteridade, quando aquela união conjugal recebeu a sentença divina da sua própria condenação; e aquilo em que o homem se tornou, não quando foi criado, mas quando pecou e foi punido, isso ele propagou, no que diz respeito à origem do pecado e da morte.
Pois nem pelo pecado nem pelo seu castigo foi ele próprio reduzido àquela infantil e desamparada enfermidade de corpo e de mente que vemos nas crianças.
Pois Deus ordenou que as crianças começassem a vida como começam os filhotes dos animais, visto que os seus pais haviam descido ao nível dos animais no modo da sua vida e da sua morte; como está escrito: "O homem, quando estava em honra, não compreendeu; tornou-se semelhante aos animais que não têm entendimento." E mais ainda: as crianças, como vemos, são até mesmo mais débeis no uso e no movimento dos seus membros, e mais incapazes de escolher e de recusar, do que a mais tenra cria dos outros animais; como se a força que habita na natureza humana estivesse destinada a superar todas as outras coisas vivas tanto mais eminentemente quanto mais longamente a sua energia foi contida, e mais foi adiado o tempo do seu exercício, assim como uma flecha voa tanto mais alto quanto mais para trás foi retesada.
A essa imbecilidade infantil não caiu o primeiro homem pela sua presunção transgressora e pela justa sentença; mas a natureza humana foi, na sua pessoa, viciada e alterada a tal ponto que ele sofreu nos seus membros a guerra da concupiscência desobediente, e ficou sujeito à necessidade de morrer. E aquilo em que ele próprio se tornara pelo pecado e pelo castigo, tais gerou os que dele nasceram; isto é, sujeitos ao pecado e à morte.
E se as crianças são libertadas dessa servidão do pecado pela graça do Redentor, só podem sofrer esta morte que separa a alma e o corpo; mas, sendo redimidas da obrigação do pecado, não passam àquela segunda morte, sem fim e penal.