A Cidade de Deus - Livro VI 6

Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz

Sobre a teologia mítica, isto é, fabulosa, e a civil, contra Varrão

Ó Marco Varrão! tu és o mais agudo e, sem dúvida, o mais erudito dos homens, mas ainda assim és um homem, não Deus, nem foste agora elevado pelo Espírito de Deus para ver e anunciar as coisas divinas. Vês, na verdade, que as coisas divinas devem ser separadas das ninharias e mentiras humanas, mas temes ofender aquelas opiniões corruptíssimas do povo e os seus costumes nas superstições públicas, que tu próprio, quando os consideras por todos os lados, percebes, e toda a vossa literatura proclama em alta voz serem abomináveis à natureza dos deuses, mesmo de tais deuses que a fragilidade da mente humana supõe existir nos elementos deste mundo.
Que pode aqui o mais excelente talento humano? De que te vale, nesta perplexidade, a erudição humana, ainda que múltipla? Desejas adorar os deuses naturais; és constrangido a adorar os civis. Encontraste que alguns dos deuses são fabulosos, sobre os quais vomitas muito livremente o que pensas, e, quer queiras quer não, com isso salpicas também os deuses civis.
Dizes, é certo, que os fabulosos se adaptam ao teatro, os naturais ao mundo e os civis à cidade; embora o mundo seja uma obra divina, mas as cidades e os teatros sejam obras dos homens, e embora os deuses de que se zomba no teatro não sejam outros senão aqueles que são adorados nos templos; e não exibis jogos em honra de outros deuses senão daqueles a quem imolais vítimas.
Quão mais livremente e mais sutilmente terias decidido estas coisas se tivesses dito que alguns deuses são naturais e outros estabelecidos pelos homens; e que, acerca dos que assim foram estabelecidos, a literatura dos poetas uma versão e a dos sacerdotes outra, ambas as quais, contudo, são tão amigas uma da outra, pela comunhão na falsidade, que ambas agradam aos demônios, a quem a doutrina da verdade é hostil.
Posta de lado, portanto, por um momento, aquela teologia que chamam natural, visto que será discutida depois, perguntamos se alguém se contenta realmente em buscar uma esperança de vida eterna nos deuses poéticos, teatrais e cênicos. Longe de nós tal pensamento! Que o Deus verdadeiro afaste loucura tão desvairada e sacrílega! Acaso de pedir-se a vida eterna àqueles deuses a quem estas coisas agradaram e a quem estas coisas aplacam, nas quais se representam os seus próprios crimes? Ninguém, segundo penso, chegou a tal cúmulo de impiedade precipitada e furiosa. Assim, pois, nem pela teologia fabulosa nem pela civil obtém alguém a vida eterna.
Pois uma semeia coisas vis acerca dos deuses, fingindo-as, a outra colhe-as, acariciando-as; uma espalha mentiras, a outra ajunta-as; uma persegue as coisas divinas com falsos crimes, a outra incorpora entre as coisas divinas as peças que são compostas desses crimes; uma divulga em cânticos humanos ficções ímpias acerca dos deuses, a outra consagra-as para as festividades dos próprios deuses; uma canta as más ações e os crimes dos deuses, a outra ama-os; uma profere ou finge, a outra ou atesta o verdadeiro ou se deleita no falso. Ambas são vis; ambas são condenáveis.
Mas a que é teatral ensina a abominação pública, e a que é da cidade adorna-se com aquela abominação. de esperar-se a vida eterna destas, pelas quais esta vida breve e temporal é poluída? Acaso a sociedade dos homens maus polui a nossa vida, se eles se insinuam em nossos afetos e ganham o nosso consentimento? E não polui a vida a sociedade dos demônios, que são adorados com os seus próprios crimes? Se com crimes verdadeiros, quão perversos os demônios! Se com falsos, quão perverso o culto!
Quando dizemos estas coisas, talvez pareça a alguém muito ignorante destes assuntos que somente aquelas coisas acerca dos deuses que são cantadas nos cânticos dos poetas e representadas no palco sejam indignas da majestade divina, e ridículas, e demasiado detestáveis para serem celebradas, ao passo que aquelas coisas sagradas que não os atores, mas os sacerdotes realizam, são puras e isentas de toda indecência. Se assim fosse, jamais alguém teria pensado que essas abominações teatrais deveriam ser celebradas em honra deles, jamais os próprios deuses teriam ordenado que lhes fossem executadas.
Mas os homens de modo algum se envergonham de realizar estas coisas nos teatros, porque coisas semelhantes se fazem nos templos. Em suma, quando o autor mencionado tentou distinguir a teologia civil da fabulosa e da natural, como uma espécie de terceiro gênero distinto, quis que se entendesse antes como temperada por ambas do que separada de qualquer delas. Pois ele diz que aquelas coisas que os poetas escrevem são menos do que o povo deveria seguir, ao passo que o que os filósofos dizem é mais do que convém ao povo investigar.
"As quais", diz ele, "diferem de tal modo que, não obstante, não poucas coisas de ambas foram tomadas para a conta da teologia civil; por isso indicaremos o que a teologia civil tem em comum com a do poeta, ainda que devesse estar mais estreitamente ligada à teologia dos filósofos." A teologia civil, portanto, não está de todo desligada da dos poetas. Contudo, em outro lugar, acerca das gerações dos deuses, ele diz que o povo se inclina mais para os poetas do que para os teólogos físicos.
Pois neste lugar ele disse o que deveria ser feito; naquele outro lugar, o que realmente se fazia. Disse que estes últimos haviam escrito por causa da utilidade, mas os poetas por causa do divertimento. E daí as coisas dos escritos dos poetas que o povo não deveria seguir são os crimes dos deuses; os quais, contudo, divertem tanto o povo quanto os deuses. Pois, por amor ao divertimento, diz ele, escrevem os poetas, e não por amor à utilidade; não obstante, escrevem tais coisas que os deuses hão de desejar e o povo executa.