Capítulos

Joel
Autoria e Data de Composição
O livro se apresenta como palavra do Senhor a Joel, filho de Petuel (jl 1:1), nome que não reaparece em nenhum outro ponto do registro bíblico ou epigráfico, e o texto não fornece nenhum outro dado biográfico. Ao contrário de Oséias, Amós ou Isaías, que abrem datando o oráculo pelos reis que reinavam, Joel não traz superscrição com nome de rei, não nomeia império agressor e não fixa nenhum evento histórico. Por isso a datação é um dos pontos mais disputados do livro: propostas sérias vão do século 9 a.C. ao século 4 a.C., e essa amplitude de quatro séculos não decorre de falta de estudo, mas da pobreza de marcadores internos.
Quem defende uma data pré-exílica alta lembra que a ausência de rei não exige monarquia extinta: ela combina também com o interregno após Atalia, quando o sacerdote Joiada governava em nome do menino-rei Joás, o que explicaria o apelo de Joel aos sacerdotes e não a um trono. Quem prefere o pós-exílio aponta o Templo em pleno funcionamento (jl 1:9; jl 2:17) sem monarca à vista, com a liderança nas mãos de anciãos e sacerdotes (o arranjo da Judá persa), a linguagem de uma dispersão já consumada e a menção, em jl 3:6, à venda de judeus aos "filhos dos gregos", lida por muitos como sinal de data tardia.
O argumento grego, porém, não é decisivo: comerciantes jônios (yawan) já aparecem em registros assírios do século 8 a.C., de modo que conhecer gregos não exige o mundo helenizado posterior a Alexandre, e o trecho de jl 3:4-8 está em prosa, o que levanta a suspeita de ser acréscimo redacional ao núcleo poético. A própria ausência de rei corta para os dois lados, já que Naum e Habacuque também não mencionam reis sem por isso serem tardios. A posição do livro entre Oséias e Amós no cânon hebraico é arranjo editorial, não cronologia. A balança acadêmica atual pende para o período do Segundo Templo (séculos 5-4 a.C.), mas como inferência a partir das instituições que o texto pressupõe, não como dado direto, e a questão permanece em aberto.
Manuscritos
Data: Séc. 1 a.C. a séc. 2 d.C.
Fragmentos de Joel foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, incluídos no conjunto dos Doze Profetas Menores de Qumran (4QXIIa-g). O manuscrito 4Q82 (4QXIIg), do final do século 1 a.C., preserva partes de Joel. Fragmentos adicionais foram encontrados em Wadi Murabba’at, datados do século 2 d.C. O texto hebraico dos manuscritos é próximo ao Texto Massorético.
Conteúdo do Livro
A Praga dos Gafanhotos e o Lamento

- Chamado aos anciãos para testemunhar a devastação da terra pelos gafanhotos — (Jl 1:2)
- Lamento como de uma noiva pela morte do esposo — (Jl 1:8)
- Convocação dos sacerdotes ao jejum e ao lamento diante do altar — (Jl 1:13)
- "O Dia do Senhor está próximo": a catástrofe presente como prefiguração do juízo — (Jl 1:15)
Chamado ao Arrependimento e Promessa

- Toque de trombeta em Sião: anúncio do Dia do Senhor como exército invasor — (Jl 2:1)
- Chamado ao retorno sincero a Deus, rasgando o coração e não as vestes — (Jl 2:12)
- Deus tem ciúme de sua terra e promete restaurar a fertilidade — (Jl 2:18)
- Derramamento do Espírito sobre toda a carne: profecia, sonhos e visões — (Jl 2:28)
- Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo — (Jl 2:32)
Juízo das Nações e Restauração Final

- Vale de Josafá: julgamento das nações que dispersaram Israel — (Jl 3:2)
- "Forjai vossas relhas em espadas": inversão da profecia de Isaías e Miquéias — (Jl 3:10)
- Deus ruge de Sião e é refúgio para Israel — (Jl 3:16)
- Visão escatológica: colinas a gotejar vinho doce e fontes a brotar de Jerusalém — (Jl 3:18)
Os Gafanhotos e o Dia do Senhor
A descrição da praga em jl 1 é precisa demais para ser pura alegoria: as fases do inseto correspondem a estágios reais conhecidos da entomologia do Levante, e a devastação econômica relatada (perda da oferta de cereais e da libação no Templo) reflete uma crise agrícola concreta, num tipo de calamidade recorrente na região. Nada exige negar que uma praga histórica esteja na origem do livro, ainda que não haja como fixá-la num ano. O que se observa é a costura: a partir de jl 2 a linguagem escala sem fronteira nítida para um cataclismo cósmico, com o sol escurecido, a lua em sangue e o juízo das nações.
Essa passagem fluida do inseto ao fim do mundo é lida de dois modos. Parte da crítica a vê como a assinatura do proto-apocalíptico, o estágio em que a profecia clássica começa a virar a linguagem que floresceria em Daniel e no Apocalipse, e situa nisso a marca de um teólogo do pós-exílio reaproveitando um desastre concreto como moldura de esperança escatológica. Outra leitura observa que a literatura do Antigo Oriente Próximo regularmente sobrepõe evento histórico e significado cósmico sem que isso implique autores distintos, de modo que a praga presente funciona como tipo do juízo definitivo dentro de uma convenção retórica única. O texto não decide a questão; a ambiguidade entre o gafanhoto real e o gafanhoto como signo parece ser do próprio Joel.
O Espírito sobre Toda Carne e Atos 2
No seu horizonte original, a promessa de que o Espírito desceria "sobre toda carne" (jl 2:28-32, ou jl 3:1-5 na numeração hebraica) não é universalismo no sentido cristão posterior: o "toda carne" se especifica logo em "vossos filhos e vossas filhas, vossos velhos e vossos jovens, os servos e as servas", ou seja, todas as camadas de Israel sem distinção de idade, sexo ou condição, dentro de uma promessa nacional de restauração rematada pela salvação "no monte Sião e em Jerusalém". O alvo é a casa de Israel reconstituída.
Pedro aplica o oráculo ao Pentecostes em:
e o aparato textual é instrutivo. A citação segue a Septuaginta, não o hebraico, e ainda assim diverge dela em pontos de peso: onde Joel diz "e acontecerá depois disto", Atos reescreve "e acontecerá nos últimos dias, diz Deus", inserindo a fórmula profética e a moldura escatológica que não estão na fonte. Para parte da crítica isso evidencia exegese aplicada, o mesmo movimento documentado em Qumran e na interpretação rabínica, em que um oráculo é remontado para a comunidade que o lê. Outra leitura responde que Pedro não descarta o sentido de Joel, e sim reivindica que a restauração prometida começou, tendo como marca a democratização do Espírito que o profeta anunciou, não mais restrito a reis e profetas ungidos. Fica genuinamente em aberto a parte do oráculo que o Pentecostes não realizou (o sol em trevas, a lua em sangue, o juízo das nações), o que levou a teologia cristã a desenvolver a categoria de cumprimento inaugurado mas não consumado. A frase "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (jl 2:32) é retomada também em:
A expressão "vale de Josafá" (jl 3:2) não corresponde a nenhuma localidade geográfica identificada com certeza. O nome significa "o Senhor julga" e é entendido pela maioria dos estudiosos como simbólico, não topográfico.