Capítulos

Uma embarcação fechada e estanque em mar tempestuoso

Éter

Resumo de um registro anterior e independente: a migração dos jareditas na época da torre de Babel, a travessia do oceano em barcaças fechadas, a visão do irmão de Jarede e a extinção mútua do povo em guerra civil

Sobre o livro

Éter é o penúltimo livro do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith em 1830. Tem 15 capítulos e é um registro dentro do registro: quem narra é Morôni, que diz estar resumindo vinte e quatro placas de ouro encontradas pelo povo de Lími. O conteúdo original seria a crônica dos jareditas, um povo que, segundo o texto, deixou a grande torre e chegou às Américas muito antes dos grupos que ocupam o resto do livro.

E baseio meu relato nas vinte e quatro placas que foram encontradas pelo povo de Lími; e chama-se Livro de Éter.

Éter 1:2

Morôni declara que corta a maior parte do material. Ele diz que a primeira parte do registro, sobre a criação e sobre Adão até a torre, já existe entre os judeus e por isso não a reproduz. O leitor recebe, portanto, um resumo assumido, feito séculos depois da fonte que o texto descreve.

A datação depende inteiramente da posição de quem lê. Para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o registro jaredita é antigo e a compilação de Morôni é do século V da era cristã. Para historiadores fora dessa tradição, o texto é composição do século XIX. Os documentos mais antigos que existem são de 1829 e 1830: o manuscrito ditado por Joseph Smith, do qual sobrevive cerca de um quarto, e a cópia feita para o tipógrafo, essa quase completa. Não há registro anterior, nem em placas nem em cópia.

O que o livro narra

Da torre ao oceano

  • Jarede e seu irmão deixam a grande torre quando as línguas são confundidas(Éter 1:33)
  • A caravana leva rebanhos, sementes, peixes e enxames de abelhas(Éter 2:3)
  • O Senhor manda construir barcaças fechadas, ajustadas como um vaso(Éter 2:17)
  • O irmão de Jarede funde dezesseis pedras de uma rocha(Éter 3:1)
  • Ele pede que o Senhor toque as pedras para que brilhem na escuridão(Éter 3:4)
  • A travessia dura trezentos e quarenta e quatro dias(Éter 6:11)

A dinastia e a ruína

  • O povo se multiplica e se espalha sobre a terra(Éter 6:18)
  • Ciclos de reis, cativeiro e revolta atravessam gerações(Éter 7:5)
  • As combinações secretas destroem quem as sustenta(Éter 8:22)
  • Éter surge nos dias de Coriântumr e profetiza ao povo, que não acredita(Éter 12:5)
  • A guerra final consome o povo e Coriântumr fica só(Éter 15:32)

O arco é claro: um povo escolhido chega a uma terra prometida, prospera, se corrompe e se destrói por completo. Morôni interrompe a narrativa várias vezes para comentar, e a maior dessas interrupções é o capítulo 12.

O capítulo 12 e o paralelo com Hebreus

O capítulo 12 é o discurso sobre a , e é o trecho mais citado do livro. A definição de abertura acompanha de perto Hebreus 11:1 na versão King James, o texto bíblico em inglês corrente nos Estados Unidos em 1829.

Quisera mostrar ao mundo que fé são coisas que se esperam, mas não se veem; portanto, não disputeis porque não vedes, porque não recebeis testemunho senão depois da prova de vossa fé.

Éter 12:6

Aqui as leituras divergem. Críticos apontam a proximidade verbal com a King James como sinal de dependência de um texto de 1611, o que seria anacrônico num registro pré-cristão. Autores santos dos últimos dias respondem que a tradução foi vertida para o idioma bíblico familiar ao tradutor, e que a doutrina da fé como confiança no que não se vê não é exclusiva de Hebreus. As duas posições estão sobre a mesa e nenhuma delas se resolve pelo texto isolado.

O capítulo fecha com a frase mais conhecida do livro, sobre fraqueza e graça.

E dou a fraqueza aos homens a fim de que sejam humildes; e minha graça basta a todos os que se humilham perante mim.

Éter 12:27

A visão do irmão de Jarede

O capítulo 3 é o ponto doutrinariamente mais denso do livro. O irmão de Jarede pede que o Senhor toque as pedras para que iluminem as barcaças, e vê o dedo de quem toca.

E o véu foi tirado dos olhos do irmão de Jarede e ele viu o dedo do Senhor; e era como o dedo de um homem, à semelhança de carne e sangue.

Éter 3:6

O texto explica em seguida que o corpo visto é o corpo do espírito de Cristo antes da encarnação, e que o homem foi criado segundo esse corpo. Para a teologia dos santos dos últimos dias, isso é central: o Pai e o Filho têm corpo, tese formulada de modo explícito em Doutrina e Convênios 130:22, de 1843. A passagem é lida como confirmação antiga dessa doutrina.

A divergência com a tradição cristã majoritária é real e vale registrar sem verniz. Católicos, ortodoxos e protestantes historicamente confessam Deus como incorpóreo, imaterial e sem partes, formulação que vem dos Padres e é pressuposta pelos credos antigos. Nessa leitura, um Deus com corpo antes da encarnação contradiz o que os concílios afirmam. Os santos dos últimos dias respondem que a incorporeidade é herança da filosofia grega e não do texto bíblico, e apontam antropomorfismos do Antigo Testamento. Não há aqui um erro factual a arbitrar: é uma diferença doutrinária de fundo entre duas leituras da mesma tradição.

A origem das línguas na torre

O livro apoia toda a sua premissa em Gênesis 11: os jareditas partem quando as línguas são confundidas, e conservam a sua. Convém separar o que é fato e o que é posição.

Do lado da erudição, a linguística histórica não sustenta Gênesis 11 como relato da origem das línguas humanas. O método comparativo reconstrói proto-línguas com alcance útil de alguns milhares de anos, e a maioria dos especialistas considera que ele perde resolução muito antes de qualquer ancestral comum universal. Existem mais de cem famílias linguísticas sem parentesco demonstrado entre si, e não há reconstrução aceita de uma língua única original. Isso não prova que ela nunca existiu; significa que o campo não a alcança e não a usa como hipótese de trabalho.

Do lado dos santos dos últimos dias e de leitores tradicionais em geral, a resposta corrente é que o episódio da torre descreve um evento localizado, não um censo das línguas do planeta, e que a narrativa não depende de a linguística poder ou não recuperar aquele estágio. É uma posição interna coerente, e não é testável pelos mesmos métodos. As duas leituras permanecem em desacordo.

O que a arqueologia mostra e o que ela não mostra

O texto descreve uma civilização grande e antiga nas Américas. O capítulo 15 fala em cerca de dois milhões de mortos apenas na guerra final, além de mulheres e crianças.

E viu que quase dois milhões dos de seu povo já haviam sido mortos pela espada.

Éter 15:2

A arqueologia americana não identificou nenhuma população que corresponda aos jareditas. Também não há, no horizonte arqueológico das Américas pré-colombianas, atestação de vários elementos que o livro descreve como cotidianos: cavalos e jumentos domesticados, gado, ovelhas e porcos do Velho Mundo, metalurgia de ferro e aço nas escalas citadas, ou um sistema de escrita ligado ao Oriente Próximo. O Instituto Smithsonian responde a consultas sobre o assunto com uma carta-padrão declarando que nunca usou o livro como guia de pesquisa arqueológica e que seus arqueólogos não veem conexão entre a arqueologia do Novo Mundo e o conteúdo da obra.

A resposta apologética dos santos dos últimos dias trabalha em três linhas: um modelo geográfico limitado, que restringe os eventos a uma área pequena da Mesoamérica em vez de dois continentes; a observação de que ausência de evidência não é, por si, evidência de ausência, sobretudo em climas tropicais e em regiões escavadas de forma desigual; e propostas de tradução dos termos, em que nomes de animais e metais teriam sido aplicados por analogia a espécies e materiais locais. Autores como Hugh Nibley também procuraram paralelos entre os jareditas e migrações da Ásia central. Críticos consideram essas respostas ad hoc e não falsificáveis. O impasse é conhecido e não se resolveu.

Lugar do livro

Dentro do Livro de Mórmon, Éter cumpre uma função de espelho: mostra um povo anterior que percorreu o mesmo ciclo de bênção e ruína, como advertência para o povo principal da narrativa e para o leitor. Fora dessa tradição, o livro é lido como documento religioso do século XIX e como janela para as preocupações do seu ambiente. Hospedamos o texto para que cada leitor o examine diretamente, junto com as questões que ele levanta.