A Cidade de Deus - Livro XIII 19

Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original

Contra a opinião dos que não creem que os primeiros homens teriam sido imortais se não houvessem pecado

Por ora, prossigamos, como começamos, a dar alguma explicação acerca dos corpos de nossos primeiros pais. Digo, pois, que, a não ser como justa consequência do pecado, eles não teriam sido submetidos sequer a esta morte, que é boa para os bons: esta morte que não é conhecida e crida apenas por poucos, mas que é conhecida de todos, pela qual a alma e o corpo se separam, e pela qual o corpo de um animal que pouco visivelmente vivia jaz agora visivelmente morto.
Pois, ainda que não possa haver dúvida alguma de que as almas dos justos e santos que morreram vivem em pacífico repouso, contudo seria tão melhor para elas estarem vivas em corpos sãos e bem dispostos, que até mesmo aqueles que sustentam a tese de que é máxima bem-aventurança ver-se livre de todo gênero de corpo condenam, a contragosto, essa opinião. Pois ninguém ousará colocar os homens sábios, sejam os que ainda hão de morrer, sejam os que morreram (isto é, sejam os que estão livres do corpo, sejam os que em breve o estarão), acima dos deuses imortais, aos quais o Sumo, em Platão, promete, como dádiva munificente, uma vida indissolúvel, ou seja, a união eterna com seus corpos.
Mas este mesmo Platão pensa que nada de melhor pode acontecer aos homens do que passarem pela vida piedosa e justamente e, separados de seus corpos, serem recebidos no seio dos deuses, que jamais abandonam os seus; "para que, esquecidos do passado, tornem a visitar o ar superior e concebam o anseio de retornar uma vez mais ao corpo". Virgílio é aplaudido por tomar isto emprestado do sistema platônico.
Certamente Platão pensa que as almas dos mortais não podem estar sempre em seus corpos, mas que necessariamente devem ser despedidas pela morte; e, por outro lado, pensa que sem corpos elas não podem perdurar para sempre, mas que, em incessante alternância, passam da vida à morte e da morte à vida. Esta diferença, contudo, ele estabelece entre os homens sábios e os demais: que os sábios são levados, depois da morte, até as estrelas, para que cada homem repouse por algum tempo numa estrela apropriada a ele, e dali retorne aos trabalhos e às misérias dos mortais quando se tiver tornado esquecido de sua antiga miséria e possuído do desejo de encarnar-se.
Aqueles, por sua vez, que viveram tolamente transmigram para corpos adequados a eles, sejam humanos, sejam bestiais. Assim, ele destinou até as almas boas e sábias a uma sorte deveras muito dura, visto que não recebem corpos tais que pudessem habitar sempre e até imortalmente, mas apenas corpos tais que não podem nem reter permanentemente, nem fruir da pureza eterna sem eles.
Desta noção de Platão, dissemos num livro anterior que Porfírio se envergonhou à luz destes tempos cristãos, de modo que não libertou as almas humanas de um destino nos corpos das bestas, mas também sustentou a libertação das almas dos sábios de todos os laços corporais, para que, escapando de toda carne, pudessem, como almas nuas e bem-aventuradas, habitar com o Pai por tempo sem fim.
E, para que não parecesse ser ultrapassado pela promessa que Cristo faz da vida eterna aos seus santos, ele também estabeleceu as almas purificadas numa felicidade sem fim, sem retorno às suas antigas dores; mas, para contradizer a Cristo, ele nega a ressurreição dos corpos incorruptíveis e sustenta que essas almas viverão eternamente, não sem corpos terrenos, mas sem corpo algum. E, contudo, fosse o que fosse que pretendesse com este ensinamento, ao menos não ensinou que essas almas não deveriam oferecer nenhuma observância religiosa aos deuses que habitavam em corpos.
E por que não o fez, senão porque não cria que as almas, ainda que separadas do corpo, fossem superiores àqueles deuses?
Portanto, se estes filósofos não ousarem (como penso que não ousarão) colocar as almas humanas acima dos deuses que são bem-aventuradíssimos e, no entanto, estão eternamente ligados aos seus corpos, por que acham absurdo aquilo que a cristã prega, a saber, que nossos primeiros pais foram criados de tal modo que, se não houvessem pecado, não teriam sido despedidos de seus corpos por morte alguma, mas teriam sido dotados de imortalidade como recompensa de sua obediência, e teriam vivido eternamente com seus corpos; e, ademais, que os santos, na ressurreição, habitarão aqueles mesmos corpos nos quais aqui labutaram, mas de tal sorte que nem corrupção alguma nem peso algum se permitirá que se prenda à sua carne, nem dor ou aflição alguma que turve a sua felicidade?