A Cidade de Deus - Livro IV 1

Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos

Das coisas que foram discutidas no primeiro livro.

Tendo começado a falar da cidade de Deus, julguei necessário, antes de tudo, responder aos seus inimigos, os quais, perseguindo avidamente as alegrias terrenas e ávidos por coisas passageiras, lançam sobre a religião cristã, que é a única religião salutar e verdadeira, a culpa de todos os males que padecem nessas coisas, males que vêm antes da compaixão de Deus em adverti-los do que de sua severidade em puni-los.
E visto que entre eles também uma multidão inculta, são incitados como que pela autoridade dos doutos a odiar-nos com maior amargura, supondo, em sua inexperiência, que coisas acontecidas de modo inusitado em seus dias não costumavam acontecer em outros tempos passados; e como essa opinião deles é confirmada até por aqueles que sabem ser ela falsa, mas dissimulam o seu conhecimento para que pareçam ter justa causa de murmurar contra nós, foi necessário demonstrar, a partir dos livros em que os seus próprios autores registraram e divulgaram a história dos tempos passados, para que fosse conhecida, que as coisas são bem diferentes do que eles pensam; e, ao mesmo tempo, ensinar que os falsos deuses, a quem abertamente adoravam, ou ainda adoram em segredo, são espíritos imundíssimos, e demônios maligníssimos e enganadores, a tal ponto que se deleitam em crimes que, sejam reais ou apenas fictícios, são contudo seus, e que quiseram ver celebrados em sua honra nas suas próprias festas; de modo que a fraqueza humana não pode ser desviada da prática de feitos condenáveis enquanto se lhe fornece, para imitá-los, uma autoridade que parece até divina.
Estas coisas provamos, não a partir de nossas próprias conjecturas, mas em parte de memória recente, porque nós mesmos vimos tais coisas celebradas, e a tais divindades, em parte dos escritos daqueles que deixaram esses fatos registrados para a posteridade, não como que em censura, mas em honra dos seus próprios deuses.
Assim Varrão, homem doutíssimo entre eles e de autoridade muito ponderosa, ao compor livros distintos acerca das coisas humanas e das coisas divinas, distribuindo umas entre as humanas, outras entre as divinas, segundo a dignidade particular de cada uma, colocou os jogos cênicos não de modo algum entre as coisas humanas, mas entre as divinas; ainda que, certamente, se ao menos houvesse homens bons e honestos no Estado, os jogos cênicos não deveriam ser admitidos nem mesmo entre as coisas humanas. E isso ele não o fez por sua própria autoridade, mas porque, tendo nascido e sido educado em Roma, encontrou-os entre as coisas divinas.
Ora, como expusemos brevemente, no fim do primeiro livro, o que pretendíamos discutir depois, e como tratamos de parte disso nos dois livros seguintes, vemos o que os nossos leitores esperarão que tomemos agora a tratar.