A Cidade de Deus - Livro VI 1

Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz

Prefácio. Daqueles que sustentam que adoram os deuses não em vista de vantagens temporais, mas eternas.

Nos cinco livros precedentes, penso ter disputado suficientemente contra aqueles que creem que os muitos deuses falsos, os quais a verdade cristã demonstra serem imagens inúteis, ou espíritos imundos e demônios perniciosos, ou certamente criaturas, e não o Criador, devam ser adorados em proveito desta vida mortal e dos assuntos terrenos, com aquele rito e serviço que os gregos chamam λατρεία, e que é devido ao único Deus verdadeiro.
E quem não sabe que, diante de estupidez e obstinação excessivas, nem estes cinco nem qualquer outro número de livros seria suficiente, quando se estima como glória da vaidade não ceder a nenhuma medida de força do lado da verdade, certamente para a perdição daquele sobre quem tão hediondo vício tiraniza? Pois, não obstante toda a assiduidade do médico que tenta efetuar a cura, a doença permanece invencível, não por culpa alguma dele, mas por causa da incurabilidade do enfermo.
Mas aqueles que ponderam a fundo as coisas que leem, tendo-as compreendido e considerado, sem nenhum grau, ou sem nenhum grau grande e excessivo daquela obstinação que pertence a um erro longamente acalentado, julgarão mais prontamente que, nos cinco livros concluídos, fizemos mais do que a necessidade da questão exigia, do que que lhe demos menos discussão do que requeria.
E não podem ter duvidado de que todo o ódio que os ignorantes tentam lançar sobre a religião cristã por causa dos desastres desta vida, e da destruição e mudança que sobrevêm às coisas terrenas, enquanto os doutos não apenas o dissimulam, mas encorajam tal ódio, contra a própria consciência, possuídos por uma ímpia loucura; não podem ter duvidado, repito, de que esse ódio é desprovido de reta reflexão e razão, e cheio da mais leviana temeridade e da mais perniciosa animosidade.
Ora, como, em seguida (conforme exige a ordem prometida), devem ser refutados e instruídos aqueles que sustentam que os deuses das nações, os quais a verdade cristã destrói, devem ser adorados não por causa desta vida, mas por causa daquela que de existir após a morte, farei bem em começar minha disputa com o verídico oráculo do santo salmo: "Bem-aventurado o homem cuja esperança é o Senhor Deus, e que não atenta para as vaidades e loucuras mentirosas." Não obstante, em todas as vaidades e loucuras mentirosas os filósofos devem ser ouvidos com muito mais tolerância, pois repudiaram aquelas opiniões e erros do povo; porque o povo erigiu imagens às divindades, e ou inventou acerca daqueles que chamam deuses imortais muitas coisas falsas e indignas, ou nelas creu, inventadas, e, uma vez cridas, misturou-as ao seu culto e aos seus ritos sagrados.
Com aqueles homens que, embora não por livre confissão de suas convicções, ainda assim testemunham que desaprovam tais coisas pela sua reprovação murmurada durante as disputas sobre o assunto, talvez não seja muito impróprio discutir a seguinte questão: se, em vista da vida que de existir após a morte, devemos adorar, não o único Deus, que fez todas as criaturas espirituais e corporais, mas aqueles muitos deuses que, como sustentam alguns desses filósofos, foram feitos por aquele único Deus, e por Ele colocados em suas respectivas esferas sublimes, e são por isso considerados mais excelentes e mais nobres do que todos os outros?
Mas quem afirmará que se deve sustentar e contender que aqueles deuses, alguns dos quais mencionei no quarto livro, aos quais se distribuem, a cada um o seu, os encargos de coisas mínimas, concedem a vida eterna?
Mas porventura aqueles homens tão hábeis e tão argutos, que se gloriam de haver escrito para grande benefício dos homens, a fim de ensinar por que motivo cada deus deve ser adorado e o que se deve pedir a cada um, para que, com a mais vergonhosa absurdidade, tal como um mímico costuma exibir por diversão, não se busque água de Líber e vinho das Linfas; porventura tais homens afirmariam a algum homem que suplica aos deuses imortais que, quando este houver pedido vinho às Linfas, e elas lhe responderem: "Nós temos água, busca vinho de Líber", possa ele dizer com razão: "Se não tendes vinho, dai-me ao menos a vida eterna"? Que de mais monstruoso do que essa absurdidade?
Não responderiam essas Linfas, pois costumam ser facilmente levadas ao riso, rindo às gargalhadas (se é que não tentam enganar como os demônios), ao suplicante: homem, julgas que temos a vida (vitam) em nosso poder, nós que, como ouves, não temos sequer a videira (vitem)?" É, portanto, a mais impudente loucura buscar e esperar a vida eterna de tais deuses, dos quais se afirma que presidem às separadas e mínimas ocupações desta vida tão dolorosa e breve, e a tudo o que é útil para sustentá-la e escorá-la, de modo que, se algo que está sob o cuidado e o poder de um for pedido a outro, isso é tão incongruente e absurdo que se assemelha muito à galhofa do mímico; a qual, quando feita por mímicos que sabem o que fazem, é com razão rida no teatro, mas quando feita por pessoas tolas, que não conhecem coisa melhor, é com mais razão ridicularizada no mundo.
Por isso, no que toca àqueles deuses que os Estados estabeleceram, foi engenhosamente inventado e legado à memória pelos homens doutos qual deus ou deusa se deve suplicar em relação a cada coisa particular: o que, por exemplo, se deve buscar de Líber, o que das Linfas, o que de Vulcano, e assim de todos os demais, alguns dos quais mencionei no quarto livro, e outros julguei acertado omitir. Ademais, se é um erro buscar vinho de Ceres, pão de Líber, água de Vulcano, fogo das Linfas, quanto maior absurdidade não se deve julgar que haja, se se fizer súplica a algum destes pela vida eterna?
Por isso, se, quando indagávamos quais deuses ou deusas se deveria crer capazes de conferir reinos terrenos aos homens, tendo-se discutido tudo, mostrou-se estar muito longe da verdade pensar que mesmo os reinos terrenos sejam estabelecidos por alguma daquelas muitas falsas divindades, não será a mais insana impiedade crer que a vida eterna, a qual, sem dúvida ou comparação alguma, deve ser preferida a todos os reinos terrenos, possa ser dada a alguém por algum desses deuses?
Pois a razão pela qual tais deuses nos pareceram incapazes de dar sequer um reino terreno não era por serem eles muito grandes e elevados, ao passo que aquilo é algo pequeno e abjeto, que eles, em sua tão grande sublimidade, não se dignariam a cuidar, mas porque, por mais que alguém, em consideração à fragilidade humana, com razão despreze os pináculos caducos de um reino terreno, esses deuses apresentaram tal aparência que parecem indignos no mais alto grau de ter a concessão e a conservação até mesmo daqueles que lhes foram confiados; e, por conseguinte, se (como ensinamos nos dois últimos livros de nossa obra, onde este assunto é tratado) nenhum deus, de toda aquela multidão, seja dos que pertencem, por assim dizer, aos deuses plebeus, seja dos que pertencem aos deuses nobres, é apto a dar reinos mortais aos mortais, quanto menos será capaz de fazer imortais dos mortais?
E mais do que isso: se, segundo a opinião daqueles com quem agora argumentamos, os deuses devem ser adorados não por causa da vida presente, mas daquela que de existir após a morte, então, certamente, não devem ser adorados por causa daquelas coisas particulares que são distribuídas e repartidas (não por nenhuma lei da verdade racional, mas por mera conjectura vã) ao poder de tais deuses, como creem que devem ser adorados aqueles que sustentam que seu culto é necessário para todas as coisas desejáveis desta vida mortal, contra os quais disputei suficientemente, na medida do que pude, nos cinco livros precedentes.
Sendo assim estas coisas, se a própria idade daqueles que adorassem a deusa Juventas se caracterizasse por notável vigor, ao passo que os seus desprezadores ou morressem dentro dos anos da juventude, ou, durante esse período, esfriassem como que pelo torpor da velhice; se a barbada Fortuna cobrisse as faces de seus adoradores de modo mais belo e mais gracioso do que a de todos os demais, enquanto víssemos aqueles por quem ela fosse desprezada ou totalmente imberbes ou mal barbados; ainda então diríamos com toda a razão que, até esse ponto, esses vários deuses teriam poder, limitado de algum modo por suas funções, e que, por conseguinte, nem se deve buscar a vida eterna de Juventas, que não pôde dar uma barba, nem se deve esperar nenhum bem após esta vida de Fortuna Barbata, que não tem poder sequer nesta vida para dar a própria idade em que a barba cresce.
Mas agora, quando o culto deles não é necessário sequer por causa daquelas mesmas coisas que julgam estar sujeitas ao seu poder (pois muitos adoradores da deusa Juventas não tiveram absolutamente nenhum vigor naquela idade, e muitos que não a adoram exultam no vigor juvenil; e também muitos suplicantes de Fortuna Barbata ou não conseguiram alcançar barba alguma, nem mesmo uma feia, embora os que a adoram para obter barba sejam ridicularizados pelos seus barbados desprezadores), será o coração humano realmente tão tolo a ponto de crer que aquele culto dos deuses, que reconhece ser vão e ridículo no tocante àqueles mesmos dons temporais e velozmente passageiros, sobre cada um dos quais se diz presidir um desses deuses, seja fecundo em resultados no tocante à vida eterna?
E que sejam capazes de dar a vida eterna não foi afirmado nem mesmo por aqueles que, para serem adorados pela populacha tola, distribuíram entre eles, em mínima repartição, essas ocupações temporais, a fim de que nenhum deles ficasse ocioso; pois haviam suposto a existência de um número extraordinariamente grande.