A Cidade de Deus - Livro IV 30
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
O que até os próprios adoradores pensaram a respeito dos deuses das nações
Cícero, o áugure, ri-se dos augúrios e censura os homens por regularem os propósitos da vida pelos gritos dos corvos e das gralhas. Mas dir-se-á que um filósofo acadêmico, que argumenta serem todas as coisas incertas, é indigno de ter qualquer autoridade nestas matérias.
No segundo livro de seu De Natura Deorum, ele introduz Lucílio Balbo, o qual, depois de mostrar que as superstições têm sua origem em verdades físicas e filosóficas, expressa sua indignação contra a fabricação de imagens e de noções fabulosas, falando assim: "Não vedes, portanto, que de descobertas físicas verdadeiras e úteis a razão pode ser desviada para deuses fabulosos e imaginários? Isto dá origem a opiniões falsas e a erros turbulentos, e a superstições quase de comadres.
Pois tanto as formas dos deuses, como suas idades, vestes e ornamentos, tornam-se-nos familiares; suas genealogias também, seus casamentos, parentescos e todas as coisas a seu respeito são rebaixadas à semelhança da fraqueza humana. São até apresentados como tendo mentes perturbadas, pois temos relatos das paixões, das preocupações e das iras dos deuses. Nem, de fato, conforme contam as fábulas, estiveram os deuses sem suas guerras e batalhas. E isto não somente quando, como em Homero, alguns deuses defenderam, de um e de outro lado, dois exércitos opostos, mas também travaram eles guerras por conta própria, como com os Titãs ou com os Gigantes.
Tais coisas é por completo absurdo, quer dizê-las, quer crê-las: são totalmente frívolas e sem fundamento." Eis, agora, o que é confessado por aqueles que defendem os deuses das nações. Em seguida, ele prossegue dizendo que algumas coisas pertencem à superstição, mas outras à religião, distinção que julga conveniente ensinar segundo os estoicos. "Pois não somente os filósofos", diz ele, "mas também nossos antepassados fizeram distinção entre superstição e religião.
Pois aqueles", diz ele, "que passavam dias inteiros em oração e ofereciam sacrifício, para que seus filhos lhes sobrevivessem, são chamados supersticiosos." Quem não vê que ele está tentando, enquanto teme o preconceito do público, louvar a religião dos antigos, e que deseja desligá-la da superstição, mas não consegue descobrir como fazê-lo? Pois se aqueles que oravam e sacrificavam o dia todo eram chamados supersticiosos pelos antigos, eram assim chamados também aqueles que instituíram (o que ele censura) as imagens dos deuses de diversas idades e de vestes distintas, e que inventaram as genealogias dos deuses, seus casamentos e parentescos?
Quando, portanto, estas coisas são censuradas como supersticiosas, ele envolve nessa falta os antigos que instituíram e adoraram tais imagens. Mais ainda, envolve a si mesmo, o qual, com toda a eloquência com que possa esforçar-se por desvencilhar-se e ficar livre, estava contudo sob a necessidade de venerar essas imagens; nem ousava sequer sussurrar num discurso ao povo o que nesta disputa proclama claramente.
Demos, pois, nós cristãos, graças ao Senhor nosso Deus, não ao céu e à terra, como aquele autor argumenta, mas Àquele que fez o céu e a terra; porque estas superstições, que aquele Balbo, qual tagarela, mal repreende, Ele, pela profundíssima humildade de Cristo, pela pregação dos apóstolos, pela fé dos mártires que morrem pela verdade e vivem com a verdade, derrubou, não somente nos corações dos religiosos, mas até nos templos dos supersticiosos, pelo próprio serviço livre destes.