Capítulos

Malaquias
Autoria e Data de Composição
O livro abre com um oráculo da palavra do Senhor a Israel por meio de Malaquias:
O nome Malaquias em hebraico significa literalmente "meu mensageiro", exatamente a expressão que reaparece em Malaquias 3:1 ("eis que envio o meu mensageiro"), agora como função e não como nome.
Essa coincidência é antiga: a Septuaginta verteu o cabeçalho como "por mão do seu mensageiro", e o Targum chegou a glosar o termo identificando-o com Esdras, o escriba. Daí parte dos estudiosos lê "Malaquias" não como antropônimo, mas como título extraído do próprio texto para rotular uma coleção que circulava sem autor, reforçados pelo fato de que a forma não está atestada como nome pessoal em nenhum outro lugar.
Em sentido contrário, observa-se que a forma tem o feitio normal de um nome hipocorístico hebraico (abreviação de algo como "mensageiro de Yah") e que todos os outros onze profetas menores se abrem com nome próprio, o que faz a convenção do cabeçalho pesar a favor de uma pessoa real. A evidência é genuinamente ambígua, e o que fica em aberto é a identidade do homem, não a integridade da mensagem.
A datação, por outro lado, repousa em evidência interna incomumente convergente. O templo já está em funcionamento e o culto sacrificial é pressuposto como rotina, o que situa o livro depois da reconstrução de 516/515 a.C.:
O dado mais preciso é o termo persa pehá em Malaquias 1:8, o título administrativo aquemênida que designava o governador provincial de Yehud, o mesmo que Zorobabel e Neemias carregaram.
A presença desse vocabulário do império, sem menção a rei davídico ou a restauração monárquica, ancora o texto no pós-exílio tardio, em geral no século V a.C. Aqui o argumento crítico e o conservador praticamente coincidem.
A janela costuma ser estreitada para cerca de 460 a 433 a.C. pela sobreposição temática com as reformas de Esdras e Neemias: sacerdócio relapso, dízimos sonegados e casamentos com mulheres estrangeiras são ponto por ponto a agenda que Neemias 13 e Esdras 9 atacam administrativamente.
Há quem situe Malaquias às vésperas dessas reformas e quem o coloque no refluxo posterior; a posição exata permanece indeterminada. Vale notar uma tensão de detalhe: o governador de Malaquias 1:8 é descrito esperando tributo pessoal, postura que contrasta com a recusa explícita de Neemias a tais provisões, o que sugere uma conjuntura administrativa específica.
Manuscritos
O livro está preservado no Texto Massorético e na Septuaginta. Fragmentos de Malaquias foram identificados entre os Manuscritos do Mar Morto, em Qumran. Não há grandes disputas textuais sobre o corpo do livro; os pontos mais obscuros do hebraico estão em versículos pontuais como Malaquias 2:15-16, cuja tradução é debatida.
A posição de Malaquias no fim do Antigo Testamento cristão é uma escolha de arranjo, não um dado do texto. A tradição cristã, seguindo a sequência da Septuaginta (Lei, História, Sabedoria, Profetas), encerra com os profetas, deixando como última palavra a promessa do precursor antes do Dia do Senhor. A Bíblia Hebraica termina em Crônicas, com o decreto de Ciro autorizando reconstruir o templo, em nota de retorno e restauração. A mesma coleção sustenta dois clímaxes distintos conforme quem a ordena.
Conteúdo do Livro
Amor de Deus por Israel

- Título: oráculo da palavra do Senhor a Israel por meio de Malaquias — (Ml 1:1)
- Declaração do amor de Deus e o questionamento do povo: "Como nos amaste?" — (Ml 1:2)
- Acusação contra os sacerdotes por oferecer sacrifícios defeituosos e desprezar o altar — (Ml 1:6)
- Visão do nome do Senhor sendo honrado entre as nações, do nascente ao poente — (Ml 1:11)
Infidelidade dos Sacerdotes e do Povo

- Advertência aos sacerdotes: a aliança com Levi e sua violação — (Ml 2:1)
- Acusação por casamentos com mulheres de outros deuses e divórcios arbitrários — (Ml 2:10)
- Declaração: "porque eu odeio o divórcio, diz o Senhor, Deus de Israel" — (Ml 2:16)
- O povo cansa a Deus com palavras: "todo aquele que faz o mal é bom aos olhos do Senhor" — (Ml 2:17)
O Mensageiro que Prepara o Caminho

- Promessa do mensageiro que preparará o caminho e o Senhor que virá ao templo — (Ml 3:1)
- Juízo contra feiticeiros, adúlteros, opressores e os que retêm o salário do trabalhador — (Ml 3:5)
- Acusação de roubar a Deus nos dízimos e ofertas, com promessa de bênção para os fiéis — (Ml 3:8)
- O livro de memórias dos que temem o Senhor — (Ml 3:16)
O Dia do Senhor e o Profeta Elias

Casamentos mistos, dízimos e o gênero do livro
As seis controvérsias de Malaquias seguem o molde do rib, o processo judicial de aliança: acusação divina, objeção do povo no recorrente "mas vós dizeis" e réplica do Senhor. É uma forma literária convencional, com paralelos na retórica profética anterior e na linguagem de tratados do Antigo Oriente Próximo. O apelo a trazer os dízimos à casa do tesouro, muitas vezes lido como promessa atemporal de prosperidade, é na origem um apelo orçamentário concreto: sustentar o templo e o clero levítico numa economia de subsistência onde a sonegação ameaçava a instituição (paralelo a Neemias 13:10-14):
A condenação dos casamentos mistos e do divórcio em Malaquias 2:10-16 é o ponto mais discutido.
Parte dos estudiosos suspeita que a menção explícita ao casamento com a mulher estrangeira em 2:11 seja inserção posterior, sintonizada com a campanha de Esdras e Neemias. Há ainda uma divergência de ênfase entre os corpora: Malaquias ataca o homem que descarta a esposa da juventude invocando "um só Deus nos criou" e a fidelidade ao pacto, enquanto Esdras e Neemias enquadram a questão também em termos de pureza da comunidade e ordenam a dissolução em massa dos casamentos:
Quem vê aí contradição lê dois mandamentos incompatíveis sobre o que fazer com a família estrangeira; quem vê convergência lê dois ângulos, o oracular e o administrativo, sobre a mesma crise. O hebraico de Malaquias 2:15-16 é dos mais obscuros do livro, e parte do desacordo é também de tradução.
O mensageiro, Elias e o Novo Testamento
O fecho do livro (Malaquias 4:4-6, equivalente a 3:22-24 no hebraico) destoa do restante: somem o estilo de pergunta e resposta e a fórmula "diz o Senhor dos Exércitos", e o vocabulário muda.
Boa parte dos especialistas o lê como acréscimo redacional (para alguns, dois acréscimos sobrepostos: o apelo à Torá de Moisés e a promessa do retorno de Elias), encadeando Lei e Profecia para fechar a coleção dos Doze. Nem todos aceitam a divisão; o ponto amplamente partilhado é que esses versículos não nasceram com o resto. Há também um deslocamento entre Malaquias 3:1, onde o "mensageiro da aliança" é figura ambígua próxima do anjo do Senhor, e o apêndice, que o nomeia "Elias, o profeta", identificação posterior que rebaixa a figura a um precursor humano.
O Novo Testamento herda essa leitura editada e a aplica a João Batista:
O quarto Evangelho registra o próprio João negando ser Elias:
Enquanto Jesus afirma que ele é o Elias que havia de vir, com a ressalva "se quereis dar crédito":
A tensão se dissolve pela distinção que os próprios textos fornecem: a expectativa judaica era de um retorno literal de Elias, que não morreu:
E Lucas 1:17 diz que João viria "no espírito e poder de Elias", ou seja, cumprindo a função sem ser a mesma pessoa.
Essa releitura tipológica é uma convenção de leitura documentada; permanece em aberto, e o texto não decide sozinho, se ela revela um sentido já semeado ou se é projeção retroativa da comunidade cristã. O próprio Malaquias, no século V a.C., dialogava com a reforma do culto no templo recém-reconstruído, não com um personagem oito gerações adiante.
A imagem do amor eletivo de Deus que abre o livro, com a oposição entre Jacó e Esaú, é retomada por Paulo no argumento sobre a eleição divina:
A tradição judaica fala de um silêncio profético de cerca de quatrocentos anos entre Malaquias e João Batista, leitura que depende diretamente do arranjo cristão que coloca Malaquias por último.