Capítulos

Atos
Autoria e Data de Composição
Atos é o segundo volume de uma obra em duas partes. O prólogo retoma um "primeiro livro" dedicado a Teófilo, endereçado ao mesmo destinatário do terceiro evangelho, e a ascensão com que Atos abre repete a cena que encerra Lucas. Os dois textos compartilham vocabulário, estilo e teologia, o que sustenta a tese de autoria comum aceita pela maioria dos estudiosos. O texto, contudo, não se nomeia: a atribuição a Lucas, companheiro de Paulo, vem da tradição cristã dos séculos II e III, não do livro em si.
A identificação com o "Lucas, o médico amado" das cartas paulinas é tradicional, mas não verificável pelo texto. Parte dos acadêmicos questiona a proximidade do autor com Paulo, porque o Paulo retratado em Atos diverge em pontos teológicos do Paulo das cartas autênticas (a respeito da Lei, da justificação e do estatuto apostólico) e porque a cronologia das viagens não casa com facilidade com o relato em primeira pessoa de Gálatas. Não há consenso firme sobre a identidade exata do autor.
A data de composição é incerta e duas propostas principais circulam. A datação precoce (por volta de 62-64 d.C.) lê o final abrupto, com Paulo ainda preso em Roma, como sinal de que a obra foi escrita antes de o desfecho ser conhecido. A datação tardia (entre 80 e 90 d.C.) aponta para indícios internos, sobretudo a forma como a profecia sobre a destruição de Jerusalém aparece em Lucas, que muitos leem como ajustada a um evento já consumado em 70 d.C. A primeira posição é defendida sobretudo por estudiosos conservadores; a segunda reúne a maioria do consenso crítico. Nenhuma das duas é demonstrável.
Manuscritos
Atos é preservado em dois tipos textuais distintos: o texto alexandrino (mais curto, presente em manuscritos como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, século IV) e o texto ocidental (cerca de 10% mais longo, presente no Codex Bezae, século V). A razão para essa divergência não está resolvida: alguns acreditam que o texto ocidental expande o alexandrino, outros propõem que o autor produziu duas edições.
O Papiro P45 (Papiros de Chester Beatty, datado do século III) contém fragmentos de Atos e é um dos testemunhos manuscritos mais antigos do livro. Fragmentos adicionais aparecem em P50 e P53.
Eventos do Livro
Prólogo e Ascensão

Pentecostes e Igreja em Jerusalém (caps. 2 a 7)

- Descida do Espírito Santo no Pentecostes: glossolalia e conversão de cerca de três mil pessoas — (At 2:1)
- Vida comunitária da primeira comunidade: ensino, partilha e fração do pão — (At 2:42)
- Pedro e João curam um paralítico na Porta Formosa do templo — (At 3:1)
- Pedro e João são presos e interrogados pelo Sinédrio — (At 4:1)
- Morte de Ananias e Safira por mentir à comunidade — (At 5:1)
- Eleição dos sete diáconos, incluindo Estêvão e Filipe — (At 6:1)
- Martírio de Estêvão: primeiro mártir cristão registrado — (At 7:54)
Expansão para a Samaria e regiões vizinhas (caps. 8 a 12)

- Filipe evangeliza a Samaria após a perseguição que dispersa a comunidade — (At 8:4)
- Filipe e o eunuco etíope: batismo no caminho de Gaza — (At 8:26)
- Conversão de Saulo (Paulo) no caminho de Damasco — (At 9:1)
- Pedro ressuscita Tabita em Jope — (At 9:36)
- Pedro e Cornélio: batismo do primeiro gentio, abertura do evangelho aos não judeus — (At 10:1)
- Herodes mata Tiago e prende Pedro. Pedro é libertado por um anjo — (At 12:1)
Primeira viagem missionária de Paulo (caps. 13 a 14)

- Barnabé e Paulo enviados pela comunidade de Antioquia — (At 13:1)
- Paulo prega na sinagoga de Antioquia da Pisídia: discurso sobre a história de Israel e ressurreição — (At 13:14)
- Cura de um paralítico em Listra e tentativa de culto a Paulo e Barnabé como deuses — (At 14:8)
Concílio de Jerusalém (cap. 15)

- Debate sobre a circuncisão dos gentios convertidos — (At 15:1)
- Decisão apostólica: gentios ficam dispensados da circuncisão mas devem observar algumas normas — (At 15:22)
Segunda e terceira viagens missionárias (caps. 16 a 21)

- Visão macedônia: Paulo leva o evangelho à Europa pela primeira vez — (At 16:9)
- Paulo e Silas presos em Filipos após libertar uma escrava de espírito de adivinhação — (At 16:16)
- Discurso de Paulo no Areópago de Atenas: "o Deus desconhecido" — (At 17:16)
- Paulo em Corinto por dezoito meses, trabalha com Áquila e Priscila — (At 18:1)
- Paulo em Éfeso por cerca de dois anos; revolta dos artesãos de prata liderada por Demétrio — (At 19:1)
- Em Trôade, Paulo ressuscita Êutico e prega até o amanhecer — (At 20:7)
- Discurso de despedida aos presbíteros de Éfeso em Mileto — (At 20:17)
Prisão de Paulo e viagem a Roma (caps. 21 a 28)

- Paulo é preso em Jerusalém após tumulto no templo — (At 21:27)
- Paulo discursa ao povo e ao Sinédrio em sua própria defesa — (At 22:1)
- Paulo apela ao César como cidadão romano — (At 25:11)
- Viagem marítima para Roma, tempestade e naufrágio em Malta — (At 27:1)
- Paulo em Roma: recebe visitantes e prega livremente por dois anos sob prisão domiciliar — (At 28:16)
Os discursos
Cerca de vinte e quatro discursos ocupam quase um terço de Atos, e seu gênero condiciona como devem ser lidos. Atos pertence à historiografia helenística, cuja convenção, formulada por Tucídides e seguida por séculos, era compor os discursos segundo o que a personagem teria dito conforme a ocasião exigia, preservando o sentido geral e não a transcrição literal. Martin Dibelius observou que os discursos de Atos compartilham vocabulário, estrutura e teologia uniformes, fale Pedro em Jerusalém ou Paulo em Atenas, o que é coerente com composição autoral segundo o decoro retórico. O discurso no Areópago, com sua moldura filosófica grega e citação de poetas pagãos, é o exemplo mais claro.
Defensores da confiabilidade, como F. F. Bruce e Colin Hemer, respondem que os discursos exibem variação de vocabulário, teologia primitiva e cor local que destoam de uma voz autoral única, sinal de trabalho sobre tradição anterior. O ponto que permanece é mais modesto que qualquer das polarizações: o gênero antigo autorizava a composição, de modo que fidelidade ao sentido não equivale a citação literal, mas tampouco implica invenção livre.
As "seções nós" e a autoria
Nos capítulos 16, 20, 21, 27 e 28 a narrativa passa abruptamente para a primeira pessoa do plural ("partimos", "chegamos"). Essa marca é o pilar do argumento de testemunha ocular. Vernon Robbins propôs que o "nós" era convenção literária das narrativas de viagem marítima na Antiguidade, e não prova de presença do autor. A crítica posterior a Robbins é legítima: seu corpus comparativo é amplo demais em língua e em época, e vários dos paralelos que cita são, eles próprios, relatos de presença real. A favor da leitura tradicional pesa o detalhe náutico do naufrágio em Atos, denso de sondagens, manobras e rota de cabotagem coerentes com a navegação mediterrânea do primeiro século, precisão que a mera imitação de gênero não geraria.
Conceder o detalhe, porém, não restabelece por si só a autoria de um companheiro de Paulo. Desde Philipp Vielhauer permanece a tensão maior: o Paulo de Atos diverge teologicamente do Paulo das cartas, e a cronologia das viagens conflita com o relato em primeira pessoa de Gálatas. O "nós", seja fonte de itinerário incorporada, seja recurso de verossimilhança, não carrega sozinho o peso da autoria ocular.
Atos 15 e Gálatas 2
O nó mais discutido opõe o concílio de Atos ao relato em primeira pessoa de Gálatas. Atos narra uma deliberação pública em Jerusalém, encerrada por uma carta e por quatro cláusulas (abster-se de carne sacrificada a ídolos, de sangue, de animais sufocados e de imoralidade sexual). Gálatas descreve o mesmo entendimento como reunião privada com os "que pareciam ser as colunas", sem mencionar decreto algum, e segue narrando um confronto público de Paulo com Pedro em Antioquia. A maioria dos especialistas identifica os dois textos como o mesmo evento, pelos mesmos protagonistas e pela mesma pauta da circuncisão.
A leitura crítica vê aí a tendência de Atos a suavizar um conflito que as cartas, fonte primária e interessada, mostram em carne viva: o silêncio de Paulo sobre o decreto, numa carta cujo argumento inteiro é a liberdade gentílica, seria difícil de explicar se esse decreto já existisse na forma que Lucas lhe atribui. A leitura conservadora oferece duas saídas: identificar Gálatas com a visita anterior de Atos, datando Gálatas antes do concílio, de modo que o silêncio seja anterioridade e não supressão. A favor da autenticidade do núcleo, observa-se que as cláusulas são especificamente judaicas e haláquicas, próximas das regras do estrangeiro residente de Levítico e Levítico, o tipo de compromisso embaraçoso que uma igreja gentílica posterior teria motivo para apagar, não para inventar. O que nenhuma harmonização desfaz é a diferença de tom entre a narrativa serena e a carta polêmica.
Pentecostes e a citação de Joel
O relato de Atos apresenta uma tensão interna. O narrador descreve línguas humanas inteligíveis, em que cada peregrino da diáspora ouve no próprio dialeto, mas a zombaria dos espectadores, que supõem embriaguez, faria mais sentido diante da glossolalia extática que Paulo descreve em 1 Coríntios como fala que, sem intérprete, parece loucura. A lista de nações funciona como reversão deliberada de Babel: onde Deus confundira as línguas, aqui elas se reúnem, antecipando o programa de chegar "até os confins da terra".
A citação de Joel é o ponto onde a mão do autor fica documentável. Pedro segue de perto a Septuaginta, a tradução grega, e não o hebraico, e troca o "depois disto" do profeta por "nos últimos dias" em Atos, releitura escatológica que data o presente da comunidade como início do tempo final. Para a crítica, é Pentecostes que é narrado de modo a cumprir a profecia, com o texto-fonte ajustado. Em contrapartida, atualizar um oráculo profético aplicando-o ao "fim dos dias" da própria comunidade é exatamente a técnica exegética judaica do Segundo Templo, atestada nos pesharim de Qumran, e a presença de moldura teológica não decide, por si só, a historicidade do episódio que ela interpreta.
Atos e Roma: o final aberto
Várias autoridades romanas absolvem ou se recusam a condenar Paulo: Gálio descarta a queixa em Corinto, Festo e Agripa concluem que ele poderia ter sido solto não fosse o apelo a César. Henry Cadbury e Hans Conzelmann leram esse padrão como apologia: um esforço de apresentar o cristianismo como movimento politicamente inofensivo. A moldura administrativa, porém, resiste bem ao escrutínio. A inscrição de Delfos fixa Gálio como procônsul da Acaia por volta de 51 a 52 d.C., sincronizando com a estada de Paulo em Corinto e fornecendo o ponto mais firme da cronologia paulina; a sucessão de Félix por Pórcio Festo e a morte súbita de Herodes Agripa I têm paralelo em Flávio Josefo. Acertar a moldura político-administrativa prova competência historiográfica, não revelação, do mesmo modo que a precisão topográfica de um romance histórico não torna verídicos seus diálogos.
O livro termina sem veredito, com Paulo dois anos em prisão domiciliar pregando "sem impedimento". As leituras se bifurcam: a datação precoce vê aí a prova de que a obra foi escrita antes do desfecho; a leitura teológico-literária responde que, alcançada Roma, capital do mundo, o arco anunciado em Atos se cumpriu, e a sorte pessoal de Paulo passou a ser secundária. A hipótese de um terceiro volume planejado não tem apoio manuscrito ou patrístico. Eusébio, na sua História Eclesiástica, transmite a tradição independente do martírio de Paulo em Roma, o que enfraquece a ideia de que o silêncio do livro esconderia um desfecho desfavorável. Nenhuma das datações é demonstrável a partir do texto.