Capítulos

Ester
Autoria e Data de Composição
O livro de Ester é anônimo. A tradição especulou sobre autores como Mardoqueu, Esdras ou Neemias, mas sem base textual conclusiva. O próprio livro não menciona o autor. Outro dado relevante: o nome de Deus não aparece em nenhum momento no texto hebraico (a versão grega da Septuaginta acrescenta orações e referências a Deus que não existem no hebraico).
A data de composição é debatida: parte dos estudiosos favorece a segunda metade do século V a.C. ou início do IV a.C. (período persa), com base no vocabulário hebraico e no conhecimento de costumes persas; outros propõem datação helenística, no século III ou II a.C. Não há consenso. A narrativa se situa no reinado de Assuero, identificado com o rei persa Xerxes I (486-465 a.C.). Alguns estudiosos propõem que o livro é uma novela histórica ou conto, não uma crônica factual, dado que não há confirmação externa de Ester como rainha persa nem de um decreto de extermínio dos judeus nos arquivos persas.
Manuscritos
O texto hebraico é preservado no Texto Massorético. Um dado notável é que nenhum fragmento inequívoco de Ester foi encontrado em Qumran, tornando-o o único livro do cânone hebraico sem presença clara entre os Manuscritos do Mar Morto (outros livros como Neemias e 1 Crônicas também têm presença mínima, mas Ester é o caso mais marcante). As razões não são claras: pode ser acidente de preservação, ou pode refletir uma posição especial do livro na comunidade de Qumran.
A Septuaginta contém uma versão de Ester significativamente expandida, com seis seções adicionais que incluem orações de Ester e Mardoqueu, menções explícitas a Deus e cartas reais completas. Essas adições são classificadas como deuterocanônicas por católicos e ortodoxos, e como apócrifas por protestantes.
Eventos do Livro
Ester na Corte Persa

O Complô de Hamã

- Hamã é promovido e exige reverência; Mardoqueu se recusa a se prostrar — (Et 3:1)
- Hamã lança a sorte (pur) para escolher a data do extermínio dos judeus — (Et 3:7)
- Decreto real para exterminar todos os judeus do Império Persa no dia 13 de Adar — (Et 3:12)
- Mardoqueu luta e veste panos de saco; pede que Ester interceda junto ao rei — (Et 4:1)
- Mardoqueu exorta Ester: "Quem sabe se para tal momento como este chegaste ao reino?" — (Et 4:14)
Intervenção de Ester e Queda de Hamã

- Ester se apresenta ao rei sem ser convocada (pena de morte); é recebida com favor — (Et 5:1)
- Rei não consegue dormir; descobre que Mardoqueu salvou sua vida e nunca foi honrado — (Et 6:1)
- Hamã, humilhado, deve honrar Mardoqueu publicamente — (Et 6:10)
- Ester denuncia Hamã ao rei no banquete; Hamã é enforcado na forca que preparara para Mardoqueu — (Et 7:1)
Salvação dos Judeus e Festa de Purim

Historicidade e Debate
Historiadores debatem o caráter histórico de Ester. O rei Xerxes I realmente existiu e está bem documentado em fontes persas e gregas (inclusive por Heródoto). Contudo, o nome Ester não aparece nos registros persas conhecidos como rainha. A rainha conhecida de Xerxes I nos documentos persas é chamada Amestris. Alguns pesquisadores tentam identificações, mas sem consenso.
A festa de Purim, celebrada até hoje pela comunidade judaica, tem sua origem narrada neste livro. Independentemente da historicidade dos eventos, o livro evidentemente cumpria função teológica e identitária para a diáspora judaica: a fé na providência divina mesmo em território estrangeiro, sem mencionar Deus explicitamente.